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factor racional

Rui Calafate
Rui Calafate Consultor de comunicação

Jorge Jesus faz falta

Na altura em que escrevo estas linhas, não sei ainda quem vai ser o treinador do Sporting. Scolari tem um lado de pai que pode ser útil numa família desavinda. Não o considero um grande treinador, mas é aglutinador. Soluções portuguesas serão fracas, porque os melhores não estão disponíveis e, dos citados pelo Record como hipótese, gosto de Peter Bosz, que acompanho desde que pôs o Vitesse, e depois o Ajax, a jogar futebol atractivo, apesar de as coisas não terem saído bem no Borussia Dortmund; porém, não sei se seria o homem ideal nesta altura e seria um risco o seu desconhecimento da Liga.

O que registo é a minha mágoa pela saída de Jorge Jesus. Um excepcional treinador que ajudou a desenvolver a estrutura do Sporting e que se mostrou um líder frio e racional, escondendo as suas pulsões emocionais atrás do biombo, no momento mais difícil que atravessou o seu clube do coração. Saiu com classe, com dignidade, mesmo que desencantado por não lhe ter sido permitido continuar o seu trabalho e ter dedicado um título de campeão ao ex-violino e seu pai, Virgolino. Sem esquecer que ainda sofreu na pele o desequilíbrio de alguns energúmenos que o agrediram em Alcochete.

É certo que, hoje, não estaria tão aclamado e endeusado pela tribuna de Alvalade, ao contrário do dia em que entrou com o selo de bicampeão e como o joker que Bruno de Carvalho usou para calar alguma contestação pela saída conturbada de Marco Silva. Jesus tinha um salário elevado, mas, no meu entender, mais vale pagar o valor justo por quem é bom do que torrar cêntimos com a incerteza ou um farsante. E ele pagou com lucro todo o investimento feito nele. Em três anos foi sempre competitivo, encheu o estádio, ajudou a vender lugares anuais e mais uma vez, como em todos os clubes por onde passou, potenciou e exponenciou uma série de talentos que gravitavam em seu redor.

JJ não tem um português erudito, nunca teria a arte de Cyrano de Bergerac para escrever uma carta apaixonante; contudo, e não é um paradoxo, é um ás na comunicação, como uma vez tive oportunidade de explicar num dossier que a revista ‘Exame’ realizou sobre ele. Os seus homens e quem o ouve, sentiam a sabedoria de um professor que compreende de trás para a frente o jogo. Seria uma mais-valia para jovens treinadores em formação contactarem com este mestre Yoda do futebol.

O maior elogio que conhecemos é dos que privaram com ele no balneário. Não esqueço as palavras de Alberto Aquilani, treinado na sua carreira por diversas raposas tácticas, considerando-o melhor que o comandou. Um mago que retira o máximo dos jogadores, inovador ao ir introduzindo outras valências que bebia noutros desportos e, para quem gosta mesmo de futebol e odeia debates de paineleiros, as suas conferências de imprensa eram um regalo para se perceber as variáveis estratégicas do desporto-rei, que é o que nos interessa. Desejo-lhe a maior sorte do Mundo. Eu, que sempre o admirei, e agora ainda mais por notavelmente ter mostrado que é um líder à imagem de Bismarck ou Júlio César, espero que um dia regresse à sua casa, porque Jorge Jesus já faz falta.

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