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Jorge Cadete: «Deixei marca no coração de milhares de pessoas»

Antigo avançado festeja hoje o 50.º aniversário e não se arrepende de nenhuma das decisões que tomou na vida

RECORD – Comemora amanhã 50 anos, grande parte deles dedicados ao futebol. A sua vida está no ponto em que perspetivou que estaria no momento do 50.º aniversário?

JORGE CADETE – Nunca perspetivei em que ponto estaria aos 50 anos. Foi algo que nunca fiz, porque, quando se planeia algo, nem sempre acontece. Por vezes, criamos grandes ilusões que se transformam em desilusões. Ao longo dos anos, tenho-me mantido igual a mim mesmo, na forma como lido com os outros, e sem fazer grandes planos para o futuro. Prefiro desfrutar do presente.

R – Mas, aos 50 anos, sente-se um homem realizado? Fez tudo aquilo que gostaria de ter feito até agora?

JC – Há coisas que queremos sempre... fazer mais. Qualquer pessoa ambiciosa deseja fazer mais, mas sinto-me um ser humano imensamente grato, por tudo aquilo que passei, pelo que recebi e aprendi ao longo destes 50 anos. A idade dá-nos mais sabedoria, em termos das ‘pequenas coisas’. Não em termos de bens materiais. É algo que nunca me preocupou, porque vimos ao Mundo sem nada nas mãos e partimos da mesma forma – sem levar nada. E isso faz com que, enquanto ser humano, me sinta realizado. Claro que ainda há muito para fazer.

R – Olhando para trás, há certamente decisões, atitudes, comportamentos de que se arrepende?...

JC – Não, não sou de me arrepender de algo mais ou menos correto que tenha feito, porque todas as minhas decisões, ao longo da vida, foram tomadas por mim e entendo, mentalmente, que foram as corretas, em virtude do momento ou das circunstâncias. Nunca ninguém me apontou uma pistola para tomar uma determinada decisão. Certa ou errada, foi tomada por mim. Quem está ao lado acha sempre que tomamos decisões incorretas, mas só Deus pode julgar-nos. É muito fácil apontar o dedo.

R – Essa é uma característica muito própria do povo português...

JC – Sim. E nunca damos valor ao que de bom fizemos, sem darmos conta disso. Tive uma profissão que me permitiu encher a alma e o coração de alegria a milhares de pessoas. Outros momentos houve em que também enchi essas pessoas de tristeza, como quando, por exemplo, falhava um golo, mas, ao longo dos meus 15 anos de carreira, sei que deixei a minha marca no coração de milhares de pessoas.

R – Não se arrepende de nada na forma como geriu a sua carreira? A saída do Sporting, a ida para a Escócia, o regresso ao Benfica... Todas estas decisões foram muito pesadas?

JC – Não devemos arrepender-nos de nada do que fazemos. É muito fácil tomarmos hoje uma decisão e amanhã dizermos: ‘Arrependo-me de ter feito isto.’ Devemos arrepender-nos, essencialmente, daquilo que não fazemos. Quem está no futebol sabe que decisões bem ou mal tomadas qualquer um pode tomar. Há tantos envolvimentos, tanta pressão emocional... Somos seres humanos. Não somos máquinas. Não tomamos decisões como máquinas ou em função daquilo que as outras pessoas pensam.

R – Entre as decisões que não tomou, existe alguma que sinta, aos 50 anos, que o teria tornado um homem mais feliz, mais realizado?

JC – Não. Hoje há a tendência das pessoas participarem em workshops, para saberem aquilo que são, o que poderiam ter mudado. Eu não tenho necessidade. Sei quem sou. Sei para onde quero ir. Conheço-me perfeitamente bem. E tenho uma conduta: ser o menos complicado possível.

R – Essa conduta facilita-lhe a vida?

JC – Exatamente. Se bem que, por vezes, demora algum tempo reconhecer-se o valor a pessoas que, como eu, têm essa conduta. Demora a perceber-se que essas pessoas têm talento, têm valor. Mas nunca me preocupei muito com isso. O essencial é eu dar o meu máximo e chegar ao fim do dia, não estar aborrecido com nada e achar que fiz tudo o que tinha para fazer.

R – Continua ligado ao futebol?

