A equipa dos sobreviventes da guerra
O equipamento é verde para representar a terra e branco para simbolizar a paz...
Na fronteira entre o Sudão e o Chade nasceu um clube de futebol vindo do sonho de Gabriel Stauring. O norte-americano idealizou esta equipa constituída apenas por sobreviventes do conflito étnico do Darfur, no Oeste sudanês, que já dura desde 2003 e provocou mais de 50 mil mortes.
"Desde a primeira vez que fui a um campo de refugiados no Darfur, em 2005, vi que havia algo de poderoso na forma como o futebol podia ajudar crianças que passaram por traumas severos. Quando levei uma bola e comecei a jogar com elas, já não eram refugiados ou sobreviventes. Eram futebolistas, com a mesma alegria que qualquer criança sente quando dá uns pontapés na bola com os amigos", revela em entrevista por e-mail a Record.
Em 2011, a organização não-governamental i-ACT, fundada por Stauring, começou a dar os primeiros passos para criar uma equipa de futebol na região do Darfur. O objetivo seria selecionar um grupo de jogadores, representantes das várias tribos, que pudessem participar no Mundial VIVA, um torneio para seleções não reconhecidas pela FIFA, onde também participam equipas como Norte do Chipre, Occitânia, Saara Ocidental ou Zanzibar. É assim que nasce o Darfur United.
"Escolhemos este nome porque queríamos que representasse todo o Darfur e não apenas um subgrupo da grande região do Sudão. Foi assim que juntámos o United [unido]. As cores do equipamento foram escolhidas pelos refugiados: verde para representar a sua terra e branco para representar a paz", lembra Stauring.
No início, contudo, não foi fácil passar a ideia de união: "Houve problemas desde o primeiro dia. Na nossa primeira reunião, antes dos treinos de captação, os jogadores disseram que não queriam ser misturados com membros de outras etnias e disseram que as tendas de cada grupo estariam assinaladas com o nome da respetiva tribo. Explicámos que essa não era uma opção e que tinham de estar unidos, tal como o nome da sua equipa referia. Teriam de se portar como uma verdadeira equipa, trabalhando juntos e tomando conta uns dos outros dentro e fora do campo. Quem não gostasse podia sair. Ficaram todos e a equipa foi escolhida."
Dos 60 jogadores que apareceram, houve uma primeira seleção de 20 até que se chegou ao lote dos 16 finais que iriam representar o Darfur United no Mundial VIVA, realizado no Curdistão, Norte do Iraque, em 2012. "Antes de partirmos para o torneio, os jogadores estiveram a treinar dois meses. Foi o suficiente para criar o espírito de equipa. Todos eles, de diferentes tribos e campos, tornaram-se como irmãos. Ensinavam uns aos outros os seus dialetos tribais, partilhavam histórias sobre as suas famílias e sobre os seus campos e criaram laços que hão de durar para sempre."
O que significa o Darfur United para estes jogadores? A resposta é dada no site oficial do clube por Mahamat 'Iggy' Enigy: "O Darfur United não é apenas uma equipa de futebol. Representa milhões de pessoas do Darfur. É um movimento para levar esperança, diversão e inspiração às pessoas deslocadas do Darfur. Somos a voz de um povo que tem passado doze anos isolado em campos. Acredito que o futebol possa trazer-nos a paz." O espírito de coesão que Stauring quis criar ficou bem presente no discurso de alguns jogadores: "Vínhamos de campos de refugiados ou de tribos diferentes. Mas agora somos todos Darfur United", diz Abdelbassid Oumar, outro dos elementos da equipa.
Para uma seleção como o Darfur United, os resultados são o que menos importa. No primeiro Mundial VIVA em que participou, sofreu 33 golos contra zero marcados apenas nos primeiros dois jogos. Mesmo assim ainda teve oportunidade de realizar um jogo de consolação contra outra equipa eliminada, o Saara Ocidental. Desta vez sofreu apenas cinco golos e conseguiu o golo de honra por Mubarak Haggar. Um golo histórico: "O Mubarak foi o único jogador a marcar um golo pelo Darfur United", lembra Stauring.
O autor da proeza é agora treinador numa das academias de futebol do clube: "O nosso grande orgulho é termos criado duas academias nos campos de refugiados do Darfur, com mais de dois mil miúdos entre os 8 e os 13 anos, treinados por refugiados que foram preparados por uma especialista em ciência do treino de futebol." Mas Stauring quer mais. "Estamos a trabalhar para expandir as academias de futebol a todos os 12 campos do Darfur, para que a próxima geração de jogadores possa treinar de forma consistente."
Um dos pilares de Stauring nesta aventura tem sido Mark Hogson, um treinador inglês que vive na Califórnia e que orientou o Darfur United nos Mundiais não-oficiais de 2012 e 2014, preparando-se para voltar a fazer o mesmo na próxima edição, agendada para setembro de 2016, na Abecásia, uma região autónoma situada no Norte da Geórgia: "No princípio estava muito entusiasmado com a possibilidade de abraçar este projeto, mas depois comecei a pensar nos perigos daquela zona. Darfur, Iraque, campos de refugiados. Enfim, fiquei um bocado assustado", revelou, em 2012, numa entrevista ao site da revista ‘Vice’. Apesar dos receios, decidiu embarcar nesta viagem e garante não se ter arrependido: "Tem sido uma experiência fantástica. O futebol é uma linguagem global. Estive em África, com 60 jogadores que não se conheciam, todos falavam línguas diferentes, e bastou uma bola de futebol para juntar toda a gente."