Rodolfo Frutuoso: «Assino por cinco anos pelo Sporting logo após o primeiro treino»

O hoje dirigente recorda passado de jogador e de promessa em Alvalade

• Foto: Pedro Ferreira

RECORD - Como é que nasce o sonho de ser jogador de futebol?

RODOLFO FRUTUOSO- Desde pequenino. Sou natural de Torres Vedras. Grande parte do tempo vivia na praia de Santa Cruz, os meus pais são de lá. Desde miúdo que comecei a gostar de futebol por influência de alguns primos e tios que jogaram, na zona Oeste, no Torreense e clubes à volta, a nível distrital. Há alguns tios mais velhos que ainda jogaram no Torreense de forma respeitável. Fui sempre habituado a estar dentro do futebol, pelo meu pai e pelo meu irmão. Comecei a jogar no famoso rinque de Santa Cruz, ainda futebol de salão na altura, todos os dias, também na escola. Jogava a guarda-redes. Até tenho uma medalha de melhor guarda-redes num torneio de verão. Todos os verões havia esses torneios e já tinha eu 12 ou 13 anos, já não jogava na baliza passando depois a jogar à frente, quando fui abordado por um senhor chamado Manuel de Sousa, pai do jornalista Pedro Sousa. Era diretor do Torreense na altura. Era um guarda-redes pequeno com 10 anos mas tinha crescido um bocado em relação aos colegas com 12 ou 13 anos. Então, chamaram-me ao intervalo. Tinha medo que me fosse pedir o bilhete de identidade por ser maior do que os outros. Percebi que não era isso. ‘Eu sou Manuel de Sousa, diretor do Torreense’, disse-me, convidando-me para lá ir fazer uns treinos em 1994, em agosto. Foi aí que começou, nos iniciados, a treinar contra mais velhos. Fiz dois treinos e assinei. Fomos campeões nessa época de iniciados e eu jogava a extremo-esquerdo, por vezes a jogar atrás do avançado. Tive uma ligação ao Torreense até aos 17 anos.

R - Pensava realmente em ser profissional?

RF - No início queria era praticar desporto, era o gosto de jogar, mas sempre com uma ambição grande. Quando era juvenil de segundo ano senti que era mesmo futebolista que queria ser, que ia ser. A partir daí tornou-se mais sério. Fiz uma grande temporada nesse ano, já jogava pelos juniores enquanto juvenil.

R - Como é que surge o Sporting na história do Rodolfo?

RF - Dos 16 para os 17 anos faço uma grande época e salto para o Sporting. Já andava a ser seguido na altura. O senhor Vítor Mota trabalhava muito próximo de Aurélio Pereira e era olheiro do Sporting. Observou-me durante uma série de jogos. Fiz um treino e assinei logo a seguir. Foi uma coisa rápida. Não tinha empresário nessa altura.

R - Já era agenciado pelo José Veiga?

RF - Não, quando vou para o Sporting vou sem agente. Na altura tinha os três grandes interessados: Benfica, FC Porto e Sporting. Já tinha ido treinar ao Sporting e já tinha tudo resolvido ainda antes da época terminar. Fomos campeões de juniores da 2ª Divisão em Vila Franca de Xira, no Cevadeiro, curiosamente, frente ao Casa Pia. Foi onde subimos de divisão. Só já no Sporting é que o tive como empresário.  

R - Em pouco tempo começa a treinar com a equipa principal do Sporting.

RF - Foi tudo muito rápido. Nós fizemos um treino de juniores contra seniores, o treinador da altura era o Giuseppe Materrazzi. O treino foi no velho Alvalade. Os juniores perderam 7-2. Fiz um treino fantástico nesse dia, a marcar o Edmilson e o Acosta. Eles jogavam com dois avançados e o treinador pedia-me para fechar dentro, já eu jogava como lateral-esquerdo. Saiu tudo bem nesse treino. O Materazzi gostou. Houve um diretor chileno que me chamou de nome Vélez. Entretanto apareceu o Carlos Janela a dizer que queria falar comigo e eu já meio-assustado. Tinha saído de Santa Cruz há três semanas! Vou para Lisboa e tudo é muito rápido. Dizem-me: ‘Amanhã vais começar a treinar com os seniores’. Eu nem queria acreditar. Foi algo fantástico.

R - Deu para pensar como era treinar com aqueles jogadores de nomeada?

RF - Naquele momento nem tens bem a noção. Com 17 ou 18 anos, as coisas acontecem rápido e nem tive bem a noção do que é que estava a acontecer comigo. Portei-me bem, fui treinar tranquilo e fui treinar com eles. Tive uma infelicidade porque na altura não havia a história dos direitos de formação. Para saíres de um clube, tinhas de ter a carta desse clube, independentemente de ter assinado a ficha ou não, algo que bloqueava os jogadores. Não havia cláusulas de rescisão. Vou para o Sporting, assino um contrato normal a receber um subsídio que acertámos. Depois do treino que disse, tudo mudou. Havia um acordo entre Mário Lino, chefe do departamento de futebol do Sporting e o Torreense em relação a um valor qualquer. Não sei se era um jogo de preparação da equipa principal em Torres Vedras ou equipamentos. Como apareci tão bem e rápido, apareci nos media... O presidente do Torreense, o senhor Vital Rosa, o homem do queijo saloio, fez mudar tudo. Exigiram dinheiro e uma série de coisas. Eu já treinava com os seniores, o campeonato de juniores já tinha três jornadas e eu ainda não podia jogar. Já tinha assinado contrato profissional por cinco anos no Sporting logo no dia a seguir ao primeiro treino. O Sporting faz o primeiro jogo nos Açores e empata com o Santa Clara, com dois golos do Acosta [n.d.r. um é de Edmilson]. Eu estava convocado para esse jogo. O senhor Alexandre Paiva liga-me para me deslocar e ver a convocatória. No entanto, ainda não havia a informação clara de que eu não podia jogar. Porquê? O Torreense ainda não tinha assumido a desvinculação. Tiveram de pagar e ainda pagaram bem por mim ao Torreense. Falou-se na altura em 10 ou 12 mil contos.

Por Flávio Miguel Silva
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