De pé para pé

Rui Dias

Rui Dias

Redator e repórter principal
Rui Dias

A história aguarda por João Cancelo

O futebol estimula em cada um o desejo de expressar-se como é. João Cancelo utiliza-o desde o berço para ser ganhador, livre, feliz e criativo; como expressão de um talento que o faz regressar à infância e confirma a confiança quase irresponsável nas qualidades que depurou com o tempo. Seguiu uma via complicada para o êxito, mais ainda numa função que, sem dispensar a dimensão artística, exige sacrifício, responsabilidade, prudência e sentido coletivo. JC vive, afinal, uma fase de aprendizagem na qual deve calibrar os impulsos do coração e o freio da razão. Não é caso para desvirtuar o jogador que é, de agir, de um dia para o outro, como se tivesse "o medo como hóspede" (Mario Benedetti dixit); mas tem de fazer um esforço para recuperar alguns fundamentos do ensino académico que, durante anos, interpretou à sua maneira.

JC é um puro-sangue que nunca aceitou ver danificado o instinto; recusou mutilar a imaginação e divinizou o valor da liberdade em prol do prazer pelo jogo. É deslumbrante vê-lo naquelas magistrais correrias pelo flanco, em sublimes ações de envolvimento com quem está à sua volta ou mesmo vê-lo seguir em iniciativas individuais imparáveis que o aproximam da linha final ou da grande área. Quando chega o momento de definir os lances, mais do que um cavalo de corrida, é um artista com visão perfeita do que o rodeia e soluções técnicas miraculosas para executar.

A bola não tem segredos e quanto melhores forem os companheiros melhor ele joga; quanto mais os outros lhe exigem participação no processo criativo, mais argumentos saca do reportório ilimitado que tem engrossado ao longo dos anos. Pena que o Valencia não lhe esteja a dar o amparo que devia em termos de crescimento e de dimensão do currículo. Pior do que isso, no Mestalla aumenta a tendência de aproveitá-lo como extremo, na tentativa de resolver à bruta o puzzle que só ele pode e deve completar. Mesmo admitindo que será sempre um jogador de topo, jogando à frente terá mais dificuldades em estabelecer diferenças, distinguir-se dos mais habilidosos e delimitar o espaço na história. Esse lugar entre os deuses que tem à espera só será conseguido quando atingir a excelência no domínio da função que desempenha a partir de trás. Não é um projeto concluído.

Precisa ainda de consolidar alma de defesa, ou seja, realizar-se com um desarme relevante para a segurança da equipa como se fosse uma investida ao meio campo contrário que desequilibre e abra o caminho para o golo – tem de saber utilizar o corpo em despiques individuais e evitá-los quando é ele o portador da bola. Tratando-se de um jogador caracterizado por talento, dinâmica, precisão, eficácia, intensidade e resistência, está obrigado a fazer esforço suplementar para adquirir competências indispensáveis a um defensor. Está proibido de se distrair e obrigado a perceber que qualquer leveza na avaliação de um lance pode ser fatal; que o espaço é para ser conquistado com atrevimento e defendido com inteligência e concentração no limite.

JC é um jogador vertical, que domina todos os segredos da velocidade e das zonas do campo por onde passa, tendo a linha lateral como referência e a final como objetivo, mesmo que apenas imaginário, tantas são as vezes em que opta por diagonais que abreviam a chegada à grande área. Aos 22 anos, com o sublime registo de um golo em cada um dos três primeiros jogos com as quinas ao peito, ascendeu a candidato a presença assídua na Seleção Nacional. Tem pela frente o maior desafio da carreira: agarrar a oportunidade de ser o lateral-direito de Portugal na próxima década (em luta com Cédric, Nélson Semedo e Esgaio) e chegar ao fim na pele do mais extraordinário defesa-direito da história do futebol português. As ferramentas para construir esse império estão lá todas. Só precisa de saber manejá-las.


'Velhice' de uns
e o azar de outros

Os mesmos erros podem ter explicações diferentes para quem vê ao longe

Luisão estava a fazer boa época, lesionou-se e demorou a reaparecer. Quando voltou havia Jardel, Lisandro e… Lindelöf. O tempo até readquirir ritmo e rotinas impeliu muitos a considerarem-no acabado – clamoroso erro de avaliação. É como Júlio César: teve culpa em dois golos do Nápoles e está velho – Ederson foi mal batido por Talisca (livre direto), deu frango com o Santos e só teve azar. É assim a vida.


Tiago continua
enorme jogador

Por falar em velhos, vejamos o que sucede com um notável médio português

Tiago está com 35 anos, joga no Atlético Madrid e nem sabem a alegria que o seu treinador revelou quando o viu marcar um golo ao Granada. Diego Simeone não escondeu o júbilo por ver que à recuperação física se associou importante injeção de confiança a um jogador fundamental, pela classe que tem e pela pausa que introduz, numa equipa que joga na máxima voltagem. Continua a ser um enorme jogador.


Adeus prematuro
de Hugo Viana

Há jogadores que só no fim avaliamos em toda a extensão do que foram

Hugo Viana viveu desenquadrado de um futebol tresloucado, em que o físico se sobrepôs ao técnico e os números desvalorizaram as emoções. Jogador requintado, que colocava a bola onde punha os olhos, estivesse a 3 ou 30 metros, tem lugar garantido entre os melhores de sempre em Portugal, consideração que títulos e presenças na Seleção não confirmam. Foi um craque. Podia (devia) ter sido ainda maior.





18.10.2016
M M