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Pedro Gómez Carmona: «O futebol português é competitivo»

Espanhol recorda passagem pelo Estoril em 2016/2017

Lembra-se de Pedro Gómez Carmona? O espanhol, de 36 anos, passou pelo Estoril na época 2016/2017, tendo orientado os canarinhos em 13 jogos. A etapa não durou assim tanto tempo devido aos resultados, mas tornou-se inesquecível. Foi a primeira experiência de Pedro Gómez Carmona como treinador principal e serviu como uma grande fonte de aprendizagem. Nesta entrevista a Record, o espanhol confessa-se rendido a Portugal, tanto a nível de futebol como de estilo de vida. De tal forma que, se surgir a oportunidade, o treinador está disposto a voltar. 

RECORD - Voltou ao Bahrein, agora para treinar um clube. Porquê?


PEDRO GÓMEZ CARMONA - Voltei porque me apresentaram um projeto muito atrativo. Já trabalhei na seleção e agora ofereceram-me a possibilidade de ser o treinador e o manager, de organizar o East Riffa a nível de estrutura e de jogadores. Além de todas as condições do clube, é um país onde se vive bem e hospitaleiro. Já são mais de 5 anos a trabalhar nos futebol árabe.

R - O que tem de positivo e em que áreas precisa de evoluir o futebol árabe?

PGC - Tento trazer uma metodologia profissional e aproximada ao que se faz na Europa. Esse era o grande objetivo. Muitas vezes passa por alterar hábitos, de treino e nutrição, mas sempre com adaptação à cultura - o que às vezes impede a alteração de alguns parâmetros. Por exemplo, sou muito rigoroso com o controlo da gordura corporal. Na Europa trabalhamos com uma percentagem de 9% e aqui no Bahrein temos de dar uma margem de mais 1% porque a cultura relacionada com a alimentação faz com que os jogadores tenham um pouco mais de gordura corporal.

R - As pessoas dos clubes desses países aceitam os europeus de braços abertos porque sabem que estes trazem mais conhecimento?

PGC - Sim, existe o reconhecimento e o respeito. Eles sabem que vimos de grandes campeonatos, como o espanhol, e eles mostram-se receptivos a aprender com quem vem da Europa. É uma mentalidade aberta para adquitir novos conhecimentos e ferramentas de trabalho.

R - O East Riffa é a segunda etapa como treinador principal. A primeira foi em Portugal, no Estoril. O que correu bem e mal?

PGC - Diria que nada foi negativo, só retiro aspetos positivos. Foi a minha primeira experiencia como treinador principal e estou muito agradecido pela oportunidade. Aprendi muito sobre como funciona o futebol português e tentei cumprir os objetivos: melhorar o jogo da equipa, a percentagem de posse de bola, entre outos... E fui conseguindo, mas o resultados não nos acompanharam. Mas serviu para evoluir como treinador, de como gerir uma equipa numa série com maus resultados.

R - Foram 13 jogos, duas vitórias, dois empates e 9 derrotas. Os números dizem tudo ou não reflectem o trabalho todo?

PGC - No futebol mandam os resultados. E a experiência no Estoril ensinou-me que primeiro tens de assegurar os resultados e depois melhorar outros números. Mas o futebol é assim. Um treinador tem de saber isso e adaptar-se. E não é só em Portugal, é em todo o Mundo.

R - Foi anunciado no Estoril a 15 de dezembro e poucos tempo depois estava a jogar contra o Benfica. Como foram esses dias a preparar o jogo contra o então campeão? Devem ter sido muitas horas de trabalho...

PGC - Sim, lembro-me que três dias depois da apresentação tivemos jogo com o Benfica, o líder do campeonato e, poucos dias depois, defrontámos o Chaves, uma equipa que vivia a melhor época na 1.ª Divisão. O grande objetivo era criar uma equipa sólida defensivamente e que aproveitasse as oportunidades criadas. Perdemos com o Benfica por 1-0, num golo de penálti. E depois também perdemos com o Chaves por 1-0. Fomos competitivos mas não pontuámos. Em 6 dias foram dois jogos importantes, de muito stress e trabalho porque estávamos no clube há pouco tempo.

R - Rui Vitória disse-lhe se tinha ficado surpreendido com a forma de jogar do Estoril nesse jogo?

