Jogo da Luz sugere Guia de Realização

Como era de esperar, vai valer tudo, esta época, no ‘campeonato da comunicação’.
Os clubes não percebem — ou não querem perceber — que acharam uma fórmula que faz muito muito mal ao futebol e a si próprios.

Tudo começa com a tentativa, muitas vezes transformada em obsessão, de os clubes, cada qual à sua maneira, mas com fórmulas muito similares, quererem controlar tudo e todos.

Isto não vai dar bom resultado e já se está a ver que não há sinais de remissão ou de abrandamento.

Os clubes mais representativos em Portugal não aceitam o princípio da autonomia. Não dão margem de manobra à arbitragem, à justiça desportiva, à própria comunicação social e fazem tudo, mas tudo, para terem os seus ‘representantes’. Directa ou indirectamente, pagos ou apenas beneficiários de regalias (sociais), mais ou menos visíveis…

Não conheço na Europa mais nenhum caso em que as direcções de comunicação tenham um papel tão activo e tão desrespeitoso com os respectivos adversários. Ou que os clubes, genericamente, se empenham tanto em não deixar os órgãos do futebol ou as (outras) instituições funcionar.

O país campeão da Europa, o país do Cristiano Ronaldo e do José Mourinho, o país que exporta futebol para todos os cantos do Mundo, não sabe cuidar, internamente, da sua imagem. É um caso fenomenal de contradição. Um país pequeno com enormes desconformidades. Às vezes genial. Muitas vezes profundamente aviltante.

Já não é uma questão de rivalidade. É patologia pura. O futebol em Portugal parece operar num espaço em que as boas práticas assumem um papel de anormalidade. Quanto pior, melhor. Assemelha-se a um espaço fechado, com o ar contaminado, no qual só se pode andar de máscara e fato de astronauta.

Fazendo o diagnóstico correcto, e tentando antecipar medidas para reduzir o impacto destes novos gladiadores, que lançam para a arena da discussão pública os mais anafados espécimes da boçalidade, a FPF decidiu arriscar no lançamento da figura do videoárbitro (VAR) e, com ele, evitar a consagração do ‘futebol-canibal’.

Não estou 100% de acordo com o protocolo definido pelo IFAB, por ser demasiado limitativo da acção do VAR, mas compreendo que, numa primeira fase, depois de 100 anos de soberania do árbitro de campo, e mesmo com tantos ‘roubos de igreja’, a mudança de paradigma teria de ser gradual e não repentina.

Não estamos a falar de perfeição, porque ela não existe, estamos a falar da correcção possível das deformações de um sistema que estava caduco e precisava de se adaptar às realidades e às exigências do presente.

Vamos ter de passar por esta fase. E, nesta fase, repito, vai valer tudo, como já se começou a ver, após a conclusão da primeira jornada da Liga. Podem, genericamente, continuar a negar as evidências, consoante o interesse específico que estejam a defender, mas os blogues existem, as manifestações organizadas nas redes sociais existem, mas os clubes não são capazes de assumir o patrocínio. Acabem com isto, se não querem acabar com o futebol.

O lance da anulação do segundo golo do Sp. Braga na Luz deu pano para mangas. Imaginação a rodos, mas também uma ideia fixa de levar ao engano.

O VAR estará a prazo habilitado a não errar em nenhuma situação de fora de jogo, mas para isso é preciso que o IFAB certifique um programa uniforme que permita aferir, com rigor, e não por escolha aleatória, se há ou não há fora de jogo. Essa certificação ainda não foi feita, pelo que, na Cidade do Futebol e nos jogos oficiais em Portugal, o VAR não recorre a essa linhas do fora de jogo. É essa a razão por que, em caso de dúvida, na Luz, o VAR (Fábio Veríssimo) não reverteu a decisão do fiscal de linha e do chefe de equipa.

Fica por esclarecer, então, a razão pela qual a BTV vinha utilizando a linha de fora de jogo em quase todas as situações no passado e, neste jogo com o Sp. Braga, não recorreu a essa funcionalidade. Quando levámos a petição à Assembleia da República já nessa altura alertávamos para a necessidade de constituição de um grupo de trabalho que uniformizasse algumas práticas de realização. É vital que isso aconteça para que os operadores (Sport TV e BTV) não decidam consoante tecnicalidades várias ou mesmo… estados de espírito.
A Liga e a FPF devem entrar em campo, antes que seja tarde.

O que aconteceu no FC Porto-Estoril é aquilo que se pretende do VAR: não deixar passar erros claros. Contudo, o lance da expulsão do V. Setúbal-Moreirense mostra como a ‘clareza’ só serve do VAR para o árbitro porque não foi totalmente clara a falta para expulsão e, no entanto, o VAR não pôde contrariar a ‘clareza’ da decisão do juiz de campo.

Há muito para evoluir, mas cuidado com o ruído: esta é a época do faz de conta e do vale tudo.

JARDIM DAS ESTRELAS (4 estrelas)
Primeira jornada da Liga 2017-18 revelou um FC Porto activo, muito na linha daquilo que foi a pré-época sob o comando de Sérgio Conceição - uma equipa mais pressionante, mais veloz, a jogar um futebol atractivo. A lesão de Soares fez emergir Marega e o Estoril ‘pagou as favas’. Se o ataque do FC Porto se mostrou eficaz e prometedor, também porque o meio-campo foi muito criativo, o maior destaque vai para os avançados do Benfica; já na Supertaça se viu essa qualidade; na estreia na Liga, Jonas, Salvio e Seferovic mostraram como o ataque encarnado promete ser diferenciador. Cervi melhorou, Pizzi está num grande momento e, do meio-campo para a frente, com a equipa completa, o Benfica é muito forte.
Nesta primeira jornada, o Sporting foi seguro mas pouco brilhante frente ao Desp. Aves. Todos os candidatos precisam de ajustamentos, e só no fim de Agosto será possível avaliar os danos de eventuais saídas. O FC Porto parece mais compacto nesta fase, mais uniforme e mais adiantado nos processo de assimilação do que pretende o novo treinador; o Benfica tem os melhores jogadores do meio-campo para a frente, surpreendendo positivamente a rapidez como Seferovic se adaptou ao ‘onze’. A dupla Jonas-Seferovic muito bem (classe e rotação) e o Benfica ainda tem um Jimenez que entra e se faz notar e Mitroglou, que perdeu o comboio mas estará sempre em condições de revelar a sua utilidade.
Ontem, no arranque da jornada 2, o Sporting teve um grande começo de jogo, superpressionante, mas não marcou. Marcou, de penálti, perto do fim. Mathieu muito bem. Piccini suscita dúvidas. Ataque tem de aumentar eficácia para tanto volume de jogo ofensivo.

12.08.2017
M M