Paulo Futre: «Devia ter ganho a Bola de Ouro´87»

Paulo Futre: «Devia ter ganho a Bola de Ouro´87»
• Foto: Miguel Barreira

Foi um terramoto no futebol português e europeu. O seu génio, feito de talento, explosão, magia e respeito pelo espetáculo, marcou o tempo em que viveu, de tal forma que invadiu o patamar restrito dos melhores jogadores da história. Estar no onze do século é o "troféu máximo" da carreira...

1 – O filme rebobinado

PUB

RECORD – Que emoções lhe provocou estar no onze do século?

PAULO FUTRE – Foi um cocktail explosivo, a começar pelo choque de ouvir o meu nome sem estar à espera. Fiquei surpreendido e feliz. Passados uns minutos, rebobinamos a fita atrás e viajamos muito depressa ao início de tudo. É incrível. Já tinha sido escolhido para o onze da primeira metade do século e isso já me tinha deixado satisfeito. Mas quando percebi que estava no melhor onze de sempre, reagi como a ocasião justificava: percebi que estava entre os melhores de todos os tempos do meu país. Em termos individuais não se pode aspirar a mais. É o troféu máximo. Deixei de jogar há alguns anos e esta distinção recuperou a ideia de que valeu a pena.

2 – O melhor dos meninos da rua

PUB

R – Como recorda os primeiros tempos da carreira até chegar à primeira equipa do Sporting?

PF – Foram tempos felizes. É fatal recuperar a memória de miúdo nas ruas do Montijo. Foi lá que verifiquei, pela primeira vez, que era muito superior aos meus parceiros de peladas e podia ser alguém no futebol. Chegava a jogar com um guarda-redes contra eles todos, que eram dez ou vinte – e os resultados eram equilibrados... Apesar de ter essa noção, que me era dada por terceiros, sempre tive os pés bem assentes no chão. Isso nunca me desviou da rota que tracei, mesmo depois de ter tomado a decisão complicada de abandonar os estudos porque, sendo profissional aos 15/16 anos, percebi que era impossível conciliar as duas coisas. Depois tinha o meu pai e o meu irmão sempre em cima, dando-me conselhos para me manter naquela estrada. Cedo concluí que, se não tivesse uma lesão grave, poderia viver do futebol.

3 – Toshack e… Pinto da Costa

PUB

R – Como foram os primeiros anos no Sporting?

PF – Foram sete anos cumprindo etapas sempre à frente da minha idade, com passagem por todas as Seleções das camadas jovens, isto até chegar à equipa principal e, um ano depois, ser obrigado a tomar a decisão mais difícil da minha vida mas talvez a mais acertada: abandonar o Sporting e trocá-lo pelo FC Porto. Tinha 18 anos e senti a pressão como se tivesse 30. John Toshack quis emprestar-me à Académica. Com todo o respeito, achava que tinha talento para mais e não compreendi a opção. Passados uns anos, era eu capitão do Atlético Madrid e ele treinador do Real, perguntei-lhe: "Mister, Académica? Como foi possível?" E ele respondeu: "Paulo, não te conhecia." Treinou-me uma semana, sempre no meio de grande mediatismo à minha volta, e não me conhecia? Sei que o Sporting tinha uma grande equipa, com três monstros do futebol como eram Oliveira, Jordão e Manuel Fernandes; mas uma época é longa e há sempre lugar para mais um.

4 – Seguro no FC Porto

PUB

R – Estava à espera de ser tão fácil e de ter atingido expressão tão elevada no FC Porto?

PF – Os três anos nas Antas foram mais do que geniais, em todos os aspectos. Sabia que não podia falhar, também por ser uma aposta pessoal do presidente Pinto da Costa, que sempre me pôs na linha – quando me desviava do caminho que tinha de seguir, estava lá sempre ele ou o Octávio a chamarem-me a atenção. A primeira época no FC Porto veio no seguimento de um ano um pouco anárquico no Sporting, no qual cheguei a alinhar pelos seniores e pelos juniores no mesmo fim de semana. Para medir a extensão do desfasamento, recordo que aos 15 anos era subcapitão dos juniores. No FC Porto estabilizei em termos competitivos e robusteci sem perder velocidade e explosão.

5 – A vergonha do pai

PUB

R – Como enquadra o Mundial’86 na carreira?

