Aleksander Ceferin: «A Champions não precisa de mudanças drásticas»

Presidente da UEFA desde 2016, o esloveno está a ouvir todas as partes interessadas antes das anunciadas mexidas no formato

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Presidente da UEFA desde 2016, o esloveno está a ouvir todas as partes interessadas antes das anunciadas mexidas no formato da Liga dos Campeões e deixa recados às ligas nacionais.

RECORD: Quais são os verdadeiros planos para a nova Champions?

Aleksander Ceferin – Tem havido muita especulação sobre os falsos planos para a nova Liga dos Campeões, isso é indiscutível! Vejamos, esta é a melhor competição de futebol do planeta, por isso não precisa de sofrer mudanças drásticas. No entanto, precisamos sempre de procurar formas de melhorar e estamos num processo de consulta e discussão aberta com todos os ‘stakeholders’, para garantir que tomaremos a decisão certa para o presente e futuro. Quando me tornei presidente, a UEFA tinha sido criticada por não ter consultado ninguém sobre as últimas reformas da Champions. Jurei que isso nunca mais voltaria a acontecer. Agora, quando abrimos o processo de consultas, os clubes e as associações veem o futuro das nossas competições de clubes, somos criticados também por tratarmos todas as ideias como válidas! Uma coisa é certa: no final deste processo, todos terão tido uma palavra a dizer e a UEFA decidirá.

R: As ligas nacionais têm-se queixado de que o novo modelo irá aumentar o fosso entre os grandes e os outros. Será que vai acontecer?

AC – As ligas nacionais queixam-se de muitas coisas [risos]. Se passassem menos tempo a queixar-se e mais tempo e energia a trabalhar connosco no processo, tudo seria melhor. Se as ligas estão tão preocupadas com o equilíbrio competitivo, então, muitas delas, deveriam olhar para o seu modelo de distribuição e pagamentos de solidariedade para equilibrar as suas próprias competições. Olhe para as melhores ligas do mundo: existem grandes diferenças entre a receita que as melhores equipas, as equipas intermédias e as equipas de fundo da tabela obtêm. Todos precisamos de trabalhar em conjunto no equilíbrio competitivo... A UEFA distribui mais de 85% das receitas que gera pelos ‘stakeholders’ do futebol europeu. Não somos perfeitos e estamos a procurar formas de melhorar, mas talvez as ligas também devessem rever o seu modelo. Será que as ligas mais ricas da Europa poderiam considerar a possibilidade de distribuir parte das suas receitas televisivas por alguns dos países mais pequenos?

R: A futura Liga dos Campeões será uma competição mais fechada? Com um acesso mais difícil?

AC – Nunca haverá uma competição fechada enquanto eu for presidente da UEFA.

R: A globalização, que tem sido um elemento-chave para o sucesso da UCL, está a pôr em perigo as ligas nacionais?

AC – Podemos encarar a globalização como uma oportunidade ou uma ameaça. Vejo-a como uma oportunidade. Tenho a certeza de que já viram imagens de crianças de todo o Mundo a usar camisolas do Barcelona, Real Madrid, Juventus, Manchester United, Liverpool, PSG e até de clubes portugueses. Isto significa que os clubes podem ter fãs em todo o Mundo, fãs que nunca puderam alcançar no passado, mas com quem agora podem interagir. A tecnologia tornou o Mundo muito mais pequeno, e acho que isso cria oportunidades para que todos os clubes de todos os tamanhos possam apelar ao público.

R: O que podem os adeptos esperar de uma terceira competição europeia?

AC – A 3ª competição permitirá que mais clubes se testem a nível europeu. É isto que os clubes nos dizem que querem. Têm de aspirar a jogar contra novos adversários e de dar aos seus adeptos a oportunidade de ver equipas diferentes em ação.

R: Pode uma equipa portuguesa sonhar em vencer a UCL?

AC – Porque não? Veja-se o Ajax do ano passado, por exemplo, que esteve tão perto de chegar à final e fê- lo em grande parte com jovens jogadores da sua academia. Olhe para o Monaco há alguns anos, para o Leicester também. Todos estes clubes foram considerados ‘outsiders’, no entanto, todos se agigantaram na competição. Na época passada, o FC Porto teve 16 pontos na fase de grupos, venceu a Roma nas eliminatórias e chegou aos quartos-de-final, o que é mais uma prova de que é possível uma equipa de um mercado financeiro mais pequeno sonhar com a Champions League. É fácil? Não... mas sei que com o talento que existe no seu país e se os clubes portugueses conseguirem manter estes talentosos jogadores durante algumas épocas, então sim, podem aspirar a ganhar este troféu um dia.

R: O fair play financeiro tem sido uma das principais preocupações da UEFA. Não acha que as regras estão a impedir alguns clubes de crescerem rapidamente?

AC – Crescer rapidamente não é necessariamente crescer de forma responsável, já pensou nisso? Quantos clubes, antes do ‘financial fair play’, tinham donos que entraram, gastaram muitos milhões e depois deixaram os clubes com dívidas enormes ou em ruínas financeiras? O fair play financeiro teve um enorme impacto em tornar os clubes mais responsáveis e sustentáveis. Os clubes europeus, que juntos tiveram perdas significativas de quase 2 mil milhões de euros em 2011, estão agora a obter lucros superiores a 500 milhões de euros, o que se deve em grande parte às regras e medidas do fair play financeiro. Pode não ser um sistema perfeito, e continuamos a trabalhar para o adaptar à nossa realidade, mas está a funcionar.

R: Os acordos de direitos televisivos aumentaram exponencialmente nas últimas décadas. O que acontecerá quando o mercado disser que já chega?

AC – Os direitos de transmissão televisiva foram, de facto, fundamentais para as receitas da UEFA, o que é ótimo porque nos dão mais fundos para distribuir às nossas federações e clubes. Digo sempre que quanto mais dinheiro tivermos, melhor será, porque distribuímos 85% das receitas que geramos. Claro que o modelo tradicional de televisão está a mudar e os canais tradicionais e mesmo os canais de televisão pagos podem não poder pagar os montantes que se estão a pagar agora, mas acredito que as grandes plataformas digitais podem assumir o controlo.

R: Não está preocupado que as gerações mais jovens não estejam a assistir aos 90 minutos completos de um jogo de futebol? Como é que isso afetará o jogo (eventualmente diminuirá o valor dos direitos televisivos, etc.)?

AC – As gerações mais jovens não estão, de facto, a passar o mesmo tempo em frente à TV que nós costumávamos enquanto crescemos. Vejo isso pelas minhas filhas. Talvez mais pessoas comecem a assistir a jogos ao vivo nos seus dispositivos móveis, talvez através da nossa plataforma OTT, que lançámos no início deste ano, mas ainda há uma grande procura dos nossos produtos de futebol.

R: Está agora mais convencido com o VAR?

AC – O que eu sempre disse é que o VAR não vai matar a controvérsia e o debate no jogo - e eu tinha razão! Tenho de admitir que, inicialmente, estava cético quanto à introdução rápida do VAR. Nunca fui contra. No entanto, funcionou bem e foi por isso que decidimos introduzi-lo nas fases a eliminar da Liga dos Campeões da época passada. Estou contente por o termos feito, porque houve muitas decisões difíceis que foram tomadas pelo VAR e foram acertadas. Portanto, sim, estou convencido com o VAR, desde que os árbitros estejam bem treinados para o usar e desde que o senso comum seja usado.

Por Sérgio Krithinas
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