Paulo Bento: «Jesus tinha toda a legitimidade para escolher o seu caminho»
A conversa é sobre tudo, mas com boa comida e melhor regada. Percebe-se assim a escolha de Bento: Os Courenses. Mas também porque a frontalidade um atributo que todos lhe reconhecem. Não foge a questã
Ao chegar com Paulo Bento aos Courenses, o restaurante escolhido pelo nosso convidado, percebe-se que o treinador está a jogar em casa. Defeito profissional ou algo que lhe ficou de quando controlava as operações a meio-campo, a verdade é que Bento conhece quase toda a gente por aqui. "Olá Paulo, estás bom?" é a questão mais lançada desta e daquela mesa, numa sala já cheia de comensais e ainda com espaço para nós porque a mesa foi reservada com antecedência. "É sempre assim, come-se muito bem, por isso está sempre cheio", explica o ex-selecionador nacional.
A conversa é momentaneamente travada pelas fotografias. Nitidamente algo que deixa o técnico menos à vontade. A amizade com clientes e a equipa dos Courenses leva a que surjam muitas piadas. Sorte a minha, pois a certa altura percebo que Bento já está como se percorresse a via sacra. Ele são fotos no corredor, ao balcão, a comer, a beber e ainda na cozinha. "Que calor infernal", reage, dando mais tarde os parabéns a Manuel Braga, cozinheiro e sócio, outro velho conhecido com quem troca alguns piropos.
A escolha é fácil. Bento gosta de fazer "vaquinhas" e depressa concordamos em dividir sardinhas assadas e aba de vitela assada no forno. A conversa está para começar a sério, mas logo é novamente travada por um pedido de autógrafo. Acontece muito. O treinador acede com um sorriso. Dizem-nos que é sempre assim. Nunca nega a lembrança e vezes houve em que ficou com a mão a doer, tantos os miúdos a quem dedicava a assinatura. "Ossos do ofício, nada mais natural", diz mais tarde.
Porquê almoçar aqui?A pergunta que se impõe a quem se gaba de ser bom garfo, apreciando os prazeres da mesa e também bons vinhos. "É um restaurante de muita qualidade, com ambiente familiar, desenvolvi já uma relação de amizade com os donos e tem uma das melhores relações preço/qualidade que conheço em Lisboa." A frequência com que o visita não deixa dúvidas – "é onde mais venho almoçar".
É fácil perceber que há mais para além da amizade que mantém com Zé e Manuel Braga, os homens que comandam os Courenses, a ajudar que seja visto ali tantas vezes. Afinal, Alvalade é um bairro que diz muito ao homem que até já treinou o Sporting. "Sabe-me sempre bem passar por aqui. É bom voltar ao passado. Não sou homem de esquecer as raízes. Relembro as coisas boas que aqui vivi. Ainda foi muito tempo, dos 6 aos 22 anos", diz sem esconder alguma nostalgia. E se não tivesse sido este o local escolhido? "Solar dos Presuntos ou Mar do Inferno. O primeiro é um dos mais conceituados do país e um restaurante de classe. O segundo junta à muita qualidade dos produtos o local aprazível, que faz dele um sítio ótimo a visitar no verão".
Chegam as sardinhas. Frescas, deliciosas, grelhadas no ponto, com os lombinhos a separaram-se facilmente como manda a lei. Mandamos a batata embora, que a seguir ainda vem a aba de vitela, mas fica a salada, também ela de parar o trânsito. Bento não dispensa o peixinho em cima do pão. Manobra o bicho como um expert e os pinguinhos que caem na broa mais tarde serão devidamente apreciados.
Orgulho e tristeza
Afastado dos bancos e com mais tempo para a família, faz parte dos portugueses que viram os filhos emigrar. "Felizmente não por razões de necessidade", apressa-se a dizer. Mas confessa enorme mistura de sentimentos. "Um grande orgulho e satisfação por irem à procura do seu caminho, mas não deixa de ser triste vê-las partir." Sofia estuda nos Estados Unidos e Marta em Inglaterra. "Somos pais orgulhosos por terem conseguido este percurso académico, mas não posso esconder que custa ver os quartos vazios. Sou mais feliz quando vou lá vê-las ou vêm cá de férias", assume. Mas fica o remoque quase político. "Portugueses há que tiveram de o fazer por necessidade ou porque os obrigaram a isso. Não me posso queixar."
As sardinhas já foram e é tempo de degustar a aba de vitela assada. A meias, porque a refeição já vai longa. Afinal, antes do peixinho já dois queijinhos muito frescos e um paio de chorar por mais tinham servido de entrada. A carne não desilude. Saborosa e tenra, batatas assadas no ponto e um arrozinho e verduras a ajudar. Maravilha. Aconselho o molhinho em cima da vitela e do arroz. É de chorar por mais.
A liberdade de Jesus
Tempo de voltar ao futebol. A questão do momento ainda é Jorge Jesus. Paulo Bento faria o mesmo que o homem que trocou o Benfica pelo Sporting? Não se engasga. "Não gosto e não se deve comparar o que fazem uns e outros. Nunca passei por uma situação dessas. Mas acho que Jorge Jesus tinha toda a legitimidade para escolher o seu caminho. Estava livre e acreditou que o Sporting era a melhor opção para a sua vida profissional." Bento entende os adeptos e as mágoas, mas reforça que JJ escolheu, seguiu em frente " e ninguém pode levar a mal um profissional por seguir a sua vida".
