Factor racional

Rui Calafate

Rui Calafate

Consultor de comunicação
Rui Calafate

A memória e a marca do Zorro

Quem trabalha em comunicação sabe que o tempo das notícias é cada vez mais curto, a voracidade das redes sociais impõe a sua lei marcada pelo ritmo de uma nova polémica. Antigamente uma crise era longa, hoje, é um cataclismo e é demolidora no momento, mas é rapidamente abafada por um tema fresco que ocupa as agendas mediáticas. A memória do que é bom é rapidamente esquecida. Querem exemplos?

Alguém se lembra do notável momento de comunicação organizado pelas boas gentes do Tondela, que levou Pepa, o seu treinador, e Miguel Cardoso, homólogo do Rio Ave, dois homens de discurso positivo, com gosto pelo futebol atractivo e de ataque, a estarem lado-a-lado na conferência de imprensa após o jogo ganho pelos de Vila do Conde? Poucos. Pois logo em seguida as notícias em contraste com este momento exemplar foram casos graves de violência em diversos campos do País.

Também já quase ninguém se lembra de que o Benfica ao empatar no Dragão se colocou a três pontos da liderança e deu sinais de que estava ali para a luta, quando depois de mais uma derrota na Champions, no pior registo de sempre de um clube português, com seis derrotas, Rui Vitória foi brindado com lenços brancos. E são merecidos, porque o prestígio das águias foi um mero fantasma nesta campanha negra que o próprio presidente criticou em público numa entrevista que deu à BTV.

O Porto teve uma prestação meritória na Champions pondo de lado os dois resultados, em casa e nas Aves na I Liga, que não constam do cardápio mental de Sérgio Conceição, pois é um homem que só tem na mente a vitória. E com esta passagem aos oitavos-de-final, mas sobretudo com as exibições de enorme caudal ofensivo que tem conseguido para consumo interno, na memória dos portistas já estão num canto bem obscuro os tempos de Julen Lopetegui e Nuno Espírito Santo que pareciam ter orgasmos a jogar de pé-para-pé sem que olhassem para a baliza adversária.

Ao contrário de outras temporadas, o Sporting teve uma honrosa prestação na Liga dos Campeões. Num grupo difícil, com Juventus e Barcelona, cumpriu a sua tarefa ganhando dois jogos e dando luta taco-a-taco a dois gigantes, o que é de enaltecer porque assim os leões viram o seu prestígio reforçado e vários jogadores brilharam numa montra que é essencial para a sobrevivência económica dos clubes portugueses. E está na Liga Europa onde existe potencial para brilhar e ir longe.

Para finalizar, longe vão os tempos em que Paulo Fonseca saiu pela porta pequena do Dragão. Talvez, na altura, ainda não estivesse preparado para o desafio que assumiu. Hoje, brilha enormemente no Shakhtar e impôs a primeira derrota ao magnífico Manchester City de Guardiola. E valorizou a sua marca surgindo vestido de Zorro como prometeu. A memória é curta e no futebol o seu perfume é temperado pelas vitórias e derrotas do momento.

07.12.2017
M M