Rodolfo Frutuoso: «Fui ter com José Veiga para lhe dar uma prenda, ele não me ia dar nada...»

Atual dirigente foi agenciado pelo "Jorge Mendes da altura"

• Foto: Pedro Ferreira

RECORD - Era agenciado pelo José Veiga 1999. Ele era mesmo o Jorge Mendes de então, como dizem? Tem alguma história com ele que possa contar?

RODOLFO FRUTUOSO - Assinei com o José Veiga nos juniores do Sporting, entre o ir à equipa principal e o estágio da seleção sub-18. Aparece toda a gente nessa altura. Assinei com ele. Ele era o que o Jorge Mendes é hoje. Era ele que dominava o mercado em Portugal e na Europa. Primeiro, tinha havido o Manuel Barbosa. A diferença é que a longevidade da carreira do José Veiga comparando-o com o Jorge Mendes é pequena. O Jorge anda há 20 anos em alta. Eu lidava mais com o Carlos Janela do que com o José Veiga, o José Veiga lidava com o Figo e outros de elite. Não lidava muito diretamente comigo. Começo a fazê-lo quando já estou para ir para o Estoril. Antes disso, tive uma conversa com ele, quando fui para o Sp. Pombal. Há uma história gira. Num Natal, fui ter com ele para lhe dar uma lembrança - dando também ao dr. Carlos Janela - e ele não estava à espera que eu lá fosse dar qualquer coisa. Na altura, estava a tratar dos presentes dos craques. Então, como percebeu que eu lhe dei um presente e ele não me ia dar nada, disse-me: ‘Oh miúdo, anda cá!’. Deu-me um estojo de relógios em pele da Superfoot. É giríssimo, anda comigo há 20 anos. Deu-me isto, eu abri a caixa e disse: ‘Eu só tenho dois relógios e isto leva 12’ (risos). Disse-me que ainda ia ter muitos relógios, para não me preocupar. Hoje está sempre comigo.

R - Ao Sp. Pombal, segue-se o Estoril.

RF - Vou emprestado, o José Veiga era ‘dono do Estoril’. Aí já lidávamos mais de perto porque ele ia ao clube com regularidade. Tinha tido outros convites por ter feito uma época muito boa em Pombal. Na altura falou-se do Beira-Mar, Naval e até o Alverca na 1ª Divisão. Ele convenceu-me pelo Estoril. Foi a opção que tomámos, não foi uma época das melhores em termos individuais mas fomos campeões e adorei viver em Cascais. Foi uma boa experiência.

R - Acaba por se arrepender da decisão de se desvincular do Sporting. É verdade?

RF - Sim. Tinha mais um ano de contrato quando estava no Oriental. Depois, nessa altura, acabo por me desligar do José Veiga. Na época anterior, tinha feito uma época extraordinária. Tinha melhores convites e vou para o Estoril, um clube que é dele, não jogando com regularidade. Joguei pouco em relação ao que estava a contar, com 21 anos. Fiquei desiludido. Afastei-me dele, não renovámos contrato de agenciamento. Fui trabalhar na altura e aparece o Paulo Lima pela primeira vez na minha vida. Ele tinha começado como agente de jogadores, estava na Holanda. Houve uma oportunidade do Sparta de Roterdão e mais algumas coisas. Tinha mais um ano de contrato e o ideal era ficar livre para tentar algo diferente, segundo o Paulo Lima me pediu. Rescindi ainda que hoje não o teria feito. Há sempre as opções que temos de tomar. A vida é feita de decisões diárias, como costumo dizer. Às vezes decidimos bem e outras mal. Na altura achei que era o melhor. Mais velho e maduro, o melhor teria sido continuar ligado mais uma época.

R - Chega ao Oriental e é treinado por Fernando Chalana. Como é que foi a experiência?

RF - É um grande homem. Cheguei a trazê-lo a um jantar de aniversário do Vilafranquense. Adorei na altura. Era como se fosse mais um jogador na parte de relacionamento connosco. O Luís Roquete era o adjunto que cuidava mais da parte do treino. Ele entrava mais na parte da gestão, de quem jogava. É uma ótima pessoa, dava-nos grandes exemplos. Foi muito gratificante poder privar com o pequeno grande genial. Entrava nas peladinhas e eu dizia-lhe: ‘Pequeno génio, jogamos aqui os dois na esquerda?’, para brincar com ele. Ele ainda jogava muito.

R - Depois de duas épocas no Oriental, tem propostas para jogar na 2ª Liga mas a carreira é interrompida abruptamente, quando está na Ovarense, desalentado com a situação económica no clube. Passou mal? Os casos que vão sendo conhecidos agora têm paralelo com o que passou na altura?

