Exemplos de persistência acolhidos em Portugal

Farid e Adam chegaram a Portugal como refugiados e encontraram no desporto uma razão para sorrir

Exemplos de persistência acolhidos em Portugal
Exemplos de persistência acolhidos em Portugal • Foto: vítor chi
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Farid saiu do Afeganistão ainda em criança e chegou a Portugal aos 15 anos. Pouco tempo depois sagrou-se campeão nacional de boxe, na categoria de cadetes, e recebeu uma medalha de ouro do Prémio Direitos Humanos. "Foi um dia especial", lembra. Mas o quadro estava incompleto. O jovem pugilista olhou à volta e não viu a família. Hoje está com 18 anos. Continua a combater. E continua longe daqueles que ama.

Foi separado da mãe quando tinha apenas um ano. A família pertence à etnia hazara e fugiu da perseguição feita pelos sunitas. Temeram que a criança não aguentasse a dolorosa viagem pelas montanhas e deixaram-na na casa de um tio, situada na cidade de Puli Kuhmri. Mas não ficou muito tempo. "Aos 8 anos tive de fugir. No Afeganistão não podia ir à escola, nem praticar desporto. Só havia problemas. Problemas com etnias, com os talibãs, com a guerra e com a fome. O meu tio pagou a uma pessoa para me ajudar a fugir do país." O dinheiro, contudo, não foi suficiente para garantir ao pequeno Farid um meio de transporte durante as centenas de quilómetros percorridos pelas montanhas. "Alguns iam a cavalo, outros de burro, mas eu tive de fazer tudo a pé." Caminhou dias, semanas, meses. Sem comer, a dormir em currais, a ver gente morrer e a ser obrigado a roubar a água dos mortos para sobreviver. Memórias de um passado que não quer visitar: "Perdi muitas coisas na minha vida, agora só quero ganhar."

Rumou ao Paquistão, seguiu para o Irão e entrou na Turquia. Já em Istambul, viveu num apartamento com alguns dos sobreviventes. Numa noite, envolveram-se em agressões e a polícia foi chamada ao local. Todos foram levados, menos Farid. "Pedi para ser preso porque não queria ficar sozinho." As autoridades enviaram-no para um orfanato, de onde seguiu para um centro de refugiados. Foi aí que começou a praticar taekwondo e kung fu. Pensou estar a salvo, mas numa noite quase foi assassinado, como lembra Paulo Seco, seu treinador de boxe em Portugal.

"Ele disse-me que ia na rua com outros amigos do Afeganistão depois de ganharem um combate de taekwondo. Esses três amigos foram mortos por uns homens que seguiam num carro. O Farid sobreviveu, mas ficou em coma alguns dias e partiu uma perna. Atacaram os miúdos apenas porque eles eram do Afeganistão e não os queriam lá." Outro episódio que Farid prefere não desenvolver: "É difícil falar dessas coisas, foi uma tristeza muito grande."

"Vou ser campeão de boxe"

A esperança de Farid renasceu em dezembro de 2012, quando aterrou em Lisboa, embora o próprio ainda não soubesse. Veio ao abrigo de um protocolo internacional que atribui uma quota a Portugal para o acolhimento de crianças refugiadas desacompanhadas. Farid não teve escolha e pouco conhecia sobre o novo destino. "De Portugal sabia apenas que era o país do Cristiano Ronaldo e nada mais", admite. Foi recebido pelo Conselho Português para os Refugiados (CPR) e ficou no abrigo do Centro de Acolhimento para Crianças Refugiadas (CACR), em Lisboa. Assim que chegou, mostrou logo vontade de voltar a fazer desporto: "Ele disse-nos que queria ir para o boxe", revela Dora Estoura, coordenadora do CACR. "Expliquei-lhe que podia ir, mas primeiro estava a escola." Na primeira entrevista, Dora Estoura perguntou-lhe se queria ser campeão de boxe. Resposta: "Não quero ser, eu vou ser campeão de boxe." E não demorou muito. Bastaram cinco meses no Clube Desportivo de Arroios para conquistar o título de campeão nacional de cadetes na categoria de 57 quilos, após quatro combates vitoriosos.

Antes da estreia, teve uma conversa com Dora Estoura que a deixou emocionada: "Disse-me que na Turquia também ganhou combates, mas os outros miúdos tinham lá a família para os apoiar e ele não tinha ninguém. Estava sempre sozinho. Então prometi-lhe: ‘Está descansado, porque em Portugal vais ter sempre alguém.’ A partir daí, técnicos, funcionários e outros jovens estavam lá para o apoiar. Antes de cada combate, ele olhava à volta para ver onde estávamos. Creio que esse apoio foi importante para ele."

Uma força diferente

Após a conquista do título, Orlando Jesus, o treinador de Farid, foi eleito presidente da Associação de Boxe de Lisboa e ficou sem tempo para acompanhar o seu atleta. Farid procurou uma nova solução e ingressou na equipa de Paulo Seco, o Boxing Lisboa Futebol Clube. Agora, com 18 anos, tem idade de sénior. Está a recuperar de uma lesão no ombro e já traçou novo objetivo: "Estou quase bom e quero lutar pelo campeonato nacional."

