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António Sala: «Tenho pena de não ter sido comentador»

António Sala: «Tenho pena de não ter sido comentador»
• Foto: PEDRO FERREIRA

Comunicador nato, homem da rádio, televisão, palco e música, o carismático benfiquista recebeu Record numa das suas mais queridas casas, a Renascença, e abriu o coração. Houve espaço para de tudo um pouco, fazendo jus às inúmeras faculdades da carreira de quase 50 anos.

RECORD – Estamos a poucas horas do Benfica-FC Porto. É o jogo do título?

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ANTÓNIO SALA – Acho que não. Então se houver empate, não é de todo. Quem vencer pode ter um novo aditivo anímico, mas não me parece que seja uma passadeira, que eu gostava que fosse vermelha, para o título. Esta Liga vai ser muito renhida e complicada até ao fim.

R – No domingo vai ao estádio, ou prefere o aconchego do lar, com a família?

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AS – Desta vez vou preferir o lar e a minha poltrona, essa velha amiga, para viver a emoção do encontro.

R – No início da época estava um pouco cético quanto à existência de substitutos para Witsel e Javi García.Ainda pensa isso?

AS – Em relação ao primeiro, acho que ainda não se encontrou o dito substituto. Agora, quanto aoJavi, o Benfica quase que beneficia... Isto até parece horrível de ser dito. Mas, de facto, há coisas no Matic que são melhores.Jorge Jesus já o sabia. O Matic entrega melhor a bola e tem um passe muito certo. Aí, o Benfica ganhou. Defensivamente, o Javi era um matador – às vezes os rivais até aproveitavam esse termo para o criticar (risos) – e ao Matic falta melhorar essa vertente.

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R – Falava sobre Jesus.Aprecia o trabalho dele?

AS – Sempre o defendi. Ele sabe muito e está constantemente a aprender. Encontra-se mais maduro agora.Ele beneficiou imenso de ter treinado equipas pequenas, obrigadas a mudar o esquema quando enfrentavam as grandes. Muitas vezes, o adepto de bancada acusava-o de inventar, especialmente contra oFC Porto. Mas julgo que este Benfica vai ser semelhante ao dos outros jogos, claro que com outras cautelas, mas a equipa não deverá nem tem de mudar.

R – Sendo um pró-JJ...

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AS – Perdão, sou um fã!

R – Muito bem, reformulo: sendo um fã de JJ, acha que, mesmo falhando o título novamente, deve continuar à frente do Benfica?

AS – Acho sim. Aliás, eu gostava que, à semelhança do que acontece em outras Ligas, os treinadores assentassem arraiais e ficassem por muito tempo.Por exemplo, oSporting vai no 4.º treinador da época. Às vezes é preferível ter o mesmo treinador durante 4, 5, 6 anos, desde que dê provas. Julgo que só se acontecesse uma catástrofe e se visse que a equipa técnica tinha falhado redondamente na gestão da equipa, se poderia pôr essa questão em cima da mesa. De outra forma não, Jesus deve continuar.

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R – Não há entrevista em que não fale na sua doença benfiquista.Ainda está viva ou já esmoreceu?

AS – Sabe, acima de tudo gosto muito de futebol. Lembro-me de o Artur Jorge ter dito aqui há uns anos que o futebol merecia ser visto sem som na televisão e com música clássica a passar em fundo. Primeiro tenho uma paixão pelo futebol e depois há uma coisa exacerbada por um clube. Nunca se sabe bem como é que estas coisas nascem.Pode mudar-se de tudo: de religião, de mulher, de nacionalidade – que o diga o Depardieu –, mas de clube não. Tenho pena de não ter sido comentador desportivo. Até julgo ter a frieza e a calma para ser um analista de um futebol no seu estado mais puro.Mas nunca seria aceite, dada a minha conhecida ligação ao Benfica. Consigo sentar-me sem qualquer preferência e de uma forma desapaixonada perceber e dizer o que se passou em campo.

R – Fala muito do Benfica de Eusébio. Qual o jogador que mais o impressionou desde essa altura?

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AS – Seria muito injusto dizer um, porque não houve outro tão trasbordante, mas sim muitos bons jogadores. Um não lhe consigo dar, mas quatro ou cinco, sim. Em primeiro lugar Chalana, que achei genial.Depois um muitas vezes injustiçado, porque não sujava os calções, mas foi dos melhores que passaram peloBenfica: Nené. Rui Costa, Aimar – e aqui queria sublinhar que há muito tempo que não aparecia alguém com tanta classe e com aquele perfume de futebol no clube. Não é tanto pela produção, mas acho que oBenfica se deve orgulhar de ter nos seus quadros um dos melhores jogadores do Mundo das últimas décadas. E depois há outro, que me revolta muitas vezes, mas os números são claros e acho que oCardozo, quando deixar de jogar ou sair do Benfica, vai deixar muitas saudades.

R – Quais as principais diferenças do Benfica dos tempos de Eusébio e o de agora?

AS – A mística não se perdeu, mas foi algo danificada. Não defendo a teoria de só se jogar com futebolistas portugueses, embora os títulos principais tenha sido conseguidos apenas com atletas nacionais. O Mundo mudou e agora isso é impossível. Mesmo assim, deviam ser criadas regras mínimas. Sou adepto de que as equipas deviam ter o máximo de quatro jogadores estrangeiros em campo e oito contratados.

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R – Disse que só cortaria o bigode quando oBenfica fosse campeão europeu.Fartou-se de esperar?

AS – Nada disso. Tinha de fazer uma imitação do José Cid para o programa “A tua cara não me é estranha”, da TVI, do qual sou júri. Ora, o Cid nunca usou bigode, daí que tive de o cortar. Depois pediram-me para o manter cortado até ao final do programa.Pensei em deixá-lo crescer, mas houve senhoras que me disseram que ficava mais novo desta forma. Na minha idade, sabe bem ouvir essas coisas, de maneira que assim ficou.

«Estive na Luz num mau período»

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R – Lamenta ter estado ligado à administração de Vale e Azevedo?

AS – Claro que tenho pena de ter estado na Luz num mau período, talvez o pior da história do Benfica. Mas as pessoas têm memória curta e eu estive em direções, como a de JoãoSantos ou FernandoMartins, que fizeram coisas muito boas. Mas é como tudo. Um miúdo ajuda uma velhinha a atravessar a estrada 20 vezes e não é notícia. Se a empurra uma vez...

R – Voltaria ao dirigismo?

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AS – Isso não. Gosto é do futebol. Fui dirigente numa altura de voluntarismo. Se surgia um indivíduo que fosse sério, que zelasse pelos seus interesses e também os do clube, muito bem.Mas se nos calhava alguém com poucas ideias de vir a ser sério, isso tornava tudo muito mais complicado.

«Mourinho não faria melhor no Sporting»

R – Jesualdo é a solução para o Sporting?

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AS – Gosto pouco de falar dos outros clubes. Mas olhando como cidadão comum, infelizmente para o futebol português, o Sporting está como está e nada tem a ver com jogadores ou treinadores.Mourinho não faria melhor neste Sporting. O problema do clube é estrutural e de dirigentes. A instabilidade tem-se feito sentir, com mudanças constantes e avanços e recuos nos projetos.

R – Pode acontecer aos leões o mesmo que ao River ou aoAt. Madrid?

AS – São situações diferentes. O campeonato argentino é peculiar, mas noAtlético aconteceu. Porém, acho que não irá passar-se algo desse género.O Sporting é demasiado grande para isso.

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