O mestre sábio
"Domingo vais levar umas porradas, mas a isso estás tu habituado. Piores do que aquelas que o Laureta te dá nos treinos não serão com certeza"...
Começo por tentar impressionar os leitores com um momento de glória da minha carreira de futebolista. Não me levem a mal. Corria o ano de 1982 e eu tinha acabado de chegar ao Vitória de Guimarães do mestre José Maria Pedroto. Na época anterior, então a jogar pelo Sacavenense, tinha eliminado o Vitória da Taça de Portugal. Ganhámos 2-1 em Guimarães. Foi uma vitória histórica!
Era uma normal sexta-feira. Como gosto de ser rigoroso, aqui fica o dia certo: 11 de fevereiro de 1982. Como sempre acontecia nas antevésperas dos jogos, tivemos uma sessão de banhos e massagens. Naquele balneário não faltava animação. Na movimentada e quente sauna, a “banda” brasileira de Nivaldo, Jeová, Lúcio Santarém e Ivanildo exibia sempre os seus dotes musicais e passava uma alegria contagiante. Por isso... o jantar ficava para mais tarde. Era normal. Sempre entendi que o local de trabalho é a nossa segunda casa de família. Ali começa o sucesso, constrói-se o presente e sonha-se com o futuro.
Só que aquela sexta-feira não seria exatamente igual às outras. Eu era, por norma, o último a sair do balneário. Ao passar pelos portões do velhinho estádio municipal, subindo a pequena rampa para o parque de estacionamento descampado e de areia, ali estava o meu treinador, o senhor Pedroto. Ups! Antes de chegar ao carro – o meu primeiro carro, um Renault 5 castanho que tinha comprado na Cidade Berço – ouvi bem alto:
– Ó Carraça, anda cá!
Prontamente me dirigi a ele com um reverente e educado “sim senhor Pedroto”…
De uma vez só, vieram três perguntas.
– Está tudo bem contigo? Está tudo a correr bem, estás feliz aqui em Guimarães?
– Sim, está tudo bem senhor Pedroto. Eu e a minha família estamos muito felizes em Guimarães.
Ele avançou e com as certezas que sempre tinha disse-me:
– No Bessa fizeste um grande jogo tal como eu esperava. E domingo vais partir tudo!
Domingo, o jogo era com o Benfica...
– Aqueles gajos vão andar atrás de ti que nem maluquinhos. Vais levar umas porradas, mas já estás habituado. Pior do que aquelas que o Laureta te dá nos treinos não serão com certeza. Vais ter de ir para cima deles.
Ouvi e calei.
– Continua a trabalhar assim. Com humildade e total disponibilidade, ouvindo sempre o que te digo. Faz uma vida compatível com esta profissão e digo-te que vais ganhar muito dinheiro e jogar em grandes equipas. Percebes o que te estou a dizer?
– Percebo sim, senhor Pedroto. Muito obrigado pelas suas palavras. Pode contar sempre comigo!
– Eu sei que sim. Agora vai descansar e começa a pensar no que vai ter de acontecer no domingo. Fica bem.
Eu fiquei. Fiquei cerca de 15 minutos ali parado a pensar e a matutar sobre aquelas palavras proferidas por alguém que eu muito respeitava e admirava. De repente, sentia-me uma estrela. Um jogador que seria capaz de tudo, que podia aspirar a jogar em qualquer clube do Mundo. A minha confiança era ilimitada. Tinha o peito inchado e a cabeça no Olimpo.
Domingo, 13 fevereiro. Dia do jogo em Guimarães contra o Benfica. Visto a camisola 11. Resultado final: Pedroto, 1– Benfica, 0. Marquei o golo da vitória aos 52 minutos, numa recarga a um remate à barra do Jeová, num livre direto à entrada da área. E rematei com o pé esquerdo, o pé cego, enganando o grande e majestoso Bento. Na nossa baliza estava outro grande, o Vítor Damas.
A lição ficou para a vida. Os grandes treinadores (gestores e pedagogos) são aqueles que sabem transmitir e trabalhar os princípios de jogo e, ao mesmo tempo fazem com que os jogadores, por eles treinadores, “morram em campo”… Pedroto era único.
Perdoem-me, então, este impulso de imodéstia, mas mais do que o orgulho pessoal esta crónica é uma singela homenagem a um sábio e mestre do nosso futebol.