JC – Nos últimos dois anos estive a dar aulas no Colégio Islâmico, perto de Palmela. Na última época (2017/18), criámos uma equipa de infantis (sub-13), de futebol de 7, no campeonato distrital de Setúbal. Começámos com ‘zero’ dias de competição e na religião muçulmana não há grande tradição em termos desportivos. O objetivo que tracei foi: em nove jogos tentar ganhar dois. À terceira jornada, tínhamos o nosso objetivo conquistado. Ganhámos seis jogos e qualificámo-nos para a fase final, na qual terminámos em 5º lugar, com 38 pontos, os mesmos do 4º classificado. Por um golo não subimos à Liga de Honra, logo no primeiro ano.

R – Esta aproximação ao mundo islâmico alterou de algum modo a sua forma de estar? Coloco-lhe a questão porque, nos últimos contactos encontrei-o magoado e até amargurado com o mundo do futebol e hoje o seu Instagram está cheio de fotografias de um homem sorridente, que aparenta estar de bem com a vida.

JC – Costuma dizer-se que nada acontece por acaso. Eu nasci em Moçambique, um país que tem uma grande comunidade muçulmana. O meu pai era uma pessoa querida pela comunidade muçulmana e, em 2016, perdi o meu pai em 24 dias... E nesses 24 dias em que ele esteve hospitalizado, eu recebi um telefonema para ter uma reunião com o Colégio Islâmico. Já tinha estado lá, em 2013, tinha deixado o meu currículo e nunca me ligaram. E, no momento em que o meu pai está hospitalizado, eles ligam-me para termos uma primeira reunião, na semana seguinte, outra reunião, chegámos a acordo para dar aulas de futebol e de desporto e, entretanto, o meu pai faleceu.

R – É uma coincidência que dá que pensar?

JC – Não há coincidências. Como dizem os ingleses, as coisas acontecem sempre por uma razão. O certo é que, após o meu pai falecer, todas as portas fechadas começaram a abrir-se. Começaram a acontecer muitas coisas. A lei do retorno...

R – Fechou-se uma porta e começaram a abrir-se várias janelas?

JC – Exatamente. A lei do retorno diz que tudo aquilo que fazemos de bem, recebemos de volta. E o que acontece é que, em cinco anos, com muito trabalho e dedicação, consegui voltar a estudar, fazer uma licenciatura e dar a volta, sem ninguém me ter ajudado, a não serem os meus pais. Foi algo que não aconteceu por acaso e a vida faz com que, depois disso, eu tenha tomado a decisão de ser aquilo que me apetecer ser. Independentemente de as pessoas não quererem reconhecer o mérito de tudo o que já fiz.

R – Casou muito jovem com uma ginasta do Sporting, Rita Vilas Boas, divorciou-se pouco tempo depois; participou num concurso televisivo para celebridades, o Big Brother; teve um romance com uma artista conhecida, Nicole; passou por dificuldades financeiras, teve de recorrer à ajuda dos seus pais... Esta exposição mediática excessiva prejudicou a sua carreira após deixar de jogar futebol?

JC – Deixe-me ver se encontro as palavras mais adequadas... Para já, nunca tive a preocupação de me esconder ou assumir quem eu sou, quem está comigo, independentemente dos meus sentimentos. Mas o povo latino tem um problema. Não apenas o português. O povo latino. Em termos de trabalho, não nos são dadas oportunidades pela nossa competência ou pelo nosso talento, mas porque somos amigos de alguém ou passamos uma imagem de que somos muito certinhos. Casar uma vez ou casar duas vezes é algo que não interfere nada com o aspeto profissional. O profissionalismo de uma pessoa deve ser visto no local de trabalho.

R – No fundo, considera que se dá demasiada importância a aspetos que nada têm a ver com profissionalismo ou a falta dele?

JC – Exatamente. Você, como jornalista, não é melhor ou pior por ir a pé na rua ou por estar com dificuldades financeiras ou por estar constipado. É bom profissional, porque o trabalho que desenvolve é bem feito e dentro daquilo que esperam de si.

R – Onde e como vai estar Jorge Cadete daqui a 50 anos?

JC – Daqui a 50 anos? A minha avó materna, aos 100 anos, ainda estava muito bem. Nem acamada estava. E ainda tinha sentido de humor. Ela viveu até aos 104 anos. Por isso, com humor, seguramente, estarei.

R – Bem-disposto e a viver a vida?

JC – Exatamente.

Por João Lopes
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