A coragem que mostra no ringue contrasta com a preocupação que sente pela família: "Não sabemos se o meu pai está vivo, mas todos os meses falo com a minha mãe, os meus três irmãos e as minhas duas irmãs. Estão todos no Afeganistão e eu estou sempre com medo de perder um deles. Quero-os aqui, perto de mim."

O contacto com a família aconteceu já depois de estar em Portugal: "Foi preciso algum tempo para apurar a identidade da família e ter todos os documentos necessários. Assim que ultrapassámos essa fase, apoiámos o jovem com o requerimento junto do SEF para que ele possa reunir-se com a sua família aqui em Portugal, mas até ao momento não temos qualquer indicação por parte do SEF sobre o andamento do processo", explica Dora Estoura.

Farid espera pela família. E desespera. "Tenho problemas psicológicos por eles não estarem aqui." Tenta distrair-se entre o boxe e a Escola António Arroio: "Estou a estudar desenho porque quero ser arquiteto." O seu objetivo é continuar em Portugal depois de terminar os estudos: "Gosto deste país, aqui é bom para viver e sei que a vida vai melhorar. Tem de melhorar. Agora só quero treinar, estudar e voltar a estar com a minha família."

Contra a mutilação genital

A chegada de Adam a Portugal tem muitos pontos em comum com a história de Farid. O jovem de 18 anos, nascido no Gana, aterrou no mês de janeiro, também foi acolhido no CPR e teve no desporto uma forma de integração mais rápida num país sobre o qual pouco conhecia: "Quando estava no Gana ouvia falar do Benfica e em alguns jogadores do Benfica. Não sabia mais nada sobre Portugal, mas as pessoas foram boas para mim."

Ao chegar ao CPR, pediu para treinar numa equipa de futebol. Levaram-no aos juniores do Palmense, da Associação de Futebol de Lisboa, e foi ali que o seu destino se cruzou com o de Milton Martins, o treinador da equipa de seniores: "Fizemos um jogo de treino contra os juniores e só tive olhos para o Adam. Vi logo que era um diamante por lapidar", recorda o técnico.

Adam está integrado no plantel principal do Palmense à espera dos documentos para poder competir oficialmente. Será uma estreia para ele: "No Gana jogava apenas na rua, com os meus amigos. Quando vim para Portugal também jogava com os outros miúdos no CPR. Agora quero poder ser inscrito no Palmense para fazer uma carreira no futebol."

O médio ganês tem os olhos postos no futuro, mas fala do passado sem fugir: "Saí do Gana porque tive um problema com o chefe da minha vila. Naquela vila praticam a mutilação genital das mulheres. É uma tradição antiga, mas sempre fui contra isso e queria mudar as leis. Comecei a distribuir panfletos e a tentar sensibilizar as pessoas da minha vila."

Num território com tradições muçulmanas extremistas, o ativismo de Adam não foi bem recebido. "O chefe da minha vila não gostou e queria punir-me. Se não saísse dali, iam fazer-me mal." Adam conta que fugiu para Acra, a capital do Gana, onde pensou estar em segurança. "Mas pouco tempo depois de lá estar, vi pessoas que pertenciam à tribo do chefe da minha vila. Andavam à minha procura. Tive de pedir ajuda para sair do Gana e acabei em Portugal."

Dora Estoura descreve Adam como um jovem "com uma maturidade acima da média". "Chegou a Portugal em janeiro, mas já fala português, estuda e joga futebol. Tem objetivos, esforça-se e luta por eles." A coordenadora do CACR elogia também "os princípios e valores humanos" do jovem ganês: "Foi a defesa desses direitos humanos que o obrigaram a sair do seu país."

Adam está concentrado na sua vida em Portugal, mas continua a preocupar-se com as injustiças sociais e não esconde a angústia na voz quando fala sobre a atual crise de refugiados na Europa: "Vejo estas pessoas a sofrer e fico muito triste. Se eu pudesse, ajudava os refugiados todos, mas não sou ninguém. Tive muita sorte de me receberem em Portugal porque me ajudaram muito."

Uma dessas ajudas vem do treinador Milton Martins. Encara a entrada de Adam na sua vida como uma forma de cumprir um destino que lhe tinha sido vaticinado por um antigo companheiro de equipa: "Quando jogava futebol, tive um colega muçulmano que era muito devoto e parecia adivinhar o futuro. Numa ocasião disse-me que eu ia ser treinador e que iria ajudar alguém como ele. Nunca levei aquilo a sério até que encontrei o Adam."

O técnico do Palmense garante que o seu jogador tem condições para chegar longe: "É um médio com muita qualidade técnica e pode melhorar bastante, dependendo dos treinadores que venha a apanhar." Porém, diz que ainda é cedo para dar o salto: "Nove meses é pouco tempo para o preparar. Tem de crescer muito a nível tático e ainda precisa de passar por várias etapas de crescimento." Adam não sabe quanto tempo vai demorar a evoluir, mas não tem dúvidas de que vai chegar à ribalta do futebol: "Vou jogar num grande clube e vou ser um grande jogador."

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