RF - Eu faço duas boas épocas no Oriental. Tinha 24 anos, tinha casado e o meu filho ia nascer. Aparece a Ovarense, Maia e outra equipa. Na altura, não havia o controlo de salários que há hoje entre outras coisas. Era muito pior do que é hoje. Fiz um bom contrato com a Ovarense, por duas épocas, o treinador era o Manuel Correia. Apareço muito bem na pré-época e comecei a jogar. Não foi tanto pela parte financeira mas chegava à 2ª Liga com 23/24 anos. Ainda estava muito a tempo de ir mais acima que era aquilo que eu sonhava e ambicionava. O clube já vinha com dificuldades do ano anterior. Havia a promessa que as coisas iam correr bem e o orçamento iria ser inferior. Ao final de um mês ou dois nós percebemos que iria ser muito complicado. O guarda-redes era o Rui Correia. A equipa era gira, a malta era porreira, mas não havia condições. Em dezembro estava com a minha mulher em Ovar, o meu filho era bebé. Tinha a vida mais ou menos organizada mas estares cinco meses sem receber... Tinha de olhar para a vida de uma forma diferente. Rescindi o contrato e viemos embora. Fruto da responsabilidade a vida mostrou-me outras coisas, alguém que dependia de mim. Já não era só eu e a minha mulher. Há outra responsabilidade.

R - Pesou na balança ser ou não ser jogador de futebol?

RF -Sim, mas fui sempre ambicioso. Rescindo, tenho tudo certo para ir para Grécia, para a segunda liga. Valia a pena, era bom dinheiro. Eu tratei de tudo e estava encaminhado para ir eu, o Gisvi e o Miguel Soares, os três da Ovarense. À última hora, vai o Gisvi e o Miguel e eu não vou (risos). Estiveram lá um ano e pouco no Asteras Tripolis, ganharam um dinheiro engraçado. Vim para a minha terra, Torres Vedras. Estava no Torreense para manter a forma, eles estavam na 2ª Divisão B. Estudei o mercado e percebi em janeiro o que poderia aparecer mas não apareceu nada de jeito. Falou-se em ir para o estrangeiro mas nada andou. Acabei por ficar no Torreense e treinado por mais uma glória do futebol português, primeiramente pelo Margaça mas sai entretanto e vem o Manuel Pedro Gomes. No primeiro treino aparece com o rádio ao ombro e nós olhámos para ele... Vinha ele com os pinos, 12 minutos a correr e a eu a olhar para aquilo: ‘Que grande coça que vamos levar’. Fiz alguns jogos mas psicologicamente não estava nas melhores condições. Começaram a aparecer problemas que eu nunca tinha tido até então, nomeadamente os financeiros. Foi uma readaptação. Estava ali a jogar por nada, para me manter, e tiver de ter outro trabalho, para sustentar o meu filho. Começo a pôr o futebol para segundo plano. Tinha 25 anos e ainda estava muito a tempo para fazer outras coisas. Um dia liga o Júlio Alvadia. Conhecia-o do futebol e sabia que estava a trabalhar no Citibank. Disse-lhe que precisava de trabalhar e pedi-lhe ajuda. Ele arranjou-me trabalho, trabalhei um ano com ele. A minha única experiência era ser jogador de futebol e tive a minha primeira experiência profissional fora desse âmbito, como agente comercial a vender cartões de crédito em vários sítios. Deu-me uma ‘bagagem’ muito grande. Era uma técnica agressiva, aprendi técnicas de venda. Tanto que vendia bem que um dia vendi um cartão a uma senhora que me contratou para vender seguros. Deixo os cartões de crédito e vou para uma seguradora. Foi assim que começou a adaptação a uma realidade diferente.

R - Ainda tem uma segunda vida futebolística.