Um momento para saborear o excelente Morgadio da Calçada, tinto do Douro, escolhido pelo nosso anfitrião e logo a questão sobre Rui Vitória, o eleito por Luís Filipe Vieira para suceder a Jesus. "É um treinador com uma carreira sustentada e que tem a perfeita consciência do que vai encontrar, do que lhe será pedido e do que se espera dele e da estrutura do Benfica." No entender de Bento, que pára para responder a mais pedidos de autógrafos de alguns clientes que passam, o facto de ter trabalhado em Guimarães é um trunfo para o treinador que está agora na Luz. "Vitória trabalhou no único clube português que, com exceção dos grandes, tem uma enorme pressão da massa adepta e em que a exigência é brutal. E aí fez um trabalho muito bom. Foram 4 anos sustentados, com resultados e com grandes dificuldades económicas."
A vida de um treinador é sempre feita de altos e baixos. Bento sabe como é. Lopetegui, o único dos três grandes que se aguentou ao leme, foi precisamente o que não ganhou nada. Enquanto pensamos se pedimos sobremesa ou ficamos assim para não rebentarmos, fica a visão do que passou no Dragão. "Avaliaram o trabalho de Lopetegui para além dos resultados. Provavelmente, neste segundo ano, em que estão a construir mais uma equipa muito forte, acreditam que têm mais possibilidades de ganhar." E deixa a confissão: "Acredito nisso. Hoje o treinador espanhol estará muito mais preparado para vencer no campeonato português do que quando chegou." A previsão de que vai ser um ano tremendo não é difícil de fazer. Bento espera-o e justifica também assim a manutenção de Lopetegui. "Ganhará só um. Haja o investimento que houver. E nós não podemos analisar só os resultados alcançados. Se acreditamos no trabalho que produzimos, aceitamos que as vitórias poderão chegar. Penso que foi o que o FC Porto fez com Lopetegui. Concorde-se ou não, é uma opção que faz sentido. Pode ganhar-se de muitas maneiras", reforça.
O Sporting é ainda um clube que diz muito a Paulo Bento. São várias as pessoas que o interpelam e ainda hoje o ligam mais ao emblema de Alvalade do que à Seleção. A preocupação dos rivais com o que o Sporting está a gastar é algo com que Bento não perde muito tempo. Fala apenas do tempo que viveu em Alvalade. "Não estou dentro da estrutura, por isso não sei se estão ou não a gastar acima das possibilidades. Sei sim, que treinei o Sporting durante 4 anos e aí a grande preocupação era não gastar acima das possibilidades", diz em jeito de comparação aos tempos que correm no futebol nacional.
Em relação a gastos, Bento não diferencia os três grandes. Nem os seus adeptos. Mas há coisas que lhe fazem alguma confusão. "Dizemos que pagamos demasiados impostos, faltam-nos verbas para sectores como a saúde ou a educação, mas depois não há nenhum adepto que se preocupe com as dívidas dos três grandes. Clubes e país são vistos de maneiras totalmente diferentes. Não me parece normal", diz em tom desiludido.
A Seleção e um quindim de coco
A saída da Seleção é um tema digerido por Bento. Talvez por isso, decidimos que ainda há espaço para um Quindim de coco, enquanto se acaba o vinho. "Sinto pela Seleção o mesmo que todos os outros portugueses. O desejo de vitória quando participamos em grandes competições. E a Seleção está sempre acima das pessoas que lá estejam", diz. Enigmático? Mensagem para alguém? "Pelo contrário. Espero que Fernando Santos tenha muita sorte, como todos os outros". Nomes à parte, fica uma certeza: "A Seleção merece o compromisso de todos e sempre a 100 por cento." É assim que Bento entende a vida na equipa nacional.
As férias têm hoje um significado diferente, "enquanto se espera por um projeto que mereça ser abraçado", mas estas foram diferentes, muito pela aventura do amigo Rui Jorge, à beira da glória nos sub-21. "Não há como negá-lo. Juntou-se à enorme amizade a possibilidade do País ganhar um troféu europeu. Nunca aconteceu e só isso era um facto que nos deixava satisfeitos." Chega o Quindim. Delicioso, cremoso, muito doce. Boa ideia novamente a divisão. Mas não apaga o amargo de boca com Rui Jorge. "Sim, sofri mais. Acontece sempre em situações em que grandes amigos estão envolvidos. Tinha sido bom por ele, Portugal e por um excelente grupo de jogadores. Mas deram tudo e deixaram excelente imagem", assume.
Cafés, conta e até breve
"Saem dois cafezinhos para o Paulo." Já não sei se é Marco, Ângelo ou Luís que pedem ao balcão. Um deles, de certeza. São a equipa que serve na parte de cima, onde Bento almoça quase sempre. A acompanhar o café, nunca vem nem whisky ou sequer um cheirinho. O técnico dispensa. Então e se alguém quiser vir aos Courenses, o que recomenda? "O cozido à portuguesa é famoso e muito bom. Mas é preciso estar preparado. Depois, o arroz de lagosta, mas não está muitas vezes na lista. A não perder, quando na época, o arroz de lampreia. Dos melhores em Lisboa."
A refeição chega ao fim. Pedimos a conta. Querem oferecer. Não. Quem paga é o Record. Está aí a conta. Foi um prazer, Paulo. Até um dia destes.