PGC - Não me lembro. Felicitei-o pelo jogos mas trocámos poucas palavras. Foi um início com esperança porque fizemos um grande jogo mas o resultado não nos acompanhou. Às vezes jogas bem e perdes; outras vezes não jogas tão bem e ganhas.

R - Você disse depois do jogo com o Benfica: "A jogar desta forma vamos perder poucos jogos". Certo é que se seguiram 5 derrotas para o campeonato. O que aconteceu?

PGC - Quando jogas bem e não ganhas, a equipa vai perdendo confiança. Além disso, faltavam-nos jogadores importantes como Kléber, o nosso goleador, e tivemos de utilizar jogadores jovens que vinham do Brasil e com pouca experiência na Europa. Mas entre esses 5 jogos vencemos a Académica, o que permitiu ao Estoril apurar-se para a meia-final da Taça de Portugal, algo que não acontecia há 73 anos. Mas também é verdade que conseguimos aspetos positivos: melhorámos o índice de posse de bola, o número de chegadas à grande área do adversário e remates à baliza… Perdemos por detalhes mas que acabam por penalizar.

R - Também disse, uma semanas mais tarde, numa entrevista a Record: "Tirando os grandes, a equipa que joga melhor futebol em Portugal é o Estoril". Continua a defender a mesma opinião?

PGC - No fundo, era uma realidade que o Estoril havia melhorado e que mostrámos bons momentos de futebol, até contra os grandes. Além disso, o primeiro a dar confiança ao plantel deve ser o treinador e os jogadores recebem estas mensagens. Um treinador tem de pensar positivo e passar essa espoerança aos jogadores, para que eles percebam que o trabalhar serve para algo. No final, a experiência ajudou a todos, especialmente a mim, porque me ensinou bastante.

R - A saída foi prematura? Acha que devia ter tido mais tempo para trabalhar?

PGC - As coisas acontecem porque têm de acontecer. Se a saída fosse antes ou depois… não me arrependo de nada. Diz-se muitas vezes que o treinador só se torna verdadeiramente treinador quando é despedido. Porque quando é despedido, começa a ser mais autocritico e a mudar aspetos. Agora estou aqui, num grande projeto no Bahrein, e as coisas estão a correr bem. E se estão a correr bem é porque aprendi e cresci na minha etapa no Estoril. Prefiro guardar os aspetos positivos e não a pensar se devia ter ficado mais tempo.

R - Gostava de voltar a treinar em Portugal?

PGC - Trabalhar em Portugal é trabalhar num dos melhores campeonatos do Mundo. Por isso sim, gostaria de voltar a treinar em Portugal. Tive uma vida confortável, gostei de viver no Estoril, as pessoas são simpáticas. Já conheço o país e o campeonato, por isso nunca se sabe. Se surgir uma oportunidade…

R - O que mais gostou no futebol português?

PGC - Gostei muito do facto de ser um futebol competitivo. Não se vêem resultados muito volumosos, como acontece em Espanha. Em Espanha vemos um 6-0 ou um 7-1 e isso é difícil de acontecer em Portugal porque as equipas fecham-se bem e são fortes defensivamente. E qualquer equipa pode ganhar a qualquer equipa. Os grandes estão no topo, mas nem sempre ganham com facilidade.

R - E o mais negativo? Fala-se muito de arbitragem, não?

PGC - Sim, mas a implementação do VAR ajudou. Na minha altura houve muitas polémicas com o golo de Mitroglou em fora-de-jogo na meia-final da Taça de Portugal contra o Estoril. Não encontro coisas muito negativas no futebol português e oxalá que continue a crescer na Europa.

R - Houve algum jogador que lhe tenha ficado na memória?

PGC - Gostei de um jogador que cresceu muito na minha etapa no Estoril: Afonso Taira. Surpreendeu-me muito. Está em Israel e é considerado um dos melhores jogadores do país. Quando cheguei ao Estoril não era um jogador muito valorizado. Trabalhámos e atingiu um nível espectacular. Depois teve uma lesão no joelho e a equipa ressentiu-se. É um grande médio-centro, muito inteligente.

R - Que há de bom em viver em Portugal?

PGC - É maravilhoso. Gostei muito da comida. Come-se bem em Espanha, mas em Portugal também. Se tenho de destacar algo é a comida. Comes bem por um bom preço e para mim, que gosto de comer, foi algo que me agradou bastante. O país é muito bonito e as pessoas são agradáveis.
Por David Novo
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