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Vítor Pinto
Vítor Pinto Editor

O desafio oculto de Abel Ferreira

O Sp. Braga foi eliminado da Liga Europa pelo Zorya, frustrando os planos que apontavam para mais uma presença de sucesso desportivo e financeiro no patamar da UEFA. O facto de o RB Leipzig ser o oponente na ronda seguinte, equivalente ao antigo playoff, parecia assustar alguns observadores, mas pela minha parte não via razões para o conjunto de Abel Ferreira temer um conjunto alemão forte e incómodo, mas muito longe de inultrapassável. Perante os ucranianos, aconteceu uma das típicas armadilhas das eliminatórias: nunca houve dúvidas sobre qual era a melhor equipa, a que mais procurou o triunfo e a que verdadeiramente justificava continuar em prova. Só que, no futebol, um instante decisivo que penda para o lado do adversário pode fazer desmoronar o maior gigante. Desta vez, o azar tocou aos arsenalistas.

Nas últimas sete temporadas, só em 2013/14 o Sp. Braga ficou fora das fase de grupos europeias, quando tropeçou frente aos romenos do Pandurii. Uma vez mais em casa, depois de um duelo inicial que lhe foi favorável, o que revela um ‘modus operandi’ autofágico. Desde 2015, os minhotos tinham realizado 30 encontros na cena internacional antes de medirem forças com o Zorya. Há três anos atingiram os quartos-de-final da Liga Europa e, em 2017/18, foram eliminados nos 16-avos, mas frente a um Marselha que viria alcançar o estatuto de finalista. A realidade é que, se o resto da temporada decorrer dentro da ambição reforçada dos bracarenses, o despiste frente a uns desconhecidos ucranianos ficará sepultado numa gaveta recôndita da memória coletiva dos adeptos.

O maior desafio de Abel Ferreira, todavia, é um que não se torna facilmente percetível à vista desarmada. Um dos segredos do sucesso da sua gestão de recursos residia numa rotatividade ímpar que permitia ter o plantel por inteiro em permanente alerta. O que aos olhos de outros poderia parecer uma sobrecarga competitiva, para o técnico do Sp. Braga era o bálsamo que alimentava a sua fórmula peculiar de ter o balneário empenhado e satisfeito. Havia jogos para todos se sentirem realizados a equipa cresceu sustentada por esse constante espírito de superação. Tendo garantidamente de disputar menos 10 jogos oficiais de alto nível do que em 2017/18, o que significa igualmente uma dezena de quintas-feiras sem atividade competitiva, vai ser necessário criar novos desafios para alcançar o mesmo patamar de motivação.

Subir a fasquia nas restantes competições foi a via seguida pelo presidente António Salvador. E entende-se que tenha procurado instigar uma reação imediata do grupo de trabalho do Sp. Braga. Todavia, a médio prazo, vão colocar-se questões às quais só o treinador poderá dar resposta. E, tal como depois de ser afastado pelo Marselha teve de avisar os jogadores que a maior estabilidade iria significar menos oportunidades para muitos deles, desta vez terá de reformular o discurso e fazê-los acreditar que a Taça de Portugal e a Allianz Cup poderão ser palcos experimentais capazes de compensar o tempo de jogo que os ucranianos roubaram com a sua desfeita. Essa será a chave para haver sorrisos rasgados no final da época.
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