Mário Silva: «Ao 6.º dia, os sinais vitais começaram a colocar a minha vida em risco»

Fratura renal ameaçou a saúde e a carreira do defesa em época de estreia do Boavista na Champions

• Foto: Manuel Araújo / Record

O primeiro grande troféu ganho pelo Boavista foi a Taça de Portugal de 1996/97 e Mário Silva havia de somar outro na época seguinte, perante o FC Porto, a Supertaça Nacional. Mas no seio de uma equipa recheada de bons jogadores, na época de estreia do Boavista na fase de grupos da Liga dos Campeões, o lateral-esquerdo não ganhou para o susto. Uma fratura renal colocou a sua saúde em risco e, por consequência, a sua carreira.

RECORD - Logo em 1996/97 há uma conquista importantíssima, a Taça de Portugal, com Mário Reis. Bateram o Sporting nas meias-finais e o Benfica no Jamor, ambos os jogos por 3-2. E aí o Mário Silva já acaba a época a titular. Foi uma campanha épica?

MS - A época começou com o míster Filipovic e eu fui lançado num jogo da Taça UEFA como titular num jogo fora, contra o Odense. As coisas correram-me bem… Eu demonstrava algum potencial, mas neste jogo, que era difícil, felizmente as coisas correram-me mesmo bem. E estes momentos, para mais numa fase de transição, são muito importantes. Às vezes há uma oportunidade, as coisas não correm bem e perde-se uma carreira de grande nível por causa disso. Continuei a ser aposta, depois sai o Filipovic e entra o Mário Reis, ambos virados para jovens…

R - Mas essa era já uma equipa fortíssima. Ricardo, Litos, Rui Bento, Sanchéz, Nuno Gomes, Jorge Couto, Hasselbaink, Latapy…

MS - Exatamente. E era difícil entrar na equipa. Tive o privilégio de entrar, as coisas correrem bem e ser aposta. Normalmente o Boavista tinha aspirações na Taça de Portugal e nesse ano conseguiu afastar o Sporting por 3-2 num grande jogo e depois a final, em mais um grande jogo, com um Estádio Nacional repleto, embora com muito mais adeptos do Benfica do que do Boavista. Mas foi uma final muito emotiva e que felizmente deu para o nosso lado.

R - De que emoções se recorda?

MS - Nós não eramos favoritos a ganhar a Taça, como é lógico. O Benfica tinha uma excelente equipa. Tinha o João Vieira Pinto, tinha o Valdo, salvo erro o Michel Preudhome… Portanto, não éramos favoritos a ganhar essa Taça, foi um alegria enorme. Um título importantíssimo. A viagem não me recordo muito bem, mas recordo-me de chegarmos ao Bessa e termos lá as pessoas à nossa espera.

R - Que 'personagens' é que havia no balneário. Hasselbaink era um deles?

MS - O Jimmy era cinco estrelas. Bem disposto, muito boa pessoa, muito competitivo e depois tinha aquelas características de avançado possante, não era exímio tecnicamente, mas tinha qualidade e na finalização era refinado. E tinha potência em todas as ações que fazia. O facto de ter ido para Inglaterra teve a ver com essas características… Mais do que o jogador até recordo mais a pessoa, mesmo cinco estrelas, muito brincalhão, sempre bem disposto e a contribuir para um excelente balneário.

R - A época de 1996/97 começa com uma Supertaça ganha ao FC Porto, ainda a duas mãos, um FC Porto igualmente fortíssimo a meio do famoso pentacampeonato...

MS - Nós tínhamos muitos jovens nesses plantéis, que complementavam alguns nomes mais experientes. Ou seja, era uma mescla de jovens muito ambiciosos e jogadores mais velhos e experientes que pensavam da mesma forma. Criou-se um clima de união e balneário muito forte, porque essa foi sempre uma característica do Boavista, de equipas trabalhadoras, que não viram a cara à luta, com espírito de sacrifício. E a juntar a isso, claro, a qualidade dos jogadores que tínhamos. Isso é que fez, salvo erro pelas mãos do míster Jaime Pacheco, face também  às características dele, pois incutia isso nos jogadores, com que conseguíssemos jogar em patamares superiores. O míster Jaime Pacheco torna-se depois campeão nacional pelo Boavista e à semelhança do míster Manuel José, se calhar mais um pouco porque conseguiu um título que nunca ninguém tinha conseguido no clube, acho que foi uma das figuras mais importantes da história do clube.

R - Nesse trajeto com Jaime Pacheco, há o ano de estreia na Liga dos Campeões, em 1999/2000. O Mário Silva marcou um golo na ronda de apuramento contra o Brondby, fora de casa, e o Boavista ganha... Mas depois no Bessa foi necessário ir a prolongamento? O receio de falhar estava a tramar-vos?

MS - Fizemos um jogo muito bem conseguido em casa do Brondby. E depois no jogo em casa provavelmente não estivemos ao nosso nível porque não encarámos o jogo pensando naquela dificuldade que depois o jogo acabou por trazer. Mas concretizámos o nosso objetivo e pela primeira vez na história do clube entrámos na fase de grupos da Liga dos Campeões. Tive a felicidade de fazer também um golo, que ficou marcado como o 1.º ponto do Boavista na prova. Mais um motivo de orgulho.

R - E acabam a fase de grupos com uma vitória no Bessa sobre o Borussia Dortmund...

MS - Sim, é verdade… Mas nesse ano tive também uma história curiosa, mais até de tristeza do que de felicidade. Tive uma lesão grave, fiz uma fratura renal, algo pouco comum no futebol. Temos muitas lesões nos joelhos, pés, tornozelos, mas num rim… Existem mas são casos raros. Ao serviço da seleção de esperanças fraturei um rim e passei parte dessa época, dois meses, afastado da competição. Teve essa particularidade e ao contrair essa lesão, que sofri numa queda, como dei milhentas delas, poderia ter acabado com a minha carreira. Felizmente, não sei se ele ainda estará por cá, o doutor que me assistiu no Hospital da CUF em Lisboa, porque o jogo foi no Estoril, foi o Doutor Ferrito, que teve a sensibilidade de perceber que eu era profissional de futebol e tentou aguentar ao máximo a minha recuperação sem operação. Estive prestes a ser intervencionado mas felizmente não fui, porque se fosse seria uma lesão que, pelo menos à altura, condenava à extração do rim, o que dificultaria e muito a minha vida como profissional de futebol.

R - Como é que chegaram à decisão de não o operar?

MS - Lembro-me que ao 6.º dia de internamento os sinais vitais começaram a colocar a minha vida em risco. Lembro-me que o cirurgião entrou no quarto, viu os meus sinais vitais e disse que ia aguentar mais um dia. Poderia ter sido operado nesse dia mas não fui e essa espera fez toda a diferença porque no dia seguinte as coisas estabilizaram, a minha hemoglobina começou a estabilizar, deixei de perder sangue pela hemorragia interna, e recuperei sem intervenção cirúrgica. Hoje em dia ultrapassei isso, provavelmente tenho uma ferida no rim como quando nos golpeamos num dedo, mas nada mais.

Por André Monteiro
Deixe o seu comentário

Últimas Notícias

Notícias
Subscreva a newsletter

e receba as noticias em primeira mão

ver exemplo

Ultimas de Conversas de sofá

Notícias