Domingos Paciência e a "eterna gratidão" ao FC Porto: «Nunca irei cuspir no prato onde comi»

• Foto: Nuno Fonseca\Move photo

Record - Voltando um pouco atrás na sua vida no futebol e até como jogador há aqui uma ligação quase umbilical com o FC Porto. O que há a dizer sobre esta realidade?

Domingos Paciência- Muita coisa, obviamente, mas quero dizer primeiro que se juntasse a minhas carreiras de jogador e treinador, posso dizer que já vivi os momentos todos. Como jogador fui a um Europeu, em 1996, em Inglaterra, ganhei vários títulos, fui o melhor marcador. Estou entre os 10 jogadores com mais jogos na história do FC Porto, mas claro que me faltou ir a uma final europeia, mas depois senti esse prazer como treinador quando cheguei com o Sp. Braga à final da Liga Europa e logo contra o FC Porto. Felizmente, passei por tudo e aquilo que me orgulha mesmo é ter jogado nos melhores estádios do Mundo, ter experimentado os ambientes do San Ciro, Wembley, Nou Camp, Bernabéu e Maracanã, só para citar os melhores exemplos, é algo que um jogador nunca esquece. Acima de tudo, o que sinto é que a verdadeira emoção do jogo, da pureza do futebol, nós sentimos quando somos jogadores, quando passamos a ser treinadores é tudo muito diferente, e por isso é que digo sempre que os jogadores devem desfrutar ao máximo o futebol enquanto são jogadores, porque depois perde-se um pouco de tudo o que ele tem de belo. Aquele ambiente, os grandes jogos, o ambiente nos balneários, o convívio, enfim, uma série de coisas que só podemos mesmo apreciar a desfrutar enquanto não temos outras responsabilidades como quando somos treinadores. Como jogador, sem dúvida que passei os melhores momentos da minha vida.

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- É isso que também passa aos seus filhos, o Gonçalo, que joga no Eintracht Frankfurt e o Vasco, que agora está no Benfica?

- Sim, digo-lhes isso muitas vezes. Eles já sabem disso porque me acompanharam e tento passar sempre essa mensagem. Também digo isso aos meus jogadores. Fazer uma carreira de mais ou menos 15 anos como profissional é muito bom e temos de agarrar isso. São momentos que marcam e que ficam para a vida toda. Ainda hoje experimento um outro sentimento diferente, o terceiro, porque agora quando estou a bancada a ver os jogos deles tenho sensações diferentes, que nunca tinha tido, dentro de um jogo de futebol. Ser pai de um jogador dá-nos logo outra visão do jogo. É giro já ter experimentado as três sensações.

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- Já agora, a família Paciência parece ter-se divorciado do FC Porto, onde havia essa ligação umbilical. Ficou alguma mágoa por isso? Há algo por dizer?

- Não. São três situações bem distintas. No meu caso, saí pelo meu pé. Quando optei fui falar com presidente e disse-lhe que queria seguir o meu caminho como treinador, depois da experiência na equipa B do FC Porto, e fui para a U. Leiria. O presidente teve sempre um tratamento espetacular comigo, disso não me esqueço, desde o dia em que me fui despedir dele em 2005 e disse que ia procurar a minha sorte e ele foi sempre compreensivo comigo. Não houve qualquer problema. Sinceramente, não houve aqui problema nenhum, apenas situações normais no futebol. Mesmo com o Gonçalo e com o Vasco foi isso que se passou e eu só tentava saber junto de quem tinha o poder de decisão se existia interesse na continuidade deles, se queriam mesmo que eles ficassem e se eram apostas para o futuro. A partir do momento em que a resposta foi 'não', eles seguiram cada um o seu caminho. Com o Gonçalo tínhamos outras opções e fomos por esse caminho e ele agora está muito bem. Foi uma boa decisão. Com o Vasco o que se passou é que ele não tinha contrato profissional, era de formação, e na altura questionei se o queriam colocar na mesma balança de outros que já tinham contrato profissional, mas a resposta foi negativa e ele seguiu o seu caminho e assinou pelo Boavista e depois mais tarde foi para o Benfica. Portanto, foram situações que na atura foram muito bem clarificadas com quem de direito e entre nós e o FC Porto nunca haverá nenhum litígio. Bem pelo contrário, a minha aproximação ao FC Porto é eterna e de grande gratidão, porque há uma coisa que nunca farei: não vou cuspir no prato onde comi. Foi o clube onde cresci desde os meus 13 anos e que me ajudou a crescer como homem e me realizou profissionalmente.

- É verdade que chorou quando saiu do FC Porto para o Tenerife, em 1997?

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- Sim. Aquilo não foi nada fácil. Chorei no aeroporto e mesmo no hotel em Madrid, quando estávamos à espera para sair no outro dia para Tenerife. Aliás, nessa noite eu e a minha esposa chegámos a equacionar voltar para o Porto e esquecer aquilo tudo. Não é fácil deixar para trás uma ligação tão forte. Desde 1983, quando entrei no FC Porto, até 1997 são 14 anos. Com muitos amigos, com laços muito fortes e depois foi sempre a festejar títulos. Durante 10 anos, foram sete títulos e várias Taças e Supertaças. Foi natural aquilo que senti. Aquelas lágrimas eram mesmo sentidas, pois percebi que estava a deixar para trás algo de muito bonito e que dificilmente iria recuperar, como depois se comprovou.

- Mesmo assim, ainda voltou, dois anos depois e para mais duas épocas. Como é que foi esse regresso ao FC Porto, em 1999?

- Não foi um regresso fácil. Primeiro porque o presidente na altura estava muito interessado no Toñito e eu senti que regressei assim um pouco como um apêndice desse negócio. E depois havia outros pontas-de-lança, havia o Jardel, mas na altura também percebi que o presidente fez um esforço para que eu pudesse regressar e acabar como queria. Acabar no clube que me deu tudo e concretizou-se também o desejo que sempre tive desde muito cedo quando disse que gostava de jogar só até aos 32 anos e até isso foi mesmo uma realidade. Não foi só pela questão das lesões, que começaram a aparecer, mas também pela minha disponibilidade, que já não era muita, ao nível psicológico. Tudo isso misturado acabou por contribuir para o meu final de carreira dois anos depois de voltar ao FC Porto, em 2001, e porque também me deram a oportunidade de começar a carreira de treinador como adjunto da equipa B. Acabou por ser tudo normal.

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Por António Mendes
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