A Liga (2017-18) do faz de conta

Com a realização esta noite do jogo entre entre o Benfica e o V. Guimarães, no qual está em causa a conquista de mais um troféu (Supertaça), arranca oficialmente a época desportiva de 2017-18.

Com a presença da figura do videoárbitro (VAR) em todos os jogos do campeonato. Uma época, por isso, verdadeiramente histórica, cujo facto deve ser sublinhado como o mais importante no arranque de mais uma temporada futebolística, que promete muita turbulência e agitação, a avaliar por aquilo que tem sido a incessante tarefa dos departamentos de comunicação das principais SAD, preparados para reagir a tudo o que mexa, seja um email, um gnomo ou um pirata (informático).

Digamos que este é o ano 0 do VAR, ao nível da competição mais importante do calendário futebolístico nacional e 2018-19 será efectivamente o ano I do videoárbitro, se o IFAB se pronunciar positivamente a favor da institucionalização desta figura em Março do próximo ano, depois do período de testes e das experiências ‘reais’ efectuadas, designadamente, nas Ligas da Alemanha e de Portugal.

Fez ontem precisamente 3 meses que a FPF anunciou que a Liga 2017-18 iria contar com a ajuda do videoárbitro. Em 3 meses, e aproveitando-se a experiência acumulada anteriormente, em testes offline, fez-se os possíveis para ‘transformar’ árbitros em videoárbitros e criar as condições necessárias para que, nos jogos da Liga, as avaliações sejam realizadas sob uma mesma base de apoio (humana e tecnológica).

Vai ser suficiente para diminuir a percentagem de más decisões, em lances capitais, diminuindo o chamado erro grosseiro das equipas de arbitragem? Vai. Não tenho dúvidas sobre isso e essa é a grande vantagem da introdução das novas tecnologias no futebol.

Vai ser suficiente para diminuir o ruído em torno das arbitragens, no futebol português? Não, não vai. Porque o videoárbitro e o poder da tecnologia não têm o poder de mitigar ou mesmo anular uma tendência patológica que existe há muitos anos no futebol português, agudizada nas últimas temporadas: a falta de respeito institucional entre entidades que deveriam saber defender o negócio acima de todas as clivagens ou divergências; a falta de elevação ética no verbo e nos comportamentos; e a convicção de que, tão ou mais importante do que a escolha de jogadores e treinadores e da criação de boas práticas de gestão e de investimentos infra-estruturais, é promover a valorização desta nova cáfila de novos protagonistas da bola, perigosos incendiários que não têm um mínimo de classe nem de auto-estima, sendo as vozes dos respectivos donos. Uma tragédia que se abateu sobre o futebol nacional, a juntar a outras tragédias não resolvidas.

O presidente da Liga, Pedro Proença, considera estarem reunidas todas as condições para que a temporada decorra com normalidade. Não estão. Infelizmente vai valer tudo. O VAR, neste ambiente, de queixas e queixinhas, em que tudo serve para arremessar, injuriar, congeminar, inventar, deturpar, inimigar, não obstante o louvável esforço do CD da FPF, sem olhar a nomes ou emblemas, em não deixar sem processo todos aqueles que não compreendem o mau serviço que estão a prestar ao futebol, vai ser útil mas não tem poder suficiente para curar uma tão profunda doença. Não há outra forma de o dizer: é muita porcaria acumulada.

De resto, sendo eu completamente a favor da introdução das novas tecnologias no futebol, creio que esta obsessão de não se querer ferir a autoridade do juiz de campo, conferindo apenas ao VAR um papel de apoio pouco pronunciado, vai ter de evoluir para um regime de maior autonomia do próprio videoárbitro. Foi um avanço, mas é um avanço ainda pequeno. Entendo que é preciso ter cuidado com as dinâmicas do jogo, mas é preciso fazer algo mais no sentido da protecção e defesa da verdade desportiva.

São os agentes desportivos, em Portugal e não apenas no nosso país, mas com particularidades especialmente negativas aqui no torrão luso, que verbalizam a factualidade de o futebol ser um ‘jogo de gatunos’. Quando os responsáveis dos clubes têm esta visão do futebol e a amplificam e quando o presidente da Liga, em vez de sublinhar as suas preocupações, alivia o cenário, fazendo de conta que está tudo bem, a sensação colhida é a de que só a fingir o futebol português é governável. O regime do faz de conta.


JARDIM DAS ESTRELAS - Claques? Faz de conta que não existem…

Esta estória das claques (não) legalizadas e a intervenção (tardia) do IPDJ diz bem da consagração do país do faz de conta.
O Benfica, nesta matéria, ficou sempre a meio da ponte. Ou porque as claques assim o pretendiam ou porque o próprio Benfica nunca se sentiu totalmente à vontade para tomar uma posição inequívoca. De sim ou sopas.
Os No Name existem; não são ficção.
Os Diabos Vermelhos existem; também não são ficção.
O Benfica colocou-se na posição de dizer que sim e que não. E o IPDJ foi fechando os olhos até aparecer uma queixa formal (Sporting) de apoio a claques ilegais.
Esteve muito bem Luís Filipe Vieira na definição das prioridades desportivas e financeiras, na sua última intervenção pública, num discurso realista para os benfiquistas, e muito mal na negação de uma evidência. O IPDJ ‘salvou a pele’, in extremis. No regime do faz de conta (vide texto principal).


O CACTO - Neymar e a bolha
Foi a ‘bomba’ da pré-época: Neymar deixa o Barcelona para assinar pelo PSG, por números majestáticos (222M€). Dir-se-ia que é o mercado a funcionar. Não me parece. Já não me parece que seja o mercado a funcionar. É muito mais do que o mercado a funcionar. A indústria do futebol precisa de ser repensada. É necessário apertar a malha dos mecanismos do fair-play financeiro. O futebol não deve ser uma bolha, no tecido social. Uma bolha que tem tudo para rebentar. A ‘invisibilidade’ do dinheiro nas contas dos clubes é preocupante.

04.08.2017
M M