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Rui Dias
Rui Dias Redator e repórter principal

Seferovic é uma semente de esperança

Em fevereiro de 1999, Batistuta era o melhor ponta-de-lança do Mundo, no mais conservador campeonato do planeta (o italiano), ao serviço de uma equipa que não era uma potência (Fiorentina). Certa noite, em Lisboa, cruzou-se com Mário Jardel – foram apresentados e estiveram um bom pedaço à conversa. O argentino, que estava lesionado (lesão que terá custado o título aos viola), conhecia Super Mário do FC Porto e o diálogo teve o golo como pano de fundo. Rui Costa interrompeu a conversa: "Bati, sabes quantos golos marcou este tipo na época passada?" Como não obteve resposta, o Maestro esclareceu: "40!" O bombardeiro reagiu com espanto, sorriu e dirigiu-se a Jardel: "Mário, os defesas em Portugal têm as duas pernas?"

Integrado numa equipa estruturada mas que lhe permite usufruir de alguma liberdade; habituado a cumprir guiões rígidos e a jogar quase exclusivamente de memória, Seferovic terá descoberto, em poucas semanas, as virtudes da intuição e do instinto; cresceu e habituou-se a entender o jogo como aula prática da teoria aprendida nos treinos, mas bastou-lhe ter por perto um génio como Jonas para estimular as virtudes mais infantis e criativas do jogo. É essa capacidade para desenvolver outros conceitos, dar seguimento a mais sugestões, correr alguns riscos, no fundo, descobrir-se a si próprio, que está a fazer dele um jogador melhor; é a conclusão de que todos os problemas não têm sempre as mesmas soluções que o tornará um avançado mais interessante, valioso e goleador.

O Benfica é, também, a equipa mais dominadora que já integrou; aquela com mais obrigações ofensivas, com maior e melhor arsenal bélico para alimentar os especialistas do último toque. Tal como tantos outros que vieram de longe com números pouco exuberantes para a tarefa que desempenham, Seferovic parece condenado a marcar no Benfica mais golos do que em qualquer dos clubes que representou até hoje. Tem tudo para consegui-lo: talento, inteligência e capacidade de adaptação.

Seferovic veio para Portugal como jogador competente, trabalhador, solidário, disciplinado, corajoso, obediente e razoavelmente eficaz. Chega também na idade perfeita (25 anos) para atingir o máximo das suas potencialidades. Se até agora entendeu como dogmas as instruções dos treinadores, despojando do reportório toda a pompa mas também toda a superficialidade, chegou o momento de mostrar argumentos para depurar improvisação, assombro, ousadia e golo. Não sendo um virtuoso que tira coelhos da cartola, é um bom exemplo da sempiterna distinção entre técnica e habilidade. Nunca lhe detetámos um truque de magia mas já o vimos desmarcar-se em alta velocidade, deixar a bola correr ao seu lado e, de longe, porque o guarda-redes estava adiantado, aplicar um tiro fabuloso com o pé direito (ele que é esquerdino) para um golo inesquecível.

Participa e dá critério ao desenho de aproximação à baliza; sendo atacante, está nos antípodas daqueles que não dão a bola nem à mãe se sentirem que têm 1% de probabilidades de fazer golo. Não tarda, essa aparência desprendida acabará por ganhar evidência mais focada na estatística – no dia em que tomar gosto à glória do último toque as coisas vão mudar (mudam sempre) um pouco de figura. Essa é, de resto, a evolução mais preciosa que poderá fazer: acrescentar à aparência de funcionário cumpridor, que nada tem a esconder e chega a ser gentil com os adversários, o perfil de um homem com instinto assassino, que toma decisões contundentes e não tem contemplações com as vítimas. Pode nunca vir a ser um enorme goleador; mas evoluindo como se espera, e se a equipa o ajudar, poderá chegar facilmente a números nunca atingidos na carreira – entre os 20 e os 30 golos numa época. É uma semente de esperança no Benfica 2017/18.

Sérgio Conceição a criar um sonho

Aboubakar e Soares são o champanhe da imensa festa em que está transformado o FC Porto de Sérgio Conceição. A equipa tem-se revelado equilibrada, feliz e empurrada pela paixão coletiva de quem acredita cegamente no sucesso. É um exército sem fragilidades: seguro atrás; criativo e genial nas alas; grandioso na zona de definição. Olhar só para quem faz os golos é a preguiça de recorrer ao que está mais à mão.

Figo esquecido? Eusébio em 23.º?

O primeiro lugar de Maradona tranquiliza o adepto e a presença de Coluna é um ato de justiça. Mas Eusébio não pode ficar em 23.º lugar (é uma vergonha sem precedentes nestas listas) e é um escândalo que Figo não esteja lá. A ausência do ex-sportinguista, Bola de Ouro e reconhecidamente um dos mais extraordinários futebolistas de todos os tempos, corrói de indignidade a iniciativa da revista inglesa.

A defesa da águia e o golo do Leipzig

Recuperar a bola depende de estratégia, funcionamento coletivo, posicionamento em campo e orientação do treinador. Mas para defender bem é fundamental o contributo de cada um dos elementos integrantes no processo – o seu comportamento, a sua inteligência e a correta utilização de todas as armas. Nesse lance a defesa estava completa e no lugar. Mas nenhum jogador fez o que devia. Assim é difícil.

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