Margarida Rebelo Pinto: «Escrevo o que gosto e o que quero transmitir»

escritora confessa-se a record

Margarida Rebelo Pinto: «Escrevo o que gosto e o que quero transmitir»
Margarida Rebelo Pinto: «Escrevo o que gosto e o que quero transmitir» • Foto: PEDRO FERREIRA

Acaba de publicar o 10.º romance, “O Amor é Outra Coisa”. Antes de o recomendar como excelente prenda para o dia dos namorados, Margarida Rebelo Pinto revela-se adepta do Benfica, rejeita o novo Acordo Ortográfico e, aos 46 anos, continua a escrever sobre relações amorosas, sobre diferenças amorosas entre homens e mulheres.

R – Não estarei enganado se disser que a Margarida tem um público maioritariamente feminino…

MRP – O público da ficção em Portugal é maioritariamente feminino.

R – Se criasse um romance onde houvesse algumas personagens como futebolistas e respectivas namoradas ou mulheres, eventualmente poderia captar outro público… masculino…

MRP - Escrevo o que tenho vontade de escrever. O que gosto de escrever. Como trabalhei em publicidade durante dez anos; como controlo a produção dos meus livros, a imagem final, as campanhas de publicidade e relações públicas, as pessoas pensam que fabrico o conteúdo dos meus livros para agradar ao meu público. Não é isso que faço. O que faço é capas muito bonitas. Mas são coisas diferentes. O que está lá dentro, o conteúdo, é o que quero escrever e que quero transmitir.

R – Disse numa entrevista recente que nos primeiros livros utilizava uma linguagem mais desbragada…

MRP - Foi, digamos, uma evolução natural. Quando escrevi o “Sei Lá”, em 1999, não tinha nada a perder. Sabia que podia correr bem, não fazia ideia do fenómeno que iria provocar, mas escrevi com uma leveza e talvez com um desprendimento que nunca usei em nenhum outro livro. E o “Não há coincidências” foi escrito logo a seguir.

R – Na mesma entrevista, referiu-se a 2012 como o “ano da pornografia literária”, numa alusão às “50 Sombras de Grey”. O enorme sucesso da trilogia significa que as pessoas queriam aquele género de literatura?

MRP – Não li o livro, apenas folheei e li algumas páginas. Mas penso que aquilo é a ordem natural das coisas. Repare, quando a dança do varão se massifica e vai parar aos ginários, não é de espantar que pouco tempo depois a pornografia chegue à literatura. É a ordem natural das coisas. Quer dizer, há 10 anos não era “trendy” uma mãe de família dizer num jantar de amigas que anda a aprender danças de varão. E hoje em dia isso é normal… Há uma deslocação daquilo que era considerado submundo, aspectos que estavam arrumados numa espécie de lado subversivo da existência e que passaram a ser “mainstream”. Os ingleses chamaram-lhe, e bem, “mammy porn”. Se os homens vêem pornografia com um simples click na net, porque é que as mulheres não hão-de ler e divertir-se com um livro pornográfico

R – Nunca pensou em escrever algo do género?

MRP – Não. Eu sou uma escritora romântica, que fala de amor e de emoções. Embora fale de sexo nos meus livros, ele nunca é o centro das histórias, nunca é tónica dominante ou denominador comum.

R – O seu último livro chama-se “O Amor é Outra Coisa”. O que é essa outra coisa?

MRP – Vivemos numa sociedade intoxicada com ideias e conceitos de amor. Está em todo o lado, nos filmes, nas imagens de casais felizes, na publicidade, na política. Por exemplo, não imaginamos o Barak Obama sem a Michele… O amor é-nos vendido, impingido, oferecido com mensagem subliminar. Amor sinónimo de felicidade. Com a música é a mesma coisa, 95% das letras são sobre o amor. De tal maneira, que as pessoas até pensam que o Wish You Were Here [Pink Floyd] é uma canção de amor, e não é. Portanto, o amor está em todo o lado, as pessoas estão sempre à procura dele. Só que o amor dá trabalho, é um processo, uma construção, é preciso espírito de missão, tempo. O amor é vontade de querer estar com aquela pessoa, protege-la, fazê-la sentir melhor…

R – Não é por decreto…

MRP – Nem por decreto, nem é uma coisa instantânea. Não é um pudim Alsa, em que basta juntar água.

R – Há sempre o amor à primeira vista…

MRP – Sim, mas tem a ver com as feromonas, em que uma pessoa distingue-se das outras automaticamente. Nós olhamos e encontramos algo naquela pessoa que a isola e a distingue das outras. São… fenómenos químicos. Há uma senhora americana fantástica, que é a Helen Fisher, que tem vários livros sobre essa matéria e que explica muito bem a química do amor e dos processos amorosos. Mas depois… o amor é outra coisa, é construção, é paciência, é espírito de missão. E não há soluções fáceis nem imediatas. E não há amores instantâneos.

R – Fale-me um pouco do seu último livro.

MRP -- “O Amor é Outra Coisa” é uma história de amor e perda. É a história de uma mulher que escreve uma carta à irmã que já morreu e está a contar-lhe a vida dela e serve como forma de luto, como forma de ela se conseguir despedir da irmã, da única irmã.

R – Acha que os homens têm mais dificuldade do que as mulheres em lidar com a palavra amor, com o conceito?

MRP – Muito mais, muito mais. O amor é uma palavra difícil para os homens. Mas não precisam de dizer que amam as mulheres. Precisam é de mostrar, que é o que eles fazem bem. Os homens são bons na acção. Se um homem mostra que gosta de uma mulher, não precisa de dizer que a ama.

R – A verbalização não é, então, condição sine qua non?

MRP – Pelo contrário. Homens com grandes discursos apaixonados normalmente revelam falta de consistência, ou de seriedade. Não, não. As mulheres verbalizam muito mais. Um homem apaixonado é vulnerável e não gosta de mostrar a sua vulnerabilidade. Os homens foram educados para ir à luta, para não chorarem. Isto não quer dizer que não chorem, mas depois, quando isso acontece, vão para a caverna. Ficam lá a lamber as feridas até se sentirem fortes para sair. As mulheres não. Choram e depois telefonam às 5 melhores amigas e contam a mesma história 5 vezes. E no dia seguinte repetem tudo. São bichos muito diferentes. Por isso é que é tão interessante.

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