O auto da cobardia segundo Fernando Gomes

1 "É tempo de responder aos sinais de alarme" – é a mensagem que o presidente da FPF, Fernando Gomes, quis fazer passar, através de um ‘artigo de opinião’ publicado, ontem, na imprensa. Tenho sido muito crítico em relação ao clima de ódio que povoa o futebol português, adensado pela política de comunicação protagonizada pelos principais clubes portugueses. Mais activos, neste particular, aqueles que não têm ganho (FC Porto e Sporting); um pouco menos assanhado, digamos assim, o tetracampeão (Benfica), um pouco mais preocupado com as questões institucionais, talvez pela decorrência de ter recuperado o estatuto de ‘clube dominante’, mas com o senão de não estancar e até promover o ruído através de alguns altifalantes escolhidos e coordenados para fazerem e(s)coar uma espécie de ‘discurso único’. Quer dizer: é preciso ACABAR com esta vertigem que penaliza o futebol português de uma forma brutal e, às vezes, com um nível tão baixo que até… dói.

2 O ‘constante tom de crítica em relação à arbitragem’ gera a ‘apologia do ódio’. Fernando Gomes assume, de uma forma clara, aquilo que todos vínhamos percepcionando: é preciso PARAR. Mas, para se PARAR, não basta afirmar nem ‘proclamar’. É preciso envolver e enlear, positivamente e – colocando a clubite de parte – estabelecer uma ‘corrente’ que SALVE o futebol português desta visão de caos e de impunidade.

3 Fernando Gomes é muito claro: "As críticas [à arbitragem] são, quase sempre, uma forma de tentar esconder insucessos próprios, além de constituírem actos de cobardia". Há aqui, com efeito, uma forma de cobardia e Fernando Gomes aponta o dedo: "Estas críticas, que muitas vezes são inspiradas em dirigentes com as mais altas responsabilidades, potenciam o ódio e a violência". Quer dizer: o presidente da FPF identifica a causa do problema e os seus principais actores, e estes até enfiaram a carapuça.

4 A FPF toma posição e, de seguida, assistimos às reacções da Secretaria de Estado da Juventude e Desporto, de diversos partidos políticos, da Liga (relembrando apelos semelhantes que já fizera), do Sindicato dos Jogadores ("antes que o descrédito atinja um ponto sem retorno") e de outros agentes desportivos. O diagnóstico está feito, toda a gente sabe o que tem concorrido, nas últimas épocas, para a agudização deste clima de ‘guerrilha institucional’: passámos de um tempo em que os principais presidentes de clubes do futebol português não souberam gerir a sua própria comunicação para arranjarem quem lhes fizesse esse trabalho. Não colocando limites à intervenção: quanto pior, melhor.

5 A consagração do ‘vale tudo’ está a dar péssimos resultados, e não se pode – como refere Fernando Gomes – ganhar peso internacional e, depois, andarmos a fazer estas lamentáveis figuras, envolvendo a imagem e o prestígio dos nossos principais emblemas. O diagnóstico está feito, mas se perguntarmos hoje, numa sondagem de opinião, se alguém acredita que alguma coisa vai mudar, tenho a mais profunda convicção de que a resposta maioritária será ‘não’. Por isso, há uma pergunta que se coloca: o que é preciso mudar?

6 Se os clubes, nas suas mensagens, em ‘fogo aberto’ ou em ‘fogo cruzado’, não param de afirmar ou insinuar que há corrupção no futebol português, então é preciso que o Estado e todos aqueles que podem participar na ‘limpeza’ convirjam na necessidade de dar mais meios ao combate à corrupção, sem medo de atingir o futebol e os seus protagonistas. Não se avança nessa direcção, porquê? Mais: se os presidentes e as suas direcções de comunicação não são capazes de dar contributos decisivos no sistema de auto-regulação do futebol, então é o poder político que tem de criar as condições necessárias, no plano legislativo, para que se passe das palavras aos actos. O que anda a fazer o Conselho Nacional do Desporto? A sua composição não é eficaz? Legisle-se para que o seja! Tem de haver alguma instituição que seja capaz e tenha a coragem de accionar os mecanismos necessários (não falo de ‘bomba atómica’, pelos motivos óbvios) para que os dirigentes não continuem nesta saga aparentemente imparável de tributo à irresponsabilidade.

7 Concretamente: os presidentes têm de reformular a natureza da intervenção das direcções de comunicação. Isto não se passa em nenhum país dito civilizado. Bruno de Carvalho já ultrapassou todos os limites, ao ponto de ridicularizar o presidente do Conselho de Disciplina da FPF, numa manifestação clara de provocação e de afirmação do princípio segundo o qual "não teme ninguém" e que vai para o ringue de combate seja com quem for. O Benfica tem de retirar do palco todos os que foram colocados sob ‘coordenação janeleira’. E o FC Porto tem de deixar que a PJ faça o seu trabalho. Bolas: é preciso confiar, minimamente, nas instituições. Caso contrário, estaremos a consagrar o regime do caos e da perfídia.

JARDIM DAS ESTRELAS - Mais do mesmo nas reacções

Interessantes as primeiras reacções à mensagem que Fernando Gomes publicou ontem na imprensa desportiva: as entidades públicas que não têm feito nada, rigorosamente nada, para acabar o clima de crispação no futebol português, vêm lamentar (é só isso que sabem fazer) esse clima de guerrilha institucional e apoiar a posição da FPF. Os clubes reagiram, através das direcções de comunicação, com ‘bicadas’ uns aos outros. Quer dizer: mais do mesmo. Daí que o mais importante seja mesmo saber se, depois da publicação do artigo de Fernando Gomes e passado o impacto inicial da sua mensagem, e das reacções formais mas inodoras de um certo concubinato político-desportivo, não voltará tudo à fase da espuma e da podridão que ela já não consegue esconder nem disfarçar. As reacções são imediatistas e fugazes… Alguém vai fazer, de facto, alguma coisa?!… Os árbitros pararem ou… pararem as competições?!…

Há um cansaço enorme e geral da sociedade civil em relação aos lamentos e à inacção. É bom que os partidos políticos tenham a noção disso. "É tempo de parar antes que seja tarde de mais".

O CACTO - Comédia

Quando chegou ao futebol, Bruno de Carvalho chegou a merecer o crédito daqueles que acreditam no princípio segundo o qual o sucesso de uma indústria como a do futebol não se faz apenas em torno de poderes (mais ou menos instalados) mas também de contrapoderes. Somou pontos mas, desde que foi reeleito, iniciou uma trajectória difícil de explicar. Depois da famigerada entrevista à Sporting TV, na qual ensaiou os primeiros passos de representação, grava agora um vídeo… que só visto. Só faltava mesmo ao futebol português um presidente-comediante.

* Texto escrito com a antiga ortografia

23.09.2017
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