Pontapé canhão

Alexandre Carvalho

Alexandre Carvalho

Editor
Alexandre Carvalho

A lição que chega de Itália

O futebol italiano e, mais concretamente, Leonardo Bonucci deram na última semana uma fantástica lição de fair play. Aliás... vou mais longe: o internacional transalpino – um jogador com um caráter tão grande quanto o seu talento – e a Juventus criaram um ‘livro de estilo’ de como deveria ser o comportamento de clubes, dirigentes, jogadores e adeptos num ‘mundo ideal’: respeito mútuo, reconhecimento, gratidão e profissionalismo.

Quando rebentou em Itália a ‘bomba’ de que Bonucci ia trocar a Juventus pelo Milan, o choque foi grande. Apesar de no calcio serem mais habituais transferências deste tipo, a verdade é que a todo-poderosa Vecchia Signora tinha acabado de perder uma das suas principais referências para um dos seus maiores rivais. Porém, tudo isto se esfumou em poucos minutos. Primeiro foi a ‘instituição’ Gianluigi Buffon a desejar boa sorte ao agora ex-companheiro de equipa. Depois foi Bonucci a comprar uma página no jornal desportivo de referência em Itália, ‘La Gazzetta Dello Sport’, para agradecer e se despedir de adeptos, dirigentes e funcionários da Juventus; por fim, foi a Juve a deixar um sentido vídeo de agradecimento ao defesa-central.

Tudo isto seria impossível em Portugal. E digo-o sem meias-palavras e sem dúvidas. Porquê? Porque a mentalidade do adepto e dos ‘clubes’ é estupidamente (raras são as vezes em que esta palavra se adapta tão bem à narrativa) diferente. E a culpa é, em grande parte, dos dirigentes dos três emblemas habituados a disputar o título. O incentivo à rivalidade é uma das bases da paixão que move o futebol, mas esse amor que tantas vezes faz com que os adeptos percorram milhares de quilómetros atrás do seu ‘primeiro grande amor’ não pode cegar as pessoas ao ponto de perderem as bases em que deveria assentar uma sociedade evoluída.

Coentrão foi insultado de tudo quando decidiu vestir a camisola do Sporting; Maxi ainda hoje tem receio de vir a Lisboa com medo das represálias de ter trocado o Benfica pelo FC Porto; Carrillo tem de andar sempre com cuidado nas ruas da capital para não lhe tirarem satisfações por ter mudado de Alvalade para a Luz. E Jesus ainda hoje é ‘crucificado’ pela mudança inversa à do peruano. Isto é futebol? Não pode ser.

Terá de ser o adepto comum, aquele que compra jornais, que paga as quotas, que enche os estádios e que subscreve canais de desporto a mostrar o caminho da mudança. Arrisco-me a dizer que ir a alguns jogos de futebol com uma criança nos dias que correm pode ser considerado um desporto de alto risco. Um risco que cada vez menos pais aceitam correr. Será através da tomada de posição dos adeptos que os clubes vão perceber que o caminho não pode ser este. O caminho dos emails, dos bruxos, dos vouchers e do insulto apenas pelo insulto. O futebol é uma paixão e deve ser vivido como tal. Mas haja respeito. Pelo desporto e pelos adeptos.

17.07.2017
M M