Rodolfo Frutuoso: «Num clube grande tens 40 pessoas à tua volta, quando cais é complicado»

Recorda saída do Sporting e empréstimo ao Sp. Pombal

• Foto: António Simões

RECORD - Como é que era treinar com Schmeichel, André Cruz, César Prates, Dusher, De Franceschi, Acosta... há algum episódio marcante do tempo que passou com o grupo que se viria a sagrar campeão nacional?

RF - Recordo-me do primeiro treino, comigo a olhar assustado para eles todos. O Nélson, guarda-redes, eu já conhecia de Torres Vedras. Foi meu padrinho no Sporting. Ambientou-me da melhor forma por ele ser de Torres Vedras. Como jogador mais velho ajudou a integrar-me no início. Depois, eu ia para o treino e oiço: ‘Oh miúdo anda cá!’. Foi o Pedro Barbosa que me chamou. ‘Pega aí nas grades das águas e leva lá isso’. Eu lá fui... Treinávamos normalmente no relvado número 2, cheio de gente. Eu entrei com as águas mas tranquilo da vida, são as coisas normais que se fazem quando os miúdos aparecem. Na altura, há um momento que tudo mudo. O Materazzi não esteve muito tempo no Sporting e vem o Augusto Inácio. Quem trabalhava mais regularmente com a equipa principal é o Santamaria, o Vasco Faísca e eu também fui lá nessa altura. Com o Inácio, o Santamaria ainda continuou mas o Faísca foi logo para a Lourinhã passado pouco tempo, eu fui para os juniores no dia a seguir. As coisas mudam. É algo que eu às vezes digo aos jogadores: há coisas que te desviam, às vezes são pequenas, mas que têm influência. Mandam-te por outro lado. Acredito que se o Materazzi continua iria lançar-me. Sentia que ele gostava do meu trabalho. Encontrava-me mesmo fora do treino e conversava comigo. Havia alguma afinidade. Olhava para o talento nas camadas jovens.

R - Não fica no plantel principal e evolui nos juniores onde estão, por exemplo, jogadores como o Carlos Martins, o China que jogou até esta época no Vilafranquense ou o Quaresma. Era um Sporting que dominava a formação? Como era o Quaresma na altura?

RF - Na altura jogava o Beto, Carlos Martins, Lourenço, o China, Mangualde, Nuno Diogo, Mateus, Paulo Ribeiro, Santamaria... era uma equipa com muita qualidade. O Sporting dominava a formação mas nessa época até foi o Benfica campeão. Naquela altura não havia a mínima dúvida, toda a gente queria ir para o Sporting. Nem era discutível. Naquela altura tive os três grandes mas fui muito rápido a escolher. Quando o FC Porto apareceu na jogada, até foram a Santa Cruz à minha procura mas já tinha assinado. Era o clube em Portugal com a melhor formação. O Quaresma era juvenil nesse ano e foi diretamente para a equipa B. Faltou o escalão de juniores, só jogou alguns jogos da fase final, tanto ele como o Hugo Viana. Tinham sido campeões da Europa sub-16. O Carlos Martins era muito acima da média tal como o Lourenço.

R - Chegaram a juntar-se vários colegas seus no Vilafranquense que partilharam a carreira de futebolista ou estiveram na formação do Sporting, falo do Vasco Matos, o Torrão, o Vasco Faísca. Temos o Hugo Viana na estrutura do Sporting. Significa que o Sporting não soube só formar jogadores?

RF - Sim, sinto que naquela altura não tinha só os melhores treinadores e resultados, além do projeto mais propositado para o atleta. Havia projetos para os jogadores.  Com o crescimento e o tempo, a Academia trouxe outras condições, a parte pedagógica melhorada. Acaba por ter influência nisso. No Vilafranquense, não é por acaso que eles chegam cá. Seja o Faísca, o Vasco Matos (lançado como treinador), o Nélson Veiga (lançado como diretor-desportivo) e a ligação que têm comigo. Foram as ligações que fui criando. O Faísca há muito tempo que falava com ele antes de acabar a carreira em Itália e pensámos ir buscá-lo. Nunca fomos perdendo o contacto. Na vida e no futebol há coisas que coisas que só acontecem se deres uma oportunidade às pessoas. Outras poderiam ter essa oportunidade e não acontece. Havia e há gente do futebol que tem capacidade para estar no futebol noutras circunstâncias apesar de nos últimos 10 anos isto ter levado uma grande volta no sentido de haver muito mais formação e nos abrirmos às tecnologias. É importante. Quem quiser estar no futebol já não é como antigamente. Não chega teres sido jogador. Nem todos têm perfil para isso.

R - Nota uma grande diferença quando é emprestado do Sporting ao Sp. Pombal? Fica desalentado por não conseguir ficar no Sporting?

RF - Foi um choque gigante que acabou por se revelar o melhor passo. Vou dar um exemplo. Tu és um miúdo, uma promessa de um clube grande: tens 40 pessoas à tua volta, seja família, amigos, pessoas que se aproximam de ti porque és jogador do Sporting. Quando cais, se não tiveres quem te vá buscar é complicado. Felizmente, tive a minha namorada que hoje é minha mulher. Hoje, lembro-me perfeitamente que foi um dos maiores apoios que tive porque até senti em relação à própria família [afastamento]. Não falo dos familiares mais diretos mas outras pessoas. Senti o afastamento. Fui para o Sp. Pombal e as condições não tinham nada a ver com o Sporting. No Sporting tinhas tudo. É um choque grande, mas consegui adaptar-me rapidamente. Tive duas ou três semanas a abanar mas recompus-me rapidamente. Fui treinado pelo João Carlos Pereira que tinha acabado de vir do Marinhense. Foi uma agradável surpresa. O Mourinho estava em Leiria nessa época, ele tinha estagiado com o Mourinho. Gostei muito dos métodos de treino, cativou-me. Era dos mais novos da equipa mas integrei-me bem. Fizemos uma época fantástica, não subimos por um ponto à 2ª Liga. Fui dos jogadores mais utilizados e era um passo bom.

Por Flávio Miguel Silva
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