A ‘barriga cheia’ e a falta de pudor

Noite de Champions… em ‘casa’: pouco futebol e…
… Se no jogo do Dragão não houve sinais de influência negativa nem críticas ao trabalho da equipa de arbitragem comandada pelo inglês Anthony Taylor, já na Luz o desempenho do espanhol Alberto Mallenco desencadeou uma série de observações, não apenas dos adeptos e do treinador do Benfica, mas também de vários sectores da Crítica.

Aconteceu com o Benfica na Europa, em pleno Estádio da Luz, aquilo que, no plano doméstico, é raríssimo acontecer na Liga portuguesa, particularmente neste ciclo em que tem sido campeão: ser prejudicado, em ‘casa’, pelas arbitragens.

Na verdade, o Benfica, desta vez, não obstante a frouxa exibição, sobre a qual é preciso saber reflectir (Rui Vitória revelou-se demasiado elogioso para a equipa), foi prejudicado pela equipa de arbitragem: o CSKA chegou ao empate através de um penálti a resultar de uma interpretação errada do juiz da partida, uma vez que André Almeida tinha o braço bem junto ao corpo, não fez nenhum movimento deliberado e, ainda assim, o juiz espanhol apontou para a marca da grande penalidade.

Penálti mal assinalado a dar golo e a equipa de arbitragem (na Champions ainda não há VAR!…) a ter influência no resultado, prejudicando o Benfica.

Neste caso, como em inúmeras situações anteriores, amplificadas agora desde que as direcções de comunicação dos clubes ‘calçaram as chuteiras’ para fazer barulho e espalhar a confusão, logo se ouviu da parte do FC Porto: "Na Liga dos Campeões assinalam penáltis ao Benfica."

A pergunta que anda no ar: há uma arbitragem pró-Benfica na Liga portuguesa, principalmente no período – últimos 4 anos – em que o Benfica conquistou a hegemonia ao FC Porto? É um tema sensível, que desassossega os defensores incondicionais dos clubes, alguns dos quais profissionais ou paraprofissionais nas redes sociais e noutros nichos da internet, e muitos se dispensam de abordar, pelos problemas que essa abordagem acarreta.

Num momento da história do futebol em Portugal, sempre muito marcada pelas tensões entre os ‘grandes’, individualmente ou em formato de parceria (consoante as conjunturas), que estão muito acesas, primeiro entre Benfica e Sporting, agora entre FC Porto e Benfica, ou se se quiser entre FC Porto/Sporting e Benfica, talvez seja o momento de colocar alguns pontos nos is, uma vez que todos se querem colocar num plano de superioridade moral que ninguém justifica ou faz por merecer.

O FC Porto, quando estava pujante e iniciou uma dinâmica de vitória que a certa altura pareceu indestrutível, não apenas foi competente na contratação de jogadores e de treinadores, e, mais do que isso, na construção de uma fortaleza inexpugnável (a famigerada ‘estrutura’, a quem se atribuía o mérito de muitas conquistas), lidava com o sector da arbitragem como os macacos lidam com as bananas. Toda a gente do futebol sabe como era e, entre gente que perdeu a memória e alguns novos ‘comunicadores’ tão zelosos no arremesso de pedras para o telhado do vizinho, há coisas que não se podem varrer para debaixo da alcatifa. Haja decoro!

Nessa altura, era Luís Filipe Vieira, ainda com pouca experiência das ‘altas cavalarias’ do futebol, que se queixava de roubos e afins. E houve uma frase proferida, aqui e ali relembrada para se fazerem certos enquadramentos, que – no futebol em Portugal – segundo a qual eram mais importantes os lugares na Liga do que a contratação de jogadores. Quer dizer: em Portugal, sempre se deu muito valor ao futebol ‘jogado’ fora das quatro linhas.

O tabuleiro inverteu-se: quem lidera as queixas é o FC Porto, outrora ‘saco de boxe’; agora o ‘saco de boxe’ é o Benfica, que se defende como pode, mas com evidente desconforto, às acusações (muitas delas bem graves) da ‘oposição’. Quem tinha e quem tem razão?

Ninguém, no FC Porto, questiona os motivos da deterioração desportiva e financeira – e também a perda de poder nos bastidores.
O Benfica tomou o lugar do FC Porto em termos de controlo dos principais poderes e, nos últimos 4 anos, para além de boas decisões no plano técnico-desportivo, foi diligente no ‘ataque’ aos factores de natureza exógena, em cujo território o FC Porto se dava… e nadava como peixe na água. A instrumentalização de Vítor Pereira e Ferreira Nunes, no sector da arbitragem, é apenas um ‘pormaior’…

…E o Sporting? Andou sempre num papel secundário, muito próximo àquele que se acha entre os seguidores dos jogos de ténis de mesa: com os olhos entre o ping e o pong, consoante a bola cai do lado de um ou de outro adversário(s). Um papel menor, de pouco ou nada riscar, que pode estar na base da ‘agitação’ que Bruno de Carvalho trouxe para o burgo. E assim vai o nosso futebol: o problema, a sanha, a corrupçãozinha, o pecado estão sempre na casa dos outros. Entretanto, uma equipa russa e outra turca, medianas, ‘papam’ os… ‘papa-títulos’ do futebol português das últimas décadas.

Jardim das estrelas

Os 'novos monstros'

Durante muitos anos as críticas construtivas incidiram no facto de estar invertida a pirâmide do protagonismo do futebol em Portugal: os dirigentes eram as ‘estrelas’, em vez de jogadores e treinadores. A consagração do futebol-negócio atirou os jogadores para o beco de uma certa ‘clandestinidade’. Não podem falar, não podem dizer o que pensam e, quando o fazem, sempre muito controlados e condicionados, é para dizerem banalidades (’levantar a cabeça’ é a expressão mais usada). Por isso, também, os jogadores estão cada vez mais focados nas transferências e menos nos clubes que lhes pagam o salário. Passámos a uma nova fase: os presidentes e os dirigentes, que já tinham protagonismo a mais (singularidade europeia!), entregaram-se aos directores de comunicação, as novas ‘estrelas’ cá do burgo, exibindo ou tentando disfarçar fragilidades. Quais as vantagens? Nenhumas. A comunicação deveria ter um papel quase invisível, ‘não político’. É ela que tudo domina. É ela que tudo denuncia e ataca. Os ‘novos monstros’ Até quando?

O cacto

Futebol e eleições

Assunto merece debate, que vinha sendo adiado… E, como tudo em Portugal, em cima da hora, promove-se a polémica: futebol desta vez em dia de autárquicas (1/10), depois de já ter acontecido em 2015 (legislativas) e 2016 (presidenciais)… Tantas secretarias de Estado, tantos assessores… Quem deveria fazer este tipo de ponte, atempadamente, com a Liga?… E de resto, a liberdade de voto é uma das grandes conquistas da democracia… Vai quem quer, com ou sem futebol… As elevadas taxas de abstenção nada têm a ver com futebol… Têm a ver com o estado a que a política chegou!…

* Texto escrito com a antiga ortografia

15.09.2017
M M