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Factor racional

Rui Calafate
Rui Calafate Consultor de comunicação

E tudo a Toupeira levou

O Jô Soares dizia que "a corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade é uma coisa muito nossa". Eu acrescentaria que a impunidade chegou lá com Pedro Álvares Cabral, porque está nos genes portugueses. O que se passou esta semana com a detenção de Paulo Gonçalves, homem de confiança de Luis Filipe Vieira, representante do Benfica na Liga, conhecedor profundo do "bas-fond" do futebol, com experiência adquirida no Porto e no Boavista, é muito grave e revelador de uma organização tentacular que, para lá do seu profissionalismo, pretendia o controlo total de diversos movimentos que condicionam o desporto-rei.

Mas há algo que ainda mais me choca. É uma série de cartilheiros e ditos notáveis benfiquistas entrarem na charanga de tentar desculpabilizar o clube e o seu presidente quando já é sabido que Vieira tinha conhecimento de tudo via mail. Por isso, tentaram fazer constar que tudo não passaria de um excesso de zelo de um funcionário judicial, fervoroso adepto dos encarnados e tentaram mostrar com o seu perfil no facebook esse fanatismo; depois, vi Gaspar Ramos tentar construir um muro de protecção ao presidente, dizendo que "não sei até que ponto o Benfica tem conhecimento das acções de Paulo Gonçalves", como se este agisse apenas de 'motu próprio'; e vi Rui Pereira (pessoa que considero) comentar o assunto como se houvesse uma "pequena corrupção" porque o pagamento das informações era feito por brindes, bilhetes para a bola e porta-chaves. Meu caro senhor, não há pequena nem grande corrupção, há apenas corrupção, que é crime em qualquer parte do mundo. E para terminar, cereja no topo do bolo, atónito, assisti a Vieira dizer que só sabe o que vem nos jornais. Ora, isto é muito pouco como explicação e é exigível muito mais do timoneiro encarnado.

O problema é o lastro das coisas. Não é só esta semana negra, provavelmente das mais duras de 114 anos de história do Benfica, é um somatório de práticas e manobras duvidosas que vêm manchando a credibilidade de um emblema que é uma importante instituição portuguesa. Vieira e um vice-presidente foram constituídos arguidos na Operação Lex; inúmeras transferências suspeitas, da qual Roberto é a mais sonora lembrança; são os vouchers; é um motorista do presidente ser detido por tráfico de droga na Porta 18. Isto é um 'modus operandi' que repugna quem gosta do que se passa no relvado.

E eu, que sou sportinguista, até poderia estar a exagerar na discrição elencada e nos malefícios que decorrem de tudo isto para o Benfica. Porém, vi, na SIC, Nuno Gaioso Ribeiro, administrador da SAD encarnada, reconhecer honestamente que a E-Toupeira e todas estas notícias causam dano ao clube, à SAD, à Marca e quem trabalha na Luz. E do que falamos aqui é de corrupção, um crime que tem rostos e do qual não pode haver a impunidade habitual que vigora em Portugal. Que esta crise sirva de catarse, porque a podridão, seja em que clube for, tem de ser expurgada. Porque o futebol não pode viver com leis de Al Capone, assim o exigem as pessoas de bem.

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