Até os piores inimigos de Pinto da Costa admitem que o presidente que no próximo dia 23 de abril cumpre o seu 31.º aniversário desde que tomou posse é o pai de muitas vitórias do FC Porto neste período. O que muitos não sabem é que há outro pai atrás dos primeiros sucessos do FC Porto da Era PC – o Pai João.
Delane Vieira começou a trabalhar no FC Porto na época de 1984/85, ou seja, na terceira época completa de Pinto da Costa na liderança dos azuis e brancos. Denominava-se parapsicólogo com uma linha de culto bem definida: seguidor de Umbanda. Os seus trabalhos escoravam-se, como escreveu em livro editado em 2009, no Pai João de Camargo, também conhecido por “Preto Velho”, uma das maiores entidades espirituais do Umbanda, corrente oriunda da Bahia que consiste na consulta do espírito dos mortos, na cura dos espíritos e em influenciar os vivos. “Eu no futebol não trabalho para destruir o adversário mas para vencer”, sempre disse Delane, que em Portugal começou por trabalhar no Benfica de Otto Glória, no final dos anos 60, passando depois pelo União de Coimbra, onde diz ter contribuído para a histórica subida à 1.ª Divisão deste clube. Antes de ingressar no FC Porto ainda trabalharia no Benfica de Jimmy Hagan.
Artur Jorge encontrou-o uma vez em Lisboa e pediu-lhe ajuda para ser campeão no FC Porto. “Eu e o presidente Pinto da Costa ficamos grandes amigos, eu era o seu guru”, conta Delane. “Pedia-me ajuda para tudo, até para assuntos pessoais”, acrescenta. A sua relação com os jogadores depressa se estreitou. “Dizia-lhes os resultados antes dos jogos”, revela o parapsicólogo.
O FC Porto pagou-lhe casa em Miramar, salário e prémios. “Se o FC Porto for campeão europeu, até lhe dou um palácio”, prometeu Pinto da Costa. Delane começou pelas fitinhas que foi dando aos jogadores, especialmente as de São Judas Tadeu e as de São Bento. As fitinhas eram preparadas antecipadamente numa infusão de plantas. Delane preparava também uma moeda enrolada em papel de prata, que era atirada para o campo antes dos jogos. Pinto da Costa, por indicação do Pai João, chegou a ser o portador dessa moeda em muitos jogos. Orixalá, Ogum, Oxossi, Xangô, Yori, Yorimá e Iemanjá alinhavam pelo FC Porto. Entre os rituais de preparação dos jogos, um deles implicava rebentar garrafas de cachaça contra as rochas e lançar um barquinho ao mar. Pinto da Costa encarregava Octávio Machado de ajudar Delane nesses trabalhos. Um certo dia, no Algarve, o ritual não correu bem: as garrafas atiradas contra as rochas não partiam. Delane teve de voltar ao hotel para desfazer o problema.
A amizade com Pinto da Costa consolidou-se e o presidente passava muitas noites em casa de Delane. O parapsicólogo que nunca gostou de ser tratado por bruxo começou também a participar na negociação de jogadores, como aconteceu em relação a Geraldão.
Na época de 1986/87, o FC Porto não foi campeão nacional. Mas foi campeão europeu. O campeonato perdeu-se porque, segundo Delane, o Pai João estava muito ocupado. Chega então a final de Viena. A equipa viajou 12 dias antes e Delane integrou a comitiva. Jornalistas portugueses garantem que o viram a enterrar sapos no Estádio do Prater – Delane nega. Poucas horas antes do jogo, Delane garante a vitória do FC Porto mas omite os nomes dos marcadores dos golos, embora soubesse que seriam Madjer e Juary. Ao intervalo, o FC Porto perdia e o parapsicólogo foi insultado nos camarotes.
No mesmo ano, em Tóquio, na final da Taça Intercontinental, Delane informa, na véspera do jogo, os responsáveis portistas: no dia seguinte viver-se-ia uma situação meteorológica anormal. Ainda está por saber se percebeu o que se dizia no boletim meteorológico da TV japonesa ou se foi apenas mais uma dica de Pai João. A verdade é que no dia seguinte Tóquio acordou sob um nevão. Pinto da Costa consultou-o, informou-o que o jogo podia ser adiado, mas Delane forçou a realização da final com o Peñarol nesse dia.
Fica para o fim a minha história com Delane. Era ainda um jovem repórter que cobria a atualidade do FC Porto. Um dia, tive a informação de que o FC Porto estava a ser ajudado por um parapsicólogo. O meu colega Paulo Montes ajudou-me a confirmar a história e esta foi publicada. No dia seguinte, o diretor do jornal chamou-nos pois o FC Porto exigia um desmentido. Não concordei mas o desmentido saiu e estive a um passo de ser despedido. Alguns anos depois, conheci pessoalmente Delane, visitei o seu santuário, confirmei a nossa história e fui almoçar com ele. A determinado momento, o dono do restaurante abeirou-se da nossa mesa para agradecer a Delane mais uma vez. Quis saber porquê. “Olhe, meu amigo, tinha sempre o restaurante às moscas, desde que o senhor Delane o passou a frequentar que não tenho mãos a medir”, informou-me o proprietário.
Os poderes do Pai João, afinal, não se resumem na influência de resultados.