Andrés Madrid em África: «Tínhamos de ir a correr ainda equipados para o avião»

As várias aventuras de um argentino naquele continente, onde esteve seis meses ao serviço dos angolanos do Recreativo do Libolo

• Foto: Arquivo/Amândia Queirós

- Na sua carreira há aqui uma situação bem curiosa, com apenas dois jogos no Recreativo de Libolo, de Angola, em 2013. Como é que foi esta experiência?
- Isso não são números reais (risos). Quando vejo isso só me dá vontade de ria, pois fiz muitos mais jogos.

- Mas então o que é que aconteceu para só haver nos registos oficiais dois jogos?
- Sei lá, não faço ideia. As coisas no futebol africano são muito diferentes. Isso foi quando saí do Nacional. Disseram-me que queriam levar-me para Angola e eu não acreditei. Pensei que estavam a brincar, mas depois o João Tomás ligou-me a tentar convencer-me, mas eu disse logo que não. Ele insistiu, disse que aquilo até era porreiro e entretanto eles fizeram-me uma proposta que financeiramente nunca pensei que fosse possível e lá fui eu.

- E como é que foi a aventura pelo futebol africano?
- (Risos) Ui até dava para fazer um livro. Tenho tantas histórias e muitas delas não posso contar aqui. Foi mesmo muito interessante para mim, até em termos culturais, pois em África é tudo muito diferente ao que estamos habituados. Foi muito giro conhecer aqueles países todos, pois estivemos na Liga dos Campeões e andámos a jogar um pouco por toda a África. Acabou por ser uma experiência que nunca mais posso esquecer, pois tornou-me uma pessoa diferente ao ver aquilo tudo fora do contexto a que estava habituado. Foi mesmo incrível.

- Mas ainda não percebi como só há no registo dois jogos…
- (Risos) Pois, nem eu. Aquilo deve ter sido os que fiz no campeonato e como titular, pois entrei em muitos e fiz bastantes também na Liga dos Campeões. A verdade é que a minha capacidade física estava muito reduzida e não aguentava aquela correria toda, entrava quase sempre como suplente. O futebol lá é muito físico e eu acabava por treinar só mesmo quando a equipa precisava de colocar ‘gelo’ no jogo, como costumamos dizer. Mas joguei muitos mais jogos. Na Champions de lá fomos jogar, por exemplo, a Zanzibar, Nigéria, Tanzânia, África do Sul e ainda fomos ao Sudão do Este, que naquela altura, em 2013, era o mais novo país do Mundo, tinha nascido depois de mais uma guerra. Quando fomos lá, era só militares, só víamos armas, foi tudo muito complicado.

-O que é que o marcou mais? Foram seis meses certamente muito intensos?
- Sem dúvida alguma, é como já disse: regressei de África um homem completamente diferente, depois de tudo o que senti e que vi. Nós estávamos numa pequena aldeia, em Angola, que se chama Kalulo. Aquilo era lá no meio do mato, como se costuma dizer, e era demais. Havia sempre um problema, às vezes eram três dias sem água, depois outros sem luz, também falhava a internet e a rede de telemóvel, enfim eram muitas coisas que estamos habituados a dar como adquiridas por aqui. No início, foi mesmo muito complicado para mi, cheguei a pensar em vir logo embora, pois não estava preparado para aquela realidade. A gasolina quando acabava tínhamos de esperar um carregamento que demorava dias a chegar. Foi mesmo surreal. Havia muita pobreza, era mesmo demasiado, vi pessoas a morar em condições que nunca julguei ser possível. Depois quando tínhamos de viajar era sempre um trinta e um. A cada país que chegávamos estava tudo sempre cheio de militares e só víamos armas. Eram precisos vistos para muitos países, um burocracia incrível e depois outras coisas que nem percebíamos, pois chegávamos ao aeroporto e íamos diretos para o estádio desde a pista e sem mostrar nada a ninguém.

- No meio de todo esse ambiente, deve mesmo para escrever um livro. Tem mais histórias que queira contar?
- São tantas que nem sei se devo (risos). Essa do aeroporto fazia-me muita confusão, pois havia situações em que não havia sequer check in ou check out. Ou seja, andava sempre com o coração nas mãos. A nossa equipa tinha dinheiro. Até tínhamos um avião privado, mas havia jogos fora que nem sequer tomávamos banho. Acabava e tínhamos de ir a correr, mesmo ainda equipados, e isto é a mais pura das verdades, para o avião. Alguns nem tiravam as chuteiras e caneleiras e eram quase empurrados para entrar (risos). Entrávamos diretos, ainda a suar, pois o avião não podia partir de noite, tinha de ser ainda com a luz do dia, e lá íamos nós com o equipamento vestido. Só começávamos a mudar quando o avião já estava lá em cima. Incrível. Incrível mesmo!

Por António Mendes
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