De pé para pé

Rui Dias

Rui Dias

Redator e repórter principal
Rui Dias

Ederson é fenómeno raríssimo

Para enquadrar René Higuita, o excêntrico guarda-redes dos anos 80 e 90, livre intérprete dos novos tempos que o futebol traçou aos guarda-redes, Jorge Valdano disse que, um dia, alguém telefonaria para a baliza do colombiano e receberia como resposta anónima, "não está, saiu e não sabemos quando volta". Higuita alimentou o estilo como parte da sua essência como jogador e levou-o até à reforma, já depois dos 40 anos. O desejo de uma constante descarga de energia e a reclamação de um papel principal em qualquer circunstância travam a afirmação de muitos jovens guarda-redes, enredados na tendência para alimentar o espetáculo com intervenções desajustadas da realidade, ditadas por meros caprichos juvenis. Dá sempre mau resultado desvirtuar o papel do GR nas grandes potências: é proibido corromper discrição, solenidade e silêncio próprios de uma igreja com a insolência de quem vai ao baile à procura de namorada.

Ederson é um dos mais impressionantes intérpretes da influência alargada que o futebol atribuiu aos guarda-costas das grandes equipas nos últimos 25 anos. Para tanto, não precisa de ser Higuita, basta-lhe assimilar as funções com inteligência e bom senso: antes o GR só defendia, hoje está obrigado a jogar; antes as equipas eram compostas por 10+1, hoje mal de quem não joga com 11 jogadores da cabeça aos pés – e vão aumentando os monstros avaliados pelos parâmetros de outrora que deixaram de servir por não corresponderem aos valores do futebol moderno. Muitos dominam o jogo com os pés mas Ederson está acima dos bons: responsável pelo tesouro da águia e, em breve, da seleção do Brasil, age com a técnica, a visão e até a habilidade de um número 10.

É inacreditável como, praticamente sem balanço, coloca a bola a mais de 50 metros. Aquilo não é chutar para a frente, definindo o alvo por aproximação; é solicitar um companheiro do outro lado do campo, com o requinte de fazê-lo com precisão inverosímil. Ao contrário de outros, mais expansionistas e acrobatas, a área é o seu habitat, de onde observa o horizonte distante, que alimenta à custa de faculdades raras, a principal das quais a ferramenta extraordinária que é o seu pé esquerdo.

Aos 23 anos, Ederson tem quase todos os requisitos de um enorme GR, perfeito para defender não só o cofre-forte mas uma civilização inteira. Só os fenómenos cumprem tantos requisitos com tão pouca experiência: a regularidade absoluta durante épocas a fio; a fiabilidade de quem, por instinto, escolhe sempre a melhor decisão e não a mais espetacular; a recusa de promover um protagonismo gratuito, reflexo da maturidade precoce que o bafejou. Ederson realiza-se cumprindo o dever e nunca se deixou seduzir por extravagâncias e acrobacias, tudo em nome de sobriedade, responsabilidade e eficácia. De aparência indolente (1,88m e 83 kg), surpreende por reflexos, agilidade e velocidade de reação. Nasceu para vigiar grandes palácios e exercer autoridade sem precisar dos truques exibicionistas para intimidar os outros. Impõe-se naturalmente recorrendo sempre aos valores adultos da discrição de gestos e movimentos.

Ederson já deu passos para a afirmação plena como um dos melhores GR brasileiros de sempre: conquistou a baliza do Benfica; tornou-se alvo da cobiça de alguns dos maiores colossos da Europa e já convenceu os responsáveis a convocarem-no para o escrete. Hoje, em Dortmund, num jogo em que, muito provavelmente, vai ser posto à prova em moldes distintos do habitual, terá olhos de muita gente ilustre em cima dele. Se repetir na Alemanha a exibição que fez na Luz tornará consensual a ideia de que estamos perante um GR capaz de atingir o nível de um Manuel Neuer. Essa é, afinal, a meta que deve orientá-lo daqui para a frente: tornar-se um dos melhores de todos os tempos.


André André está de volta

Aos 27 anos ainda vai a tempo de ter grande papel no futebol português

André André viu travada a afirmação no FC Porto por motivos que não controlou: lesões, recuperações, recaídas, enfim, uma verdadeira montanha-russa de acontecimentos desfavoráveis que o retirou dos nossos olhos e lhe atrasou a afirmação. Incluindo na Seleção, cujo comboio perdeu. Nuno Espírito Santo tem-no recuperado aos poucos. A exibição com o Nacional esclareceu: o grande André está de volta.


Maurides foi um vendaval

A introdução de uma só peça pode melhorar o colectivo em larga escala

Maurides foi mais do que uma lufada de ar fresco no arrumado Belenenses de Quim Machado; foi um vendaval que trouxe agressividade e golos ao bom futebol que a equipa tem desenvolvido (principalmente fora de casa) – 3 golos e uma assistência em 2 jogos. Há quanto tempo não se via uma coisa dessas no Restelo? Agora que os azuis estão de olho na Europa, o brasileiro é um consistente sinal de esperança.


A melhor fase de Rui Fonte

O ideal é que um avançado junte ao bom futebol os favores da estatística

Rui Fonte atravessa o melhor momento de sempre, aquele em que mais perto se encontra de confirmar as imensas qualidades que possui como avançado que joga como os melhores e marca à cadência dos predadores – e vão 12 golos na época. O estado de graça acontece porque não lhe tem faltado saúde e, não menos importante, o treinador confia cegamente no seu talento. O céu pode ser o limite.


07.03.2017
M M