PF – É uma dor imensa da dor maior que é nada ter ganho pela Seleção – em 1985/86 estava numa forma incrível, fui o melhor jogador do campeonato e quando joguei com Marrocos, ao fim de quase dois meses de estágio, mal podia andar. Saltillo foi a página mais negra do futebol português e foi oportunidade única para mim e para aquela geração. Impossível ultrapassar tão depressa. Mas o pior de tudo foi, quando regressei a casa, perceber que o meu pai estava com vergonha de mim. Olhou-me com ar de recriminação e eu senti-o imediatamente. De resto, chegámos a Portugal às 6 da manhã; se tivéssemos chegado às 6 da tarde, ainda estávamos no aeroporto para sair de lá.

6 – Um génio chamado Madjer

PUB

R – Um ano depois da viagem ao inferno de Saltillo, viajou ao céu de Viena. Como viveu a caminhada até à conquista da Taça dos Campeões?

PF – O futebol tem destas coisas: um ano depois da vergonha e da humilhação aconteceu o oposto. Foi uma loucura, também por ter sido uma alegria inesperada, mesmo sabendo que éramos uma equipa sem limites. Em 1986/87 não perdoámos. Ganhámos confiança e quando atingimos as meias-finais já estávamos convencidos de que era possível. Ninguém queria o Dínamo Kiev, equipa que metia medo, com dez titulares da então União Soviética – só faltava o guarda-redes Dassaev; mas não trememos. Ganhámos por 2-1, cá e lá. Em Viena foi o mesmo: o Bayern era favorito mas nós tínhamos uma grande equipa – aquele meio-campo era um espetáculo de raça, mística e técnica. E por nós atuava o futebolista mais completo com quem alguma vez joguei: Rabah Madjer. Um génio.

7 – a Bola de Ouro perdida

PUB

R – Em 1987 perdeu a Bola de Ouro. Acredita que foi injusto?

PF – Sinceramente, acho que devia ter ganho a Bola de Ouro nesse ano. Transferi-me para o Atlético Madrid a meio do ano mas continuei lá em cima, como ficou provado quando fomos ganhar por 4-0 ao Bernabéu. O Gullit, que acabou por vencer, tinha feito uma boa metade no PSV e outra, melhor ainda, no Milan. Mas eu fui campeão europeu! Quando fui para o Atlético tinha o Real Madrid, o Barcelona, a Juventus e o Inter Milão interessados. O meu raciocínio estava condicionado pela limitação de estrangeiros por equipa. Nem todos me serviam. Só o Inter me tranquilizou, dizendo-me que eu e o Enzo Scifo estávamos certos. No dia seguinte apareceu um candidato à presidência do Atlético Madrid, Jesus Gil y Gil, com uma proposta fabulosa, que dobrava a dos outros. Comecei aí uma relação com um clube na história do qual tenho lugar garantido. Passei ali momentos únicos, com a espinha atravessada de não ter sido campeão.

8 – À espera de Sousa Cintra

PUB

R – Como se processou o regresso a Portugal, em 1993, que acabou por levá-lo ao Benfica?

PF – Tinha tudo acordado com o Sporting. Estava em Portugal, falei com Jesus Gil e ficou estabelecido que iríamos a Marbella para assinar os papéis e acertar as contas. Falei com Sousa Cintra e disse-lhe: "Presidente, amanhã, 9 da manhã no aeroporto." Nunca mais o vi mas quando isso acontecer vou dizer-lhe que estou há 22 anos à espera. Porque fiquei pendurado, na tarde desse dia pedi ao meu advogado, João Gaspar, para entrar em contacto com o Benfica, que também manifestara interesse na contratação. Nessa noite fechámos o acordo. Depois disso, o Sousa Cintra quis transformar-me a vida num inferno. Recorreu a todas as estratégias, até a questão da tropa. No final da época, fui para Marselha.

9 – Quando o joelho cedeu

PUB

R – Viveu, a seguir, emoções muito fortes: Seleção fora do Mundial’94, operação ao joelho direito, contrato com o AC Milan. Que espaço ocupa essa fase na sua memória?

