As contas a vermelho

Creio ter sido Aristóteles Onassis a dizer que um milionário deve sempre viver um pouco além das suas posses para manter a credibilidade. Mas até o magnata grego concordaria que a SAD do FC Porto exagerou no esbanjamento. Atesta-o o relatório e contas com um prejuízo de quase 60 milhões. E o mais sintomático é que não se trata de um número surpreendente, mesmo que o orçamento da época 2015/16 anunciasse um lucro de 1,8 milhões de euros. Depois de olhar para as contas do primeiro semestre, eu próprio arrisquei dizer que os números a vermelho podiam atingir os 50 milhões (errei, por defeito, em 8,4 milhões…) e que a SAD portista não iria cumprir as regras do Fair Play Financeiro. Em março, também já havia aqui escrito que o FC Porto, nas duas épocas anteriores, tinha ‘metido a cave’ num jogo de póquer em que colocara na mesa o que tinha e o que não tinha. E, em agosto, a propósito da corrida que FC Porto, Sporting e Benfica travaram por Rafa, defendi que melhor seria que se fixasse noutras soluções mais parcimoniosas em vez de fazer lembrar um conde falido que continua a pedir catálogos dos faqueiros de prata (Óliver e a Jota acabaram por ser soluções de qualidade e bem mais módicas, mesmo que tenham contra si cláusulas de compra definitiva igualmente exorbitantes).

O resultado negativo reflete o insucesso desportivo (designadamente a curta carreira na Champions) e o falhanço nas vendas dos passes dos jogadores (muitíssimo longe dos quase 73 milhões de euros orçamentados), mas principalmente os 38,6 milhões em fornecimentos e serviço externos (mais seis milhões do que o orçamentado) e o facto de a receita corrente já não bastar para pagar os cerca de 76 milhões de euros necessários só para salários, verba também onerada e incomportável. "Inflacionámos os salários para além do razoável", reconheceu Fernando Gomes, que também falou na necessidade de haver mais cuidado nas contratações, no que pode ser vista com uma crítica subliminar ao ex-administrador Antero Henrique. Poderíamos acrescentar, por exemplo, os 1,6 milhões gastos com alguns dos jogadores que o FC Porto mantém emprestados ou os 4,3 milhões necessários para as indemnizações pagas a Lopetegui e Peseiro, mas isso são ‘peanuts’ quando se olha para um passivo que cresceu 73 milhões e já vai nos 349,1 milhões. Na apresentação das contas, Fernando Gomes anunciou que a SAD vai trabalhar para reduzir os custos com o plantel. Prometeu que, em dois anos, passarão de 100 para 80 milhões e que, no ano seguinte, serão reduzidos para 55 milhões. Ou seja, um desinvestimento total de quase 50 por cento. Palavras sensatas e que mereceriam um panegírico, não fora o caso de o administrador financeiro portista também ter anunciado, sem quantificar, idêntica intenção há duas épocas, após contas a vermelho de 40 milhões. Mas, desta vez, não parece haver alternativa, até porque há dois empréstimos obrigacionistas para pagar no atual mandato (um, de 20 milhões, em junho de 2017, e outro, de 45 milhões, em maio de 2018). Gomes revelou a vontade de os converter num empréstimo de longo prazo, mas isso não será fácil no presente cenário bancário. Mas bem menos razoável foi o momento em que tentou relativizar o prejuízo com a revelação de que o FC Porto recusara propostas de transferências André Silva, Danilo Pereira e Herrera que, no total, disse terem atingido os 95 milhões. Como, antes de renovar, o primeiro tinha uma cláusula de rescisão de 25 milhões, recusar 70 milhões pelos dois restantes teria sido um ato de gestão no mínimo muito discutível …

Mas o Sporting e até mesmo o Benfica não se podem ficar a rir. Depois do ‘emagrecimento’ que impôs após a sua eleição, Bruno de Carvalho não tem resistido ao poder reivindicativo de Jorge Jesus e os custos com o pessoal duplicaram e já roçam os 50 milhões de euros, mais do que gastava em 2011/12. O Sporting tem a seu favor um passivo menos inquietante (a renegociação das VMOCs não foi muito diferente de um perdão de dívida), mas o resultado de exploração (negativo em 31,9 milhões) confirma a inflação galopante. Que parece ser para manter caso sejam reais, por exemplo, as notícias de que vai exercer a cláusula de rescisão de Coates, que se diz ganhar 200 mil euros brutos por mês. O Benfica, por seu lado, pode contrapor os 23,1 milhões de lucro (apesar dos 61,4 milhões com os custos com o pessoal) e o terceiro ano consecutivo com contas positivas. Mas quem tem um passivo consolidado de praticamente 500 milhões de euros e capitais próprios negativos de 84 milhões também precisa de mudar de vida (e de mais vendas milionárias…) e deixar de usar Vale e Azevedo como desculpa.

5 estrelas -- Conte controla Diego

Antonio Conte não é só um bom treinador (na vitória sobre o Leicester repetiu o 3x4x2x1), mas também alguém capaz de lidar com um Diego Costa que tanto faz de Dr. Jekyll como de Mr. Hyde. O brasileiro teimou em ser substituído, mas teve de aguentar até ao fim. E leva sete golos.

4 estrelas -- Carrasco, o Speedy González

No cada vez mais ofensivo A. Madrid (três goleadas em oito jogos), Yannick Carrasco apontou o seu primeiro hat trick e ainda fez duas assistências para golo frente ao Granada. Simeone está a transformar o belga num Speedy González.

3 estrelas -- O peso de Nolito

Nolito conseguiu uma transferência milionária para o City, mas disse ao ‘The Guardian’ que nada disso teria sido possível se não tivesse reencontrado Luis Enrique no Celta. Foi o atual técnico do Barça que o fez abandonar o pão e os refrigerantes e perder dez quilos.

2 estrelas -- Sampaoli merece respeito

O Sevilha de Sampaoli e Lillo bateu fora o Leganés (2-3) e segue em terceiro na liga espanhola (à frente do Barça), mas o argentino foi criticado por dizer que quer "um Sevilha que defenda mais uma ideia do que um resultado"...

1 estrela -- Os estádios dos pequeninos

A decisão de as eliminatórias da Taça de Portugal se disputarem nos campos das divisões inferiores faz todo o sentido, mas acaba desvirtuada quando (por falta de condições) acabam transferidas para estádios neutros.





17.10.2016
M M