Mário Silva: «Todos no FC Porto queriam que o João Félix continuasse»

Sete anos nos escalões jovens da formação dos dragões terminaram com a conquista da Youth League

• Foto: FC Porto

A passagem de jogador a treinador deu-se de forma natural, com Mário Silva sobretudo seduzido por uma ideia de liderança de grupo que sempre alimentou ao longo da sua carreira. Os sete anos de trabalho nos escalões jovens do FC Porto terminaram com a conquista da Youth League, a formação de várias pérolas portistas hoje já profissionais e, pelo meio, a fuga inevitável de João Félix para o Benfica.

RECORD - Quando percebeu que queria ser treinador?

MÁRIO SILVA - Não posso dizer que sempre tenha pensado em ser treinador, mas acho que foi sempre algo de que gostei. Nas camadas jovens fui capitão em algumas equipas, nos séniores também fui capitão ou um dos capitães e acho que para isso é preciso ter alguma liderança. Acho que a liderança a mim sempre me seduziu. Não olhando à função de treinador na sua globalidade, mas um treinador tem de ser um líder nato. Quando se começou a aproximar o final da carreira de jogador comecei a interessar-me mais, a procurar saber o porquê deste sistema, daquele sistema, daquela estratégia…

R - Com os seus treinadores da altura…

MS - Sim e mesmo jogos que ia vendo na televisão, que ia acompanhando, porque nós como treinadores temos de analisar não só a nossa equipa mas também o adversário. Ia fazendo algumas análises e quando terminei a carreira tirei um ano para descansar, até porque a minha fase final de carreira foi dura, tive muitas lesões musculares, foi algo que me acompanhou nessa altura e me desmotivou um pouco também. A minha paixão pelo futebol foi, é e será sempre enorme, mas essas lesões musculares naquela altura foram-me desmotivando um pouco e comecei a pensar no que poderia fazer. Como foi sempre algo que me seduziu, essa vertente da liderança, comecei por fazer parte da formação do Boavista, com o clube na 2.ª Divisão B.

R - Chega a treinar a equipa principal do Boavista nessa divisão, mas volta à formação. Fazia mais sentido começar com jovens?

MS - Estive nos juniores do Boavista, depois convidaram-me, porque tinha feito a fase final dos juniores, para ser o treinador da equipa sénior no ano seguinte, mas com as dificuldades todas acabei por sair. Passei alguns meses parado e depois surgiu o convite do FC Porto, por intermédio do Jaime Teixeira e do Antero Henrique para integrar a formação do FC Porto, claro que com a autorização do presidente. Aceitei porque era algo que me seduzia e porque sentia que me podia dar bases muito boas para o futuro. Foi um clube que representei com muito orgulho e que muito me diz, gosto muito, mas mesmo muito do FC Porto. Era o regresso a um clube de pessoas amigas e uma experiência para ganhar bases para o futuro. Agradeço o convite que me fizeram e sei que foi a melhor coisa que eu fiz, embora saiba que tenho muito a aprender, muito a experenciar. Mas estes sete anos deram-me as bases necessárias  para continuar a evoluir e ser um bom treinador e sobretudo um grande líder, que é o que me seduz.

R - Treinou vários dos valores emergentes do FC Porto atual, tanto no FC Porto como no Padroense. Diogo Leite, Fábio Vieira...

MS - Diogo Queirós, Vìtor Ferreira… O Padroense, como sabem, tem um protocolo com o FC Porto em que, quando os jogadores passam de sub-15 para sub-16 jogam no Padroense e entram no campeonato nacional de sub-17. Há aqueles que vão diretamente para os sub-17 e há aqueles que não podem ir diretos e essa equipa de sub-16 faz com que eles cresçam muito nesse ano. Encontrei vários desses jogadores em diversas fases da sua formação.

R - E chegou a treinar o João Félix?

MS - Sim, foi meu jogador também. A determinada altura ele e o Jorge Silva, que era o capitão dessa equipa de sub-16, saíram do clube e foram para o Benfica. E foram também o irmão mais novo do Félix e o Fábio Silva.

R - E compreende as pessoas que dizem que o FC Porto cometeu um enorme erro ao deixar sair o João Félix?

MS - Eu recordo-me e acho que já foi explicado pelo pai do João Félix publicamente, o clube queria que o João continuasse. Foi uma opção do pai e do jogador, em não continuar no clube e aceitar outra proposta. Toda a gente no FC Porto tinha interesse que o João Félix continuasse, assim como o Jorge Silva, no clube, mas eles decidiram de forma diferente.

R - Quando começa a treinar os sub-17 do FC Porto dá-se início a um período de 2 anos que termina com  uma estreia absoluta em Portugal: a conquista da Youth League. Era um objetivo escondido ou foi um objetivo que foi surgindo apenas à medida que aquela temporada avançava?

MS - No ano anterior, era o João Brandão o treinador, a equipa conseguiu chegar à final four. Ou seja, sabíamos que era algo muito difícil, ser campeão europeu. Mas sabíamos também que se no ano anterior tínhamos chegado à final four e iríamos fazer tudo de novo para lá chegar. Olhando à qualidade que há, sabíamos que não seria fácil. Não era um objetivo ser campeão europeu, mas era um objetivo ir o mais longe possível. E conseguimos tanto que fomos campeões. É lógico que o formar está sempre ligado ao ganhar, mas a função do treinador e da sua equipa técnica é fazer crescer os jogadores para entrar no plano profissional. Isso num clube como o FC Porto junta-se a ganhar e formar a ganhar é o mais importante no FC Porto. Na minha opinião no ano passado conseguimos as duas coisas. E esse é um grande orgulho, ver jogadores que passaram por mim estrearem-se em equipas profissionais, mas juntando a isso títulos é sensacional. Também fomos campeões nacionais, o que não é fácil, pois não é fácil competir contra o Benfica, contra o Sporting, o que nos dificulta, pois vamos competir com alguém que está também muito forte.

R - Imagino que muitos dos jovens lhe tenham agradecido pelo trabalho desenvolvido. Houve algum que o tenha tocado especialmente?

MS - O mais importante é termos a consciência tranquila, sentir que demos o máximo por todos e é isso que eu sinto. Há uns que vão agradecer mais ou menos, há uns que me vão esquecer, outros que me vão recordar para sempre, mas a minha consciência diz-me que com todos dei o meu máximo e tentei ajudá-los ao máximo.

Por André Monteiro
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