Por força da lei

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Prof. Direito Univ. Coimbra
Ricardo Costa

Comentadores e comentários

Cresceu a algazarra crítica por causa dos "comentadores" que residem nos programas de "discussão" das jornadas do futebol. Porque o fanatismo que traduzem influencia negativamente os adeptos; porque são correias de transmissão da comunicação dos clubes grandes, agindo sem independência de pensamento; porque ofendem gratuitamente a reputação e o bom-nome dos agentes desportivos e, por arrasto, dos seus "colegas" de debate; porque acentuam a degradação reflexiva que começara com o modelo iniciado com o longínquo "Donos da Bola"; etc e tal, estes são alguns dos argumentos invocados nas últimas semanas, a que acresce até as "saudades" do (ainda mais longínquo) "Domingo Desportivo"…

Além do mais, vivemos esta época desportiva sob o signo de tal preocupação com os "comentadores" ter chegado à regulamentação desportiva da Liga, mediante a proibição-sanção dos comentadores "regulares" pela participação (mas só…) em programas televisivos, com ligações às sociedades desportivas e – pasme-se – aos seus clubes fundadores (que não são participantes nas competições profissionais da Liga…). Distinguindo-se tais comentadores "regulares" dos comentadores "convidados", que podem participar nos programas televisivos (a mesma discriminação!) mas só poderão "analisar aspetos positivos do jogo e das competições"…

Não me revejo nessas correntes críticas e abolicionistas, mesmo já tendo sido, no passado, alvo de atiradores furtivos. As televisões, as rádios e os jornais têm toda a liberdade para escolherem os seus conteúdos e contratarem os protagonistas desses conteúdos. Esses participantes não podem ser todos avaliados pela mesma bitola. As suas intervenções estão limitadas pelas leis do país e estas devem ser mobilizadas pelos ofendidos se são violadas – ou então escolherem a indiferença (que tanto incomoda) como reacção. Se esses conteúdos proliferam e os seus protagonistas alegadamente abusam da expressão, isso deve-se ao "gosto" (que se fez) dominante nos "consumidores". Quem não gosta, simplesmente não vê, não ouve nem lê – sem ditaduras! Se esses protagonistas difamam, faltam à verdade ou simplesmente evidenciam ignorância, isso é da sua responsabilidade e, nesses casos, a eles se deve imputar a inflamação. Se ajudam a perceber a realidade e os factos quando são intelectualmente honestos, esclarecidos e pedagógicos, isso é útil e proveitoso (mesmo que em doses excessivas). Tudo o mais – com tantas alternativas na "democracia dos conteúdos" – parece ser apenas e só fumaça…

15.10.2016
M M