Saraiva devia ser o ‘juiz’ de Bruno

Ao fim de mais de 9 meses (!) foram conhecidos os castigos aplicados aos presidentes do Sporting e do Arouca, principais protagonistas do denominado ‘caso do túnel’: 6 meses e cerca de 12 000€ de multa para Bruno de Carvalho e 20 meses e aproximadamente 30 000€ de multa para Carlos Pinho.

A primeira nota vai para o tempo gasto pela ‘justiça desportiva’ (neste caso, Comissão de Instrutores da Liga e Conselho de Disciplina da FPF) para condenar 4 arguidos, entre os quais os referidos presidentes e absolver 2.

Não está em causa o tempo normal da tramitação processual; no caso concreto da configuração deste ‘caso’ (assente em imagens e testemunhos), 9 meses e pico constituem um grave revés à intenção da FPF, declarada por Fernando Gomes à entrada para o seu segundo mandato presidencial, de prometer programaticamente uma justiça mais célere, e para isso promoveu a substituição de Herculano Lima por José Manuel Meirim, no respectivo Conselho de Disciplina.

Parece claro que, em sede de instrução, não se fez tudo o que havia a fazer para que este caso pudesse ser decidido (pelo CD da FPF) muito mais rapidamente. No meio de várias aparições públicas não foi aduzido um único argumento que justificasse tanta demora. Consequência (para esta época)? CD da FPF… com mais poder.

Passemos agora à natureza das decisões e respectivas reacções. Nenhuma surpresa nos castigos: o mais pesado para o presidente do Arouca, Carlos Pinho. Um castigo também ‘duro’ para o presidente dos ‘leões’, Bruno de Carvalho. Sempre defendi que ambos mereceriam ser castigados – e sem contemplações. Porquê? Porque aquilo que aconteceu em Alvalade foi grave e é um (mau) exemplo do que não deve acontecer entre agentes desportivos, principalmente quando estamos a falar de principais responsáveis de dois emblemas da competição profissional. E também porque o futebol português viu crescer, nas últimas épocas, o sentimento de impunidade perante várias situações de violação do fair play e do desportivismo, sendo necessário criar uma ideia firme de que a ‘justiça desportiva’ existe, age e pune, independentemente do nome, do cargo ou do emblema das personalidades.

É isso que, de resto, está a contecer na ‘era Meirim’. Perante um número inusitado de queixas e participações (não abonando em nada o regime de alguma moderação e respeito institucionais que deveria ser um ponto de honra entre os agentes desportivos), o CD da FPF está a fazer aquilo que tem de fazer: instaurar os respectivos processos. E como os arguidos, no futebol português, acham sempre que "o crime compensa", ou por omissão ou por dilação, não há outra forma de os fazer reflectir ou moderar os seus ímpetos a não ser através de castigos e penalizações.

O futebol português precisa de entrar noutro registo. E isso passa pela mudança de comportamento de presidentes e dirigentes, em primeiro lugar. O ‘fogo’ entre Benfica e Sporting atingiu proporções diabólicas na época passada e ainda lavra sem controlo; entretanto, o ‘fogo’ alastrou pelo território cobiçado por Benfica e FC Porto. Há inúmeros casos de ‘fogo posto’.

A terceira nota vai para a reacção do presidente do Sporting ao castigo imposto pelo CD da FPF. Mais uma fábula facebookiana a visar o "escuteiro-mirim" (nem sequer é original). Nenhuma surpresa, também. Como não foi surpreendente a reacção do director de comunicação, outro fabulista (vide conto dos gnomos), ao considerar "um absurdo" a decisão do CD federativo. E até propõe punições para quem tome medidas erradas. Não seria melhor propor que Saraiva fosse o ‘juiz’ de Bruno de Carvalho? Poupar-se-ia dinheiro (na criação de mais entidades) e, pelo menos no reino do leão, ficar-se-ia com a sensação de que ‘justiça’ funciona. É, aliás, a única forma de funcionar.

O comportamento de Carlos Pinho foi aberrante, com diversas manifestações (provadas) que configuram lesão da honra e reputação, agressões e incitamento à violência; o comportamento de Bruno de Carvalho, particularmente no momento em que lança uma baforada de fumo ou vapor de água à cara do seu opositor, não justifica de modo nenhum a absolvição que o Sporting pretende – e é isso certamente que o TAD vai considerar. Alegar que esse momento se deveu a um encontrão do presidente do Arouca é mesmo achar que o futebol é o reino da fantasia. E, na verdade, é. Bruno de Carvalho sabe que, neste caso, não se pode agarrar a nada. A não ser ao ‘juiz’… Saraiva.

NOTA – Este caso ‘Franck Vargas’ (Ferreira Nunes) é mais um sinal daquilo que se joga ‘atrás do pano’. Vítor Pereira estava mesmo num colete de gesso.

* Texto escrito com a antiga ortografia

JARDIM DAS ESTRELAS -- 4 estrelas

Real Asensio
entre os melhores

O Real Madrid conquistou a Supertaça espanhola, de uma forma que não deixa dúvidas a ninguém. Este ‘Real de Zidane’ é a conjugação de um treinador que se impõe pelo seu estatuto de ex-grande jogador e de ‘gestor de craques’ por ser, no trato e no discurso, a projecção da serenidade e do antivedetismo com a afirmação da maturidade do ‘consulado de Florentino’: futebolisticamente, o Real tem agora um excelente plantel, muito mais equilibrado do que em muitas fases (menos assertivas) da sua existência, sobretudo quando o Barcelona jogava a bola ‘de olhos fechados’. Modric e Kroos são dois jogadores de excelência, todos o sabemos, assim como Isco, mas o Real tem dois jovens cujo crescimento sigo com muita atenção: ASENSIO (21 anos) e KOVACIC (23), cujo talento é uma garantia (de qualidade) para o futuro. Asensio, em particular, creio que pode aspirar ao patamar dos melhores do Mundo. A ver vamos.

O CACTO

Barcelona
debate-se

A tragédia que se abateu sobre Barcelona, com mais um ataque terrorista a tirar a vida a inocentes, suplanta tudo e, nestas condições, falar do futebol do Barcelona pode parecer, até, inadequado. A dupla derrota na Supertaça espanhola não foi, contudo, um mau momento, plasmado em dois jogos. O Barcelona não é o mesmo. Longe daquele que Guardiola consagrou. E longe, também, do Barcelona (imediatamente) pós-Guardiola. O Barcelona perdeu valor. A ‘escola’ está sem fulgor, as contratações são muito discutíveis e Messi parece estar cada vez mais sozinho e numa fase, quiçá, de pouca motivação. Não é só a saída de Neymar que pesa. O tema ‘futebol do Barcelona’ vai ser, em breve, reeditado. Na Catalunha, infelizmente, o tema é outro: como travar a barbárie? É o tema (europeu) da actualidade e não apenas na Catalunha.



18.08.2017
M M