Negócio da China
Investidores chineses compram vários clubes em Portugal e trazem jogadores do seu país. Uns aplaudem o dinheiro da Ásia. Mas há quem tema que sirva para ter retorno nas apostas ilegais...
Parece um casamento perfeito. Os chineses têm dinheiro e jogadores daquele país para colocar. Os portugueses precisam da verba e aceitam os investidores e os seus futebolistas. O financiamento ‘made in China’ já chegou a cerca de dez clubes portugueses. Tudo aconteceu nas últimas duas épocas em clubes da 2.ª Liga e do Campeonato Nacional de Seniores (CNS). Tem sido uma entrada forte, rápida e que promete não ficar por aqui. "Se não fossem os chineses, ninguém ganhava dinheiro no Campeonato Nacional de Seniores [CNS]", revela António Pereira, treinador do Loures, um dos clubes portugueses que pertence a capitais oriundos da China.
A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) conta 29 jogadores chineses registados nas competições de seniores, mas há muitos mais a treinarem-se. Esperam apenas completar 18 anos para poderem ser inscritos em diferentes clubes. Guo Tyaniu é um deles. Sonha seguir as pisadas do ídolo Ibrahimovic. Aos 16 anos, tem um porte físico que nada fica a dever ao do avançado sueco do PSG. Alto, voz grossa e o objetivo de chegar ao topo do futebol mundial: "Estou a aprender muito em Portugal." Ao seu lado tem o defesa-esquerdo Ma Chao, também com 16 anos, e o ponta-de-lança Li Jiachin, mais velho, com 19 anos, o único que sabe falar português. Todos são jogadores do Oriental Dragon, clube criado no ano passado com o intuito de formar futebolistas chineses em terras lusas.
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"O projeto começou em 2011. Trouxemos mais de 40 jogadores. Alguns eram juniores e já não tinham grande margem de progressão. Outros ficaram connosco", revela o diretor-técnico Carlos Gomes, antigo treinador do Benfica B. "Aqui têm todas as condições para evoluir. Um treinador de nível IV, infraestruturas, tradutores, aulas, cuidados médicos e o contacto com jogadores portugueses." O treinador José Toureiro admite que muitos ainda estão "num processo de adaptação, mas têm potencial".
O Oriental Dragon é propriedade da WSports Seven, empresa que, esta época, também se tornou acionista maioritária de Pinhalnovense e Torreense. Treina em Massamá, num dos campos do Real Sport Club, mas joga no Pinhal Novo. Na última temporada, muitos dos jogadores ainda não tinham 18 anos e por isso não podiam ser inscritos na FPF. Para que não ficassem parados, a WSports Seven criou uma prova que ficou conhecida por Liga Chinesa (denominada de Future Stars League). Esta época, porém, muitos jogadores atingiram a maioridade e a equipa foi inscrita na 2.ª Divisão da AF Setúbal.
"Compreendo que existam dúvidas, receios e alguma estranheza por haver uma equipa de chineses a disputar uma competição em Portugal, mas cumprem todos os requisitos, também têm muitos jogadores portugueses, e estão a competir", explica Joaquim Sousa Marques, presidente da AF Setúbal, concordando que "deve haver sempre fiscalização sobre os investidores estrangeiros que entram no futebol português".
40 futebolistas espalhados
O empresário chinês Qi Chen é o homem por detrás deste projeto. Entrou no futebol português em 2006, nas transferências de Yu Dabao e Wang Gang para o Benfica. "Fui a primeira pessoa a trazer jogadores chineses para Portugal." Atualmente, tem perto de 40 futebolistas, distribuídos por Oriental Dragon, Pinhalnovense e Torreense (as suas equipas), mas também no Real Sport Clube, Cova da Piedade e até nos juniores do Sporting – o médio Lingfeng.
Teve investimentos no futebol belga, alemão e italiano, mas neste momento concentra tudo em Portugal. "É um país com muitas competências no treino e na competição de jovens. Se compararmos com outros lugares, também há melhores leis e regulamentos para permitir que os jogadores venham e possam competir."
O empresário diz que o principal objetivo é treinar jovens chineses em Portugal que depois possam voltar à China e melhorar o nível da liga e da seleção, que sonha ver "campeã do Mundo". Chen classifica o Oriental Dragon como "uma universidade de futebol onde os chineses podem ter uma boa educação" e diz que os pais dos jovens não têm de lhe pagar nada. No entanto, ao que Record apurou, as famílias de alguns dos que vieram na fase inicial do projeto podem ter pago entre 100 mil e 250 mil euros.
Carlos Gomes também revela que o projeto tem três objetivos: "Formar jogadores que depois possam melhorar o futebol da China, formar outros que possam singrar na Europa e funcionar como uma escola em que alguns jogadores pagam para ter essa formação." Mas diz desconhecer os valores envolvidos: "Esse é um assunto que não passa por mim. É tudo tratado pelo senhor Chen."
Chen admite que a WSports Seven é apoiada pela federação chinesa, embora não avance com as verbas recebidas. Sabe-se, no entanto, que o governo chinês está a fazer um forte investimento para transformar a China numa potência do futebol. A modalidade será disciplina obrigatória nas aulas de educação física em 20 mil escolas nos próximos cinco anos e em 50 mil até 2025. Fora do país, projetos como o da WSports Seven têm também ajuda governamental. Talvez motivado por esse ‘patrocínio’, Chen diz que a sua empresa vai continuar a crescer e não coloca de lado a hipótese de comprar mais clubes em Portugal: "Temos uma grande visão. Como o projeto tem crescido de forma constante, sabemos que a situação atual não serve as nossas necessidades em definitivo." Sobre Pinhalnovense e Torreense, diz que o objetivo passa por "estabilizar os clubes" no CNS "durante os próximos anos para depois tentar a subida" à 2.ª Liga.
Carlos Dinis: «WSports Seven tem falta de profissionalismo»
Durante a reportagem de Record, a Wsports Seven registou duas baixas. Mauro Almeida, anterior vice-presidente do Oriental Dragon, apresentou a demissão "por não se rever na política de gestão da empresa". "Houve mudanças claras da época passada para esta e o projeto não era o mesmo", diz. Carlos Dinis, anterior coordenador técnico, foi mais longe: "Abandonei por falta de profissionalismo da administração chinesa."
O treinador conta que foi convidado para coordenar o planeamento das três equipas (Pinhalnovense, Torreense e Oriental Dragon), mas sentiu falta de autonomia. "Além disso, os planos de trabalho estavam sempre a ser alterados e essa não é a minha forma de trabalhar." Carlos Dinis diz que o processo instaurado pela FPF a Qi Chen, por causa de irregularidades nas inscrições de seis jogadores chineses do Oriental Dragon, também foi determinante: "Terá sido a cereja no topo do bolo, porque em toda a minha vida trabalhei com seriedade."
Chen lamenta a saída de Carlos Dinis e as suas declarações: "Fiquei surpreendido, mas tenho todo o respeito pelo senhor Carlos Dinis. O projeto irá seguir o seu caminho. Agradecemos as críticas construtivas, mas ignoramos comentários irresponsáveis."