RF - Jogava na mesma. Há um momento quando ‘fecho’ o Torreense em que venho viver para Vila Franca de Xira. Há um período em que durante seis semanas treinei os iniciados do Juventude da Castanheira. Experimentei ser treinador. Acho que comunico bem, tenho as minhas ideias e para o patamar que era não estava a ser difícil. Depois, liga-me o Paulo Torres, outro companheiro do futebol, chateia-me para ir para o Bombarralense. Já eu estava a trabalhar. Pensei... O facto de jogar na terceira divisão, ser um campo pelado, jogávamos em Óbidos, com todo o respeito. Entretanto, lembro-me perfeitamente do que ele me disse: ‘Estás morto. Estou a dar-te vida e não queres vir?!’ Disse-lhe que não sabia se queria voltar a jogar. Lá me convenceu e fui jogar quatro ou cinco meses. A vida começou a caminhar neste sentido, a trabalhar e a jogar, com dificuldades. O Paulo Torres vai para Rio Maior, para a 2ª Divisão B, e leva-me. Fui com ele. Nessa época, surge a oportunidade de trabalhar no Plaza Ribeiro Telles, um cento de eventos onde trabalhei seis anos. Adquiri algumas coisas naqueles dois empregos que tive mas foi no Plaza Ribeiro Telles que me equivaleu a um curso superior. Foram seis anos onde aprendi muita coisa com uma senhora chamada Madalena Ribeiro Telles que me ensinou muita coisa, tal como o senhor João Paulo Vitorino, então diretor comercial. Comecei lá, estive no início do projeto como gestor de eventos, comercial e relações públicas, fui de tudo um pouco. Cresci imenso, ainda jogava na mesma. Descemos depois de divisão no Rio Maior. Já era aquele tipo de jogador em que jogava ao fim do dia e tinha o meu trabalho. Mudei o paradigma daquilo que eu queria. A vida é mesmo isto. Na 3ª Divisão, contei outra vez com a história dos ordenados, neste caso subsídios, em atraso. Tivemos seis meses sem receber e nós no segundo lugar. Em conversas com a minha mulher dizia que ia deixar de jogar e já não dependia só do futebol. Já tinha outra bagagem e experiência. Já não dependia só daquilo, não foi tão sofrido como em Ovar em que era o único dinheiro que tinha.

R - Já tinha pensado que queria ficar ligado ao futebol após acabar a carreira?

RF - Sempre, sempre. Não me via como treinador, apesar daquela curta experiência. Via-me como agente de jogadores, diretor-desportivo ou consultor, algo deste tipo. O Paulo Lima foi meu agente como tinha dito mas depois cada um seguiu o seu caminho. Ele, no último ano que joguei em Rio Maior, em 2009, ele vai lá levar um jogador brasileiro a treinar. Voltamo-nos a encontrar. ‘Tu ainda jogas à bola?’, pergunta-me ele. Na altura era subcapitão de equipa, jogava lá um miúdo chamado Miguel Belo que hoje é jornalista no canal 11. O Paulo Lima diz-me para deixar de jogar: ‘Deixa mas é isto’. Eu respondo-lhe: ‘Eu vou deixar e nós ainda vamos trabalhar juntos’. E ele responde que ‘nunca se sabe’. Houve também a história no Rio Maior da greve de fome, com os treinos parados. Juntámo-nos e parámos todos à porta do estádio. Quisemos chamar à atenção. Falámos com o Sindicato e o dr. Evangelista. A maioria era tudo jogadores amadores que é basicamente o que se passa 11 anos depois. Tivemos a coragem que ninguém tinha tido. Ameaçámos com a greve e não fomos mesmo a jogo. Sabíamos que a seleção sub-18 ia lá jogar em Rio Maior e foi o melhor motivo para chamar à atenção. O presidente da Federação, Gilberto Madaíl, ligou para nós para levantarmos o acampamento, que era uma vergonha. Naquele momento há sempre quatro ou cinco que pensam furar e não querer ir. Obrigámos a que fossem todos. Não apareceu, no fim, o dinheiro todo mas apareceu uma quantia significativa. Deu para minimizar o impacto. Terminei a carreira em maio de 2009 e pensei o que ia fazer a seguir. Começo a pensar que iria ser agente. Olhava para o José Veiga, via alguns exemplos, as experiências que ia tendo. Sabia que o Paulo Lima tinha a Eurofoot meia adormecida e fui desafiá-lo. Um dia ligo para ele, em agosto, disse que queria falar com ele. Ele diz-me que ia para Itália e convidou-me para ir ao aeroporto beber um café. Trabalhava no Plaza Ribeiro Telles, pensava como é que ia fazer aquilo mas agora no carro e lá fui. Ele era daquilo tipo de pessoas que ou apanhava ali ou era difícil. Com meia dúzia de folhas, falei meia hora com ele. Disse-lhe que gostaria de o ajudar a fazer renascer a Eurofoot, disse-lhe que estava mal rodeado entre outras coisas. Vendi o meu peixe. Disse-me que me dizia algo depois, agarrou nas folhas e meteu na pasta. Achei que nunca mais diria nada. Enganei-me. Passado quatro a cinco horas ele liga-me a dizer que podia começar a trabalhar na segunda-feira seguinte. Estávamos a uma quinta-feira. Disse-me que quando chegasse falaríamos melhor. Assim foi, aí começa a aventura na Eurofoot, apostando em jogadores jovens, tentando apanhar jogadores de clubes grandes, indo devagarinho.

Por Flávio Miguel Silva
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