Casos de polícia e outras 'sirenes'

1 - Não é preciso esperar-se pela conclusão dos processos judiciais para se perceber que o Benfica precisaria de uma limpeza. Se estivéssemos a falar de uma ‘crise no Governo’, provavelmente os analistas apontariam para uma remodelação governamental. Neste caso, estamos a falar de uma lavagem de imagem.

Uma lavagem de imagem, porquê? Independentemente das conclusões que o Ministério Público e a Polícia Judiciária tirarem das investigações em curso, quer no âmbito da Operação Lex, quer no denominado ‘caso dos emails’, há algo que parece incontornável: os responsáveis do Benfica, com Luís Filipe Vieira à cabeça, não conseguiram desmentir algumas imputações que lhe foram feitas e, mesmo que do ponto de vista formal e orgânico, a generalidade dessas imputações não configurem crimes de corrupção ou de tráfico de influências, há comportamentos tornados públicos que são, em todo o caso, muito censuráveis.
O Benfica não deveria estar à espera das conclusões das investigações, não deveria estar à espera de resultados desportivos; teria de começar a fazer alguma coisa, mesmo com pouco ruído, para ‘salvar a face’. O Benfica precisa, rapidamente, de reabilitar a sua reputação de ‘clube de bem’, sob pena de muitos dos seus adeptos e associados, para além da comunidade futebolística em geral, não acreditarem na genuinidade das posições oficiais.

Não nos podemos esquecer que o Benfica liderou um processo de desacreditação dos títulos conquistados pelo FC Porto numa determinada fase histórica do futebol português, e isso também teve muito a ver com a publicitação das escutas do Apito Dourado. As consequências penais foram as que sabemos e ainda hoje se discute a dimensão das imputações e os efeitos decorrentes. Ficou a ‘marca’. Uma ‘marca’ tão impressiva, tão encrustada e tão indelével, tão difícil de remover como se fosse a cicatriz de um ferro colocado em brasa na pele do dragão, que na actualidade, e na dialéctica travada com os adversários, os seus responsáveis e simples adeptos não conseguem nem eliminar nem mesmo rechaçar.

2 - Ficou a ‘marca’. A ‘marca’ que (também) vai acompanhar o Benfica nos próximos anos. Pode não parecer, mas aconteceram algumas mudanças no FC Porto. Aguentou o líder, porque tinha de aguentar, aguentou os seus colaboradores mais fiéis, ficou mais frágil perante o exterior, perdendo poder, caiu na alçada do fair-play financeiro e, na actualidade, é mais arrastado pelas circunstâncias externas do que propriamente por aquilo que consegue impor. E, neste particular, Sérgio Conceição vem evidenciando uma ‘componente política’ muito importante para o FC Porto, que extravasa em muito as suas competências técnico-desportivas.

Isto para dizer que o futebol e as dinâmicas dos clubes não são muito sensíveis ao reconhecimento do erro. Nunca o foram e não creio que, no caso do Benfica, também o venham a ser. Há, todavia, na Luz, um ‘pecado capital’ que necessita de ser reparado — e esse tem a ver com a comunicação. O objectivo — já se viu — era proteger o presidente, a estrutura e os órgãos sociais do desgaste relativo a contactos da comunicação social, que colocam muitas vezes a nu as fragilidades e as limitações dos seus titulares. O tiro saiu pela culatra, porque entretanto o ‘país futebolístico’ descobriu que a ‘comunicação do Benfica’ tem um lado institucional muito bonitinho e respeitoso, mas tem um lado oficioso, selvagem e brutal, com uma coordenação superior, capaz de fazer corar a… Cicciolina. E esta parte, no mínimo, não pode continuar, porque essa já afectou — e muito — a imagem e a reputação do Benfica, que se queria colocar num plano de superioridade moral em relação aos seus adversários.
Capturado pela estratégia, Vieira não estará, provavelmente, em condições de fazer a ‘limpeza’. E isso é inquietante. Porque vai depender muito do Ministério Público e de… Jonas.

3 - Ainda ninguém formou a convicção de que a presidência de Bruno de Carvalho, no Sporting, seja um ‘caso de polícia’. O caso de Bruno de Carvalho tem, ao que parece, outras motivações… ‘sirénicas’. E todas elas se relacionam com o seu ego e personalidade. De tanto querer ser protagonista, é ele o primeiro a esvaziar os seus próprios méritos. Não precisa de adversários. É ele o seu principal inimigo. Queixa-se dos outros, mas aquilo que ele se queixa nos outros é aquilo que projecta na sua atitude e comportamento. Diz que é ofendido mas é o primeiro a ofender. Critica os ‘heróis do teclado’, mas passa a vida a teclar. Pede união, mas é o primeiro a dividir e a desagregar. Tem uma propensão inusitada para a representação. Tem, até, traços de uma certa bipolaridade. Do nada, com a equipa de futebol a tentar aguentar-se na luta pelo título, conseguiu arranjar uma crise, em Alvalade. Porque não respira se não for o foco. Um caso de estudo num Sporting permanentemente martirizado. O Sporting também tem um problema de imagem e reputação para resolver. Gravíssimo.


JARDIM DAS ESTRELAS

Alguns destaques desta semana:

SOARES (****) - Sérgio Conceição deu-lhe uma oportunidade, depois de um assomo de indisciplina, e o brasileiro agarrou-a, marcando o golo que colocou o FC Porto na dianteira, na eliminatória da Taça com o Sporting. Terá servido de lição?

S. CONCEIÇÃO (***) - Ainda não vimos o treinador do FC Porto em contexto de alegada ‘injustiça desportiva’, num regime de perda (pontual). Ele vira ‘fera’ e então veremos um outro Sérgio. Agora, e até na gestão do ‘caso Soares’, foi de uma notável serenidade.

SÉRGIO OLIVEIRA (****) - O ‘joker’. Um caso interessante de maturidade competitiva.

RUI PATRÍCIO (****) - A atravessar um belo momento.

ACUÑA (**) - Que irresponsabilidade no lance que lhe valeu a expulsão, no ‘clássico’.

ZIVKOVIC (***) - Parece ter ganho a dianteira a João Carvalho.

CLÁSSICO (***) - O jogo do Dragão para a Taça foi, para já, o melhor. Viu-se futebol e não apenas ‘bloqueios + bloqueios’.

VAR (****) - São mais as vantagens do que as desvantagens, como muito bem acentuou Jonas.

LUÍS HORTA (****) - De regresso à Luz. O Benfica de olho aberto, em matéria(s) que não se pode dormir.

O CACTO - Censura
Canais de TV querem ter acesso às fontes de informação e aos protagonistas, em instituições desportivas, e fazem bem em não pactuar com este actual regime de censura, manipulação e propaganda que os clubes de futebol, através das suas direções de comunicação, querem fazer impor. Inaceitável num regime democrático. Inaceitável num Estado de Direito.

09.02.2018
M M