As rivalidades ajudam à evolução

"Cristiano Ronaldo é um grande profissional, capaz de trabalhar dia e noite para ser o melhor. O duelo com o Messi ainda o fez crescer mais. Para mim, é o melhor do Mundo", afirmou esta semana o Sérgio Conceição. Esta frase do meu querido amigo Sérgio fez-me recuar no tempo e pensar nas diferentes rivalidades individuais que um jogador encontra pelo caminho durante a sua carreira, desde os primeiros passos ao último.

Quando um craque acaba de se consagrar no futebol, começa outra rivalidade, com um rival completamente diferente do que teve até aquele momento. E quando perde um duelo com o seu inimigo não se passa nada e começa a pensar em ganhar o próximo… Mas antes de chegar a esta situação privilegiada teve de percorrer um longo caminho, com rivalidades duríssimas onde só tinha uma solução para conseguir sobreviver e chegar ao top: ganhar a guerra a todos os rivais que se cruzaram no seu caminho.

A primeira vez que começas a ter noção do que é a rivalidade é nos iniciados. Se queres ser titular tens que ganhar a batalha aos teus rivais, que são os jogadores que jogam na mesma posição que tu. Se estás na formação de um grande clube como era o meu caso, no Sporting, o nível e a qualidade no plantel é altíssima. A concorrência é tremenda porque tens vários jogadores que atuam na mesma posição que tu e querem ser titulares. Com 11 ou 12 anos és uma criança, mas no primeiro dia que entras no balneário de uma grande equipa, percebes que para concretizares o sonho de ser profissional tens de ganhar a guerra diária aos teus rivais. Algum deles até pode ser o teu melhor amigo no plantel, mas dentro das quatro linhas – e apesar da amizade que possa existir – não podes facilitar. Neste aspeto ele é o teu inimigo porque está a competir diretamente contigo e se ele ganha a batalha irás para o pior lugar que existe numa equipa de futebol, que é o banco de suplentes. Com aquela idade perdes um pouco a inocência e começas a conhecer o mundo da selva e a lei do mais forte. Se não és titular nos iniciados, és cortado e dispensado, não passas para os juvenis e a tua carreira num grande clube termina com 13 anos. Durante vários dias não páras de chorar porque o teu amigo foi cortado, mas tu continuas na luta e um pouco mais perto do grande sonho. Nos iniciados começa a lei da sobrevivência.

Quando és convocado, com esta idade, para as Seleções inferiores de Portugal, o nível da rivalidade sobe brutalmente. Durante o estágio antes do jogo vais competir pela titularidade com o outro melhor jogador do país, que joga na mesma posição. Se ganhas a batalha a este rival fortíssimo, animicamente ficas muito mais forte. No meu caso (e talvez na maioria dos jovens jogadores que conseguiram ser titulares da Seleção de Portugal sub-13 ou 14) a confiança e a segurança que ganhei em mim mesmo foi incrível. A frase que gravei automaticamente na minha mente depois de ser titular foi esta. "Se com 13 anos sou o melhor extremo-esquerdo de Portugal, vou continuar a ser o melhor extremo nos juvenis, juniores e porque não também nos seniores."

Estas duas rivalidades, que tens com os teus companheiros de clube e Seleção, acompanham-te ao longo dos anos. Mas quando entras noutro patamar e começas a ser um jogador imprescindível para qualquer treinador, seja no clube ou Seleção, a rivalidade começa a ser outra.

Ao longo dos tempos, houve rivalidades históricas como por exemplo a do Paulinho Santos com o João Pinto, que marcaram uma época em Portugal. Hoje, ainda me faz confusão como conseguiram dormir durante aquele estágio da Seleção onde foram obrigados a ficar no mesmo quarto. Imagino os pesadelos que os dois tiveram. Mas esta rivalidade sem limites do João e do Paulo fez com que ambos melhorassem futebolisticamente. A minha, em Espanha, com o guarda-redes do Real Madrid Paco Buyo, também marcou uma geração Odiava o Paco, mas esta rivalidade fez-me melhor jogador.

Desde do primeiro dia que entras num balneário até ao último, convives diariamente com as diferentes rivalidades e são elas que te fazem crescer como futebolista. Acrescentaria mais uma frase, além da que disse o Sérgio Conceição. A rivalidade entre dois extraterrestres durante todos estes anos não melhorou só o Cristiano, mas também o Messi.

Caldeirada da semana - Piqué

Mal os espanhóis viram que o Piqué tinha cortado as mangas da camisola, e também da bandeira espanhola, o Albânia-Espanha passou para segundo plano. O central, por querer a independência da Catalunha, foi assobiado em vários jogos da seleção pelos próprios espanhóis. Mas, por outro lado, defendeu o país em mil ocasiões. No último Europeu vestiu o filho com a camisola espanhola e antes foi campeão da Europa e do Mundo. O povo, desta vez, cometeu um erro grave. Só a camisola de manga curta tem o escudo com a bandeira, a de manga comprida não tem. A polémica foi tal que Piqué, após o jogo, levou a camisola com que o Sergio Ramos tinha jogado para a conferência de imprensa para que toda a Espanha visse a injustiça. Naquele momento anunciou que estava cansado de tanta polémica e que depois do Mundial da Rússia abandona a seleção espanhola.

Nós lá fora - João Cancelo

O defesa-direito, depois das excelentes exibições que tem feito na Seleção A e também ao serviço do Valencia na liga espanhola, é agora cobiçado por um dos melhores clubes do Mundo, o Barcelona. Nos seus três primeiros jogos pela equipa das quinas fez três golos e isso não é para todos. Só um jogador com grande qualidade consegue esta proeza. Continua assim, grande João.

Álbum de recordações - Mito Maldini

Antes de entrar no balneário do AC. Milan, sentia-me um pouco nervoso e isso não era normal. Com 29 anos, já tinha passado por muitos balneários e jogado com o Maradona (o melhor jogador do planeta) na seleção do Mundo. O Milão era uma equipa de autênticos craques e com duas lendas vivas, Baresi e Maldini. O Fábio Capelo começou a apresentar-me um a um e o meu coração esteve sempre tranquilo, mas quando chegou a vez de conhecer um dos melhores laterais-esquerdos da história do futebol, o coração acelerou. Quando o Capelo diz: "Paulo, este é o Paolo Maldini", só disse duas palavras, que foram ‘muito prazer’, mas a gaguejar. E o mesmo aconteceu com o Franco Baresi. Aquele era o motivo do meu nervosismo. O Maldini já era um mito, mas também era o rei da humildade, uma pessoa espetacular, e fiz grande amizade com ele. Este génio, mais tarde ou mais cedo, tinha de ser convidado para um cargo na estrutura. Mas Paolo, há dias, recusou : "Não há condições para uma equipa vencedora." Os tifosi terão de esperar mais algum tempo ...

16.10.2016
M M