Professor Neca e uma das "piores experiências da vida" na Índia: «Motorista ia a mascar droga»
Técnico conta episódio de uma viagem atribulada, recheada de perigos
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Record - Outro dos seus destinos exóticos foi a Índia, onde treinou o Churchill Brothers. Mais uma experiência um pouco estranha para um treinador europeu.
Professor Neca - É verdade, mas enriquecedora. A Índia é fantástica, tem partes lindas como Goa, uma extensão de Portugal, e é um país incrível, um país de cores, de sabores mas também de contrastes tremendos. Sabe que fui o primeiro treinador português na Índia? E não me arrependo, também passei por situações impares.
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Exemplos.
- Por exemplo, a meditação antes e depois dos treinos. A Índia é um país de meditação e levam isso muito a sério, como a religião. Antes de um treino, havia um tempo para meditação. Um jogador ficava no meio a rezar e todos os outros o acompanhavam, cada um na sua religião.
Um pouco confuso, não?
- Não. Por exemplo, se o jogador que estivesse a rezar fosse um muçulmano, fazia as suas orações mas os que fossem budistas ou católicos durante esse tempo rezavam para dentro, cada um com as suas crenças, era um períodos de meditação em que havia uma comunhão das várias religiões.
A Índia é enorme, conheceu muito do país?
- Sabe que enquanto estive nas Maldivas e depois no Kuwait [treinou o Al-Salmiya, na época 2007/08], conheci uns 30 países na Ásia. Depois com Angola, conheci outros 30 em África. Na Índia não conheci muito porque quase todas as viagens para os outros jogos eram de avião. O adversário mais distante para nós era o Shillong Lajong, a mais de 3000 quilómetros, já no sopé do Himalaia. Na viagem para esse jogo passei por uma das piores experiências da vida.
Então, o que correu mal?
- A viagem foi horrível. Fomos de avião mas depois de aterrarmos ainda estávamos a 150 quilómetros de Shillong, tinham de ser feitos de carro. Não era um autocarro para a equipa seguir junta, fomos em vários jipes. De noite, sempre a chover, numa estrada de apenas uma via, não era autoestrada, e cheia de buracos. Não se via nada e nós nos jipes, a alta velocidade, com camiões a desviarem-se para a berma para nós ultrapassarmos. Já tinha reparado que o nosso motorista estava sempre a mascar mas não era pastilha elástica. A meio da viagem, perguntei a um dirigente, o que o motorista está a comer? Ele explicou-me que era droga de mascar. Fiquei ainda mais assustado. Nunca tive tanto medo na vida.
Mas que droga era, alguma coisa para a concentração?
- Não, não sei o nome da droga mas era algo para o manter acordado mas que também o deixada muito agitado. Portanto, foram duas horas e meia para fazer 150 quilómetros, sempre a acelerar numa estrada cheia de buracos, onde não se via nada. Pensei que não chegávamos lá. Quando chegámos nem conseguia dormir, com a adrenalina. Passados três dias, quando regressámos, essa viagem foi feita de dia e sem chuva. Nessa altura ainda fiquei mais impressionado com o que tínhamos feito na primeira viagem.