De pé para pé

Rui Dias

Rui Dias

Redator e repórter principal
Rui Dias

Mágico, operário e maestro

Tem um pé esquerdo de ouro, capaz de milagres à custa de magia mas também por estragos concebidos pela eficácia nos esquemas táticos: os seus livres laterais, os pontapés de canto ou mesmo os livres diretos em zona frontal constituem permanente foco de instabilidade para o adversário. Exercendo a partir da ala esquerda, a responsabilidade sobrepõe-se à fantasia; aos sinais equivocados, sugerindo o oposto do que vai fazer, sucedem-se momentos deslumbrantes com execuções magistrais. Levanta a cabeça e onde põe os olhos coloca a bola, sinal de que tem visão e técnica ao nível dos predestinados. Para ele é quase indiferente a distância a que está do objetivo, porque vê bem ao longe e a precisão dos gestos chega a ser fantasmagórica, nas alas ou na zona central. Como se fosse pouco, é intenso (sabe utilizar o corpo nos duelos), inteligente (sempre bem posicionado) e solidário (não abandona um companheiro em dificuldade) no processo defensivo.

Acuña é uma ave rara do futebol moderno, porque tem quase tudo quanto precisa um extremo e acrescenta a esse arsenal de armas contundentes elementos que o tornam mais completo. É importante porque dribla e joga; pela facilidade em aprimorar o engano como parte essencial do seu futebol e também pela honestidade absoluta quando é preciso; utiliza com parcimónia a mentira subjacente ao estilo que definiu e impõe-se pela perfeição do que pensa e executa – em determinados momentos pode até anunciar com antecedência a decisão tomada, que o sucesso não depende de terceiros. A partir de terrenos periféricos ao centro de operações do jogo, como são as linhas laterais, tem influência tremenda e inesperada na ação; longe da zona onde os grandes estrategas administram com mais eficácia, equilibra, organiza, compensa e, quando menos se espera, cria o assombro com argumentos de pensador.

Com Acuña, Jorge Jesus encontrou réplica do que João Mário fez a partir do flanco direito em 2015/16 – tal como nessa equipa brilhante, o Sporting tem dois alas totalmente diferentes, o que se reflete na coesão coletiva, principalmente pelo efeito produzido na zona central. Tanto serpenteia no habitat natural em movimentos nos quais ele, a bola e os adversários fazem parte do mesmo quadro, como deslumbra em zonas interiores, com passes a rasgar o que parecia ser, aos olhos de toda a gente, muralha inexpugnável; tanto descarrega o veneno acumulado na caminhada junto à linha, com toques preciosos para conclusões óbvias, como pede emprestada a batuta para dirigir a orquestra por breves instantes. São momentos roubados ao guião definido, decisões que alteram a previsibilidade da história e podem atingir expressão plástica tremenda, com a agravante de exercerem peso relativo esmagador na coesão da equipa.

Jogador de talento individual extraordinário, capaz de exaltar plateias, convencer companheiros e conquistar treinadores, Acuña não é um fenómeno efémero, daqueles que passam a correr pelos nossos olhos e se acomodam na memória de cada um. Presença habitual na seleção argentina, com a distinção que implica representar uma das mais prestigiadas formações da história do futebol, domina as regras impostas pelo futebol moderno: recusa os instintos subversivos da fantasia e aceita reger-se pelo rigor tático expresso na cartilha que orienta o coletivo. Sem transgressões aos principais hábitos mecanizados da fábrica imensa e complexa que é uma equipa de futebol, não precisou de fase de adaptação para atingir preponderância, tornar-se exemplo e ser aceite como solução nos momentos mais delicados. Ao contrário de outros, para quem a exigência tática dos exércitos de JJ não permite a assimilação automática dos seus princípios, Acuña joga no Sporting há quatro meses mas parece que está lá desde que nasceu.

Marega triunfou e não foi milagre

Marega brilhou no Marítimo e no V. Guimarães; falhou num FC Porto a desfazer-se e houve logo quem arranjasse explicações absolutas e simples para questão problemática e complexa: que era jogador de contra-ataque e não tinha qualidade para um grande, logo nunca triunfaria no Dragão. O erro de casting tornou-se estrela azul e branca e, ao contrário do que se pode pensar, não aconteceu um milagre.

A boa resposta de Rúben Dias

Rúben Dias fez o terceiro jogo a titular. A consolidação do jovem central na equipa de Rui Vitória revela, à partida, que a estrutura benfiquista o encara como jogador de altíssima qualidade, na rampa de lançamento de uma carreira brilhante. E que teve isso em consideração quando preparou a época. Resumindo o que sucedeu até agora, não custa associar o lançamento ao início de um ciclo na defesa encarnada.

Dupla expulsão só por palavras

Jubal e Zainedine discutiam com vigor e o juiz, por perto, parecia ter mais que fazer. De repente chamou os dois e mostrou-lhes o cartão vermelho. O que pode levar à expulsão dois jogadores por palavras entre si? Ameaçaram ato terrorista; combinaram assalto ao Banco de Portugal; ultimaram pormenores de uma experiência nuclear? O relatório foi uma desilusão. Foi apenas discussão mais temperada.

27.09.2017
M M