No Sporting o rei vai nu

… Só faltava mesmo a demissão de Vicente Moura, neste final de época desportiva, para adensar a convicção de que, em Alvalade, o rei vai nu.

Não deixa de ser irónico que, no momento em que Bruno de Carvalho anuncia, no Facebook, a (excelente) decisão de abandonar esse mesmo Facebook, onde passou muito tempo a publicar ‘posts’ que foram quase sempre a ignição de mais ruído e mais polémica, em oposição àquilo que um líder de um clube tem de tentar assegurar – o valor supremo da estabilidade – a mensagem contida na despedida do Facebook tenha motivado uma demissão na Direcção do Sporting. E logo de um dos mais emblemáticos dirigentes leoninos — Vicente Moura — , com uma vida dedicada ao Desporto e, no caso da sua relação com o clube leonino, a ‘alma’ das modalidades, num universo cuja organização e estrutura existe, fundamentalmente, para dar apoio ao futebol.

Esta é a prova de que o Sporting tem um problema grave de dinâmica de comunicação para resolver – e esse problema grave começa, exactamente, no presidente. Se não fosse assim, o Sporting não teria contraído mais uma situação incómoda, no momento em que, aparentemente – com a decisão de abandono das redes sociais – parecia querer dar um sinal de reajustamento dessas dinâmicas.

A esta demissão efectiva de Vicente de Moura, que começou a adensar-se no passado domingo e que conheceu o seu ponto de ruptura na terça-feira, uma vez que Bruno de Carvalho não travou os sinais de que já havia dado junto dos seus pares de críticas ao comportamento e à ‘falta de exigência’ detectada dentro e em redor das modalidades, depois de um ciclo terrível de derrotas no futsal, junta-se a ‘demissão’ de Jorge Jesus, o que significa que Bruno de Carvalho – tudo em função do que diz e não do que não diz, o tal problema de excesso de comunicação – cometeu a proeza de amplificar o problema que já tinha no futebol com o problema que gerou nas modalidades. O chamado ‘2 em 1’ — tudo o que era fácil de evitar, se na verdade houvesse alguém de bom-senso dentro do Sporting capaz de convencer o presidente a mudar, radicalmente, a sua política de comunicação. Os sinais são exactamente ao contrário. A decisão de abandonar o Facebook tem pouco significado e acaba por ter um efeito quase de certeza residual porque, pouco tempo antes da declaração de abandono do Facebook, o presidente dos leões dava luz verde ao encontro entre agentes de comunicação do Sporting e do FC Porto, que são, literalmente, como diz o povo, nesse plano da Comunicação e sem qualquer cunho pejorativo, "farinha do mesmo saco". E isso é muito importante em termos de estratégia. Neste momento e no futuro.

Não foi por acaso que tenham sido Saraiva, Tavares e Marques – figuras da comunicação de SCP e FCP – a abrir as portas ao reatamento de relações institucionais entre leões e dragões. Tudo leva a crer que, neste âmbito – o da Comunicação – Sporting e FC Porto vão unir esforços contra os principais adversários, entre os quais estará, no topo das prioridades, o Benfica e seus ‘aliados’.

É de elementar compreensão que, na óptica dos responsáveis do Sporting e FC Porto, dois são mais fortes do que um. Não estamos perante um mero reatamento de relações institucionais, que seria sempre de aplaudir, num quadro de normalidade. É evidente que esta aliança tem um objectivo: combater o Benfica e a força que culminou na conquista do tetra, isto é, combater – pela comunicação – a hegemonia encarnada.

É aqui que o Sporting tem estado a andar para trás. No primeiro ano, por ausência de uma estratégia, não soube lidar coma agressividade do Benfica. No segundo ano, com as alterações registadas na Comunicação do Benfica, o Sporting ‘armou-se’ no sentido de dar resposta ao que (não se passara) no primeiro ano. No terceiro ano (2018), o Sporting acha que, juntando-se ao FC Porto, será mais fácil combater os ‘efeitos da cartilha’. Quer dizer: não parece que Sporting queira reduzir o ruído, para além de parecer claro que, adiando a reformulação da sua política de comunicação, nos antípodas do registo actual, os ‘leões’ estão a afastar-se, perigosamente, de um regime mais próximo das suas necessidades. O Sporting não tem organização nem estrutura para ser ele próprio a promover o incómodo da ‘guerrilha’.

O Sporting está, pois, numa perigosa encruzilhada.Tem-mas-não-tem-treinador, precisa de jogadores, não possui dimensão orçamental para competir com o Benfica e, para além dos problemas do futebol, gerou um problema com as modalidades. Não está nada fácil a vida para Bruno de Carvalho.


JARDIM DAS ESTRELAS (5 estrelas)

A afirmação
de L. Jardim


Leonardo Jardim tem sido um treinador muito capaz na gestão da sua carreira e está a colher os frutos da sua competência. Não há ninguém capaz de triunfar em razão exclusivamente das suas próprias capacidades, mas o êxito de um treinador começa sempre por aquilo que é a sua aptidão para o cargo e, depois, pelo engenho de fazer as coisas acontecer. Hoje em dia há máquinas capazes de transformar um treinador médio num treinador de sucesso, mas nesses casos o tempo encarrega-se de transferir os méritos para a eficácia das estruturas e das organizações e menos para o efeito do valor facial desse mesmo treinador. Leonardo Jardim começou por baixo, começou a granjear fama de ‘bom treinador’ ainda fora da órbita dos principais clubes portugueses e, no Sporting, mesmo numa situação conjuntural favorável (ausência de competição nas provas europeias), demonstrou que, com pouco, era possível fazer ‘muito’ (2.º, ainda que a 7 pontos do SLB). No Mónaco soube gerir situações que chegaram a ser muito adversas para chegar a campeão de França. Leonardo Jardim provou que, com trabalho e perseverança, é possível alcançar objectivos, mesmo num ambiente favorável ao PSG. Está no momento mais alto da sua carreira e promete ser capaz de outros voos. Chapeau!

O CACTO

Momento
difícil

Com Vicente de Moura a demitir-se e com Jorge Jesus a dar sinal de que o dinheiro não pode constituir problema para a hipótese de Bruno de Carvalho achar que é tempo de se fechar este ciclo, o Sporting volta a debater-se. Dois meses e meio depois das eleições e de uma vitória retumbante (86%). Um momento difícil… nada surpreendente.


20.05.2017
M M