Um (duplo) Jesus entre Vieira e o 'vice'

A afirmação de Luís Filipe Vieira como presidente do Benfica e a ausência de oposição, quer formal quer efectiva, àquilo que tem sido a crescente imposição do presidencialismo no Benfica, tem muito a ver com a conquista dos últimos três campeonatos do futebol.

As obras que cresceram debaixo dos seus mandatos dão força ao ‘vieirismo’ (o novo Estádio da Luz foi inaugurado poucos dias antes da primeira eleição de Luís Filipe Vieira, em 2003, e daí a memória do presidente dos encarnados em incluir sempre Manuel Vilarinho e Mário Dias no lote do reconhecimento e dos agradecimentos), mas por mais obras que possam nascer – a inauguração do Centro de Estágio, no Seixal, em 2006, foi talvez a mais importante, sem esquecer o significado simbólico da inauguração do Museu, em 2013 – são os títulos no futebol que colocam o presidente do Benfica no ponto mais alto da sua ‘indiscutibilidade’.

Nunca Luís Filipe Vieira – o homem-íman que tudo atrai, até a hipocrisia – foi tão consensual no Benfica, e é interessante verificar as migrações de algumas figuras que já lhe fizeram oposição para o seu interior ou para a periferia – para a zona da periferia não beligerante. As franjas de oposição que restam ou foram mitigadas (Rui Rangel), ou foram (re)absorvidas (Fernando Tavares), ou estão a contas com a justiça (Rui Rangel/José Veiga), ou acabaram por desistir (Bruno Costa Carvalho). Esse consenso, repito, tem muito a ver com os títulos conquistados no futebol nas últimas épocas, que vieram interromper o período hegemónico do FC Porto, sedimentado em muitas vitórias nos últimos 30 anos.

Por muito que ainda custe reconhecer a algumas figuras do universo benfiquista, independentemente dos méritos que essas figuras também possam ter na construção de um Benfica (mais) ganhador, o salto qualitativo dado pelo futebol encarnado, cuja exaustão conheceu um ponto alto na gestão de Manuel Damásio, aconteceu com a entrada de Jorge Jesus na Luz, em 2009. Foi aí que tudo mudou. Foi aí que o ‘futebol do Benfica’ passou a conhecer um padrão de exigência que nenhum outro treinador, no ciclo imediatamente anterior, havia conseguido impor.

A história do Benfica mudou com Vieira – e Vieira é hoje um homem muito mais preparado para a função presidencial, uma vez que tem a humildade suficiente para reconhecer que aprendeu muito com os muitos erros cometidos – mas Jorge Jesus também faz parte dessa história. Apesar de muito centrado em si mesmo, Jesus viveu esse crescimento do Benfica com paixão e profissionalismo, de uma forma arrebatada. Os seus detractores no Benfica nunca farão tanto pelo clube como aquilo que JJ deixou feito. É duro, mas é a realidade.

Como tenho dito sempre, o presidente e o seu ‘staff central’ poderiam ter chegado à conclusão segundo a qual o ciclo de JJ ter-se-ia esgotado – e era legítima essa leitura – mas era preciso assumi-lo com coragem e determinação, facto que lamentavelmente não aconteceu. Seis anos, em futebol, num clube ‘grande’, é muito tempo e não havia necessidade de um epílogo tão feio, para quem tinha construído uma história de sucesso (com alguns insucessos pelo meio). Os homens e a história ainda hão-de reparar os danos entretanto provocados.

Já com Rui Vitória aos comandos da equipa principal do Benfica, agora devidamente brifado pela estrutura encarnada, em que o treinador assume o papel de condutor de uma política desportiva e administrativa, a conquista do título na época passada – com JJ em Alvalade a dar-lhe imensa luta – foi muito importante, e isso deu descanso e fôlego a Vieira, que pode partir para o seu 5.º mandato com alguma margem de manobra.

Uma margem de manobra que lhe permite fazer correcções no seu elenco directivo, como foi a despistagem de Gomes da Silva da sua dupla condição de vice-presidente e de comentador televisivo. Uma figura de uma Direcção, que passa a ter um papel mais institucional e de representação a partir do momento em que os profissionais estão na SAD e em seu redor, possui mais responsabilidades a esse nível. Deve ser solidário e não um factor de desestabilização. E deve fazer os possíveis para fazer passar uma imagem elevada do Benfica.

A recente ‘troca de galhardetes’ entre presidente e ex-vice-presidente, em forma de discurso ou de artigo de jornal, é um manifesto de altíssima hipocrisia. Vamos ver o que o futuro nos reserva, mas que cheira a borrasca – não disse borracha – lá isso cheira…

Aquele momento de LFV, interrompendo o elogio a RGS (da Comissão de Honra), para perguntar se este se encontrava na sala, promete ficar na memória e calculo que vá passar, em ‘repeat’, nos ecrãs televisivos. É o ‘momento zen’. E dá uma certa graça a isto tudo.

JARDIM DAS ESTRELAS: ***

Luisão (ainda) decide

Toni (*****) fez 70 anos (parabéns!) e merecia um palco televisivo que lhe desse mais de 0,0 de rating. Nuno Gaioso (****) entra na SAD do Benfica e parece ‘levado ao colo’ por Vieira. Está a ser preparado para outros voos? André Silva (****) voa na Selecção e no FC Porto e qualquer dia voa do Dragão. Markovic (**) marcou para um Sporting desarticulado em Famalicão. Helton (****) fez bastante no FC Porto para merecer melhor desenlace. Vítor Baía (****) cumpriu 25 anos de ligação ao FCP e recebeu uma Roseta de Prata. Não consta que a Roseta tivesse espinhos, mas Pinto da Costa faltou. Ex-guarda-redes portistas na semana em que Nuno Espírito Santo (outro ex-guarda-redes) foi citado como tendo feito um acordo com a SAD portista para a não alienação de jogadores (Herrera, Danilo e André Silva). Marco Silva (***) teve Fernando Santos (****) a dizer em tribunal que ficou chocado. Chocado é pouco. Luisão (***) ainda decide.

O CACTO

…E ninguém se demite?!

A SAD do FC Porto apresenta o pior resultado de sempre da história das sociedades desportivas em Portugal e o administrador Fernando Gomes, responsável pelo pelouro das finanças, diz que "é um mau resultado, deliberado e assumido". Assumido tem de ser, porque os números não mentem e, para serem assim publicados, é porque não há volta a dar. Deliberado é que se torna mais complicado, porque quando se está numa situação limite não se pode acreditar nas (melhores) previsões (de que a aposta neste plantel vai dar certa) nem no… Espírito Santo. Ninguém olha para os próprios erros? E têm sido tantos e tão básicos nos últimos anos! Perante estas contas, o que faz impressão é o conformismo, a bonomia e a aceitação. Ninguém se demite? Ninguém exige demissões?!…

* Texto escrito com a antiga ortografia

15.10.2016
M M