PF – Foi tudo muito intenso. Quando defrontámos a Estónia e a Itália, em poucos dias, já sofria de uma tendinite crónica no joelho direito. Nessa altura, porque não suportava tanta dor, pedi para ser infiltrado com cortisona. Depois do jogo em S. Siro, que nos afastou do Mundial, segui logo para Reggio Emilia, para jogar na Reggiana. Quando lá cheguei, o efeito das infiltrações tinha passado e estava com dores horríveis. Ainda fiz uns tratamentos naqueles dias mas a coisa estava pior do que eu pensava: fui tocado por um adversário e rebentei o joelho, minutos depois de ter marcado um golo. O médico disse-me que, em dois meses, voltaria a jogar. Não foi assim. Quando recuperei, surgiu o Milan a propor que fizesse uma digressão pela Ásia. As coisas correram-me bem: fui quase sempre considerado o melhor jogador em campo. Antes de cada jogo tomava Voltarene, deixava de ter dores e era o fim do Mundo. O presidente Berlusconi viu os jogos pela televisão e contratou-me. Assinei mas, quatro ou cinco semanas depois, tive uma recaída. Só depois me curei, pela intervenção do professor Saillant, o único que aceitou operar-me.

10 – Faltou Seleção

PUB

R – Não acha que os seus números na Seleção são pobres?

PF – Não são muitos jogos, de facto, e a primeira explicação que encontro para isso é a ausência de dois anos dos jogadores que estiveram em Saltillo. Há um vazio entre esse período e a chegada da Geração de Ouro. Ainda joguei com alguns deles, na primeira metade da década de 90, mas houve ali um período de quatro anos de alguma confusão. Em 1993, tinha eu 27 anos, estive com eles no apuramento para o Mundial dos Estados Unidos mas, depois da minha lesão ao serviço da Reggiana, as minhas hipóteses de regressar à Seleção ficaram muito reduzidas. Foi uma pena, até porque entre os craques maiores nenhum era esquerdino. Os melhores foram o Dani, o Porfírio, o Dominguez, o Agostinho, mas nunca se impuseram na Seleção.

11 – Atlético fora de horas

PUB

R – Como avalia a reta final como futebolista?

PF – Com mais ou menos dificuldade, regressei aos relvados, fui campeão pelo Milan e fui para Inglaterra. No West Ham as coisas começaram bem mas, em dezembro, voltei a sentir problemas e despedi-me. Comecei então a trabalhar como embaixador do Atlético. Em abril, já de fato e gravata, fui ao estádio ver um treino de conjunto e sentei-me no banco dos suplentes. O treinador, Radomir Antic, veio ter comigo e disse-me: "Paulo, faz-me um favor muito grande: deram a hora errada aos miúdos que vinham treinar connosco e, para não dar barraca, precisamos de fazer onze contra onze entre os elementos do plantel." Quando aquilo começou a rodar, parti tudo e fiz dois golos à equipa titular em 20 minutos. No dia seguinte, as primeiras páginas dos jornais coincidiam: "O espetáculo voltou ao Calderón." Aceitei regressar, integrei o plantel da época seguinte mas joguei menos do que esperava. Se me arrependi? De forma alguma: o que vivi naquele período foi incrível, até porque tinha consciência de que já não estava à altura dos grandes craques. Foi uma grande experiência.

O POSITIVO

PUB

Três palcos para a glória

«Relaciono os melhores momentos da carreira com as grandes conquistas. Nessa perspetiva, recordo a final da Taça dos Campeões, em Viena, como a primeira grande conquista, seguida pela vitória na Taça do Rei, no Bernabéu, frente ao Real Madrid. Mas não esquecerei o jogo mais completo da carreira, na final da Taça de Portugal, pelo Benfica, frente ao Boavista. Na véspera, sonhas com o que vai acontecer no dia seguinte; naquela tarde a grande verdade é que tudo saiu ainda melhor do que tinha idealizado: dois golos, duas assistências, uma falta para penálti e vitória por 5-2.»

O NEGATIVO

PUB

Era uma vez aos 27 anos

«O momento mais duro foi a lesão na estreia pela Reggiana e que acabou por condicionar-me o resto da carreira. Tinha 27 anos. De qualquer modo, o momento proporcionou-me uma experiência pessoal incrível. Cheguei a Reggio Emilia numa quarta-feira à noite, joguei no domingo, marquei um golo e fui operado na segunda-feira. Se não me tivesse convencido a sério de que iria voltar a jogar teria desistido.»

Deixe o seu comentário
PUB
PUB
PUB
PUB
Ultimas de Especial Notícias
Notícias Mais Vistas
PUB