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Ronaldo: «Tento ser o melhor em tudo o que faço»

Ronaldo: «Tento ser o melhor em tudo o que faço»
• Foto: epa

Era uma vez um menino de 11 anos que atravessou o Atlântico com o sonho de triunfar na vida. Longe da família, verteu muitas lágrimas quando telefonava para casa e falava com a mãe e as irmãs. Aos 30 anos é um dos melhores jogadores da história do futebol e o português com mais títulos individuais relevantes conquistados – três Bolas de Ouro e quatro Botas de Ouro. Orientado por espírito indomável, continua a querer mais e mais...

1 - Voar ainda mais alto

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R – Alguma vez pensou atingir o patamar de uma das estrelas mais brilhantes da história do futebol?

CR – Cresci com o pensamento de que poderia ser alguém no futebol e por isso não tive sucesso nos estudos. Sabia que tinha talento e sempre fui bem acompanhado nos clubes que representei, incluindo o Andorinha e o Nacional, como é óbvio. Mas nunca imaginava, nessa altura, pisar os palcos mais prestigiados do Mundo. Acreditava que podia ser profissional talvez num grande clube português mas, num estalar de dedos, tudo mudou. Saí da Madeira aos 11 anos e chorava todos os dias ao telefone com a minha mãe e as minhas irmãs. Recordo os tempos em que vivi no lar do Sporting e também na pensão D. José, no Marquês do Pombal, onde passei dois anos, porque já me treinava com a equipa profissional e precisava de alguma privacidade. E também porque estudava à noite em Entrecampos. Também por isso, dou muito valor ao que tenho. Aliás, desde muito cedo que faço investimentos, orientado pela certeza de que ser futebolista não dura toda a vida.

2 - Aquela época no Sporting

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R – Que balanço faz da única época efetuada com o leão ao peito, em 2002/03?

CR – Quando vim para o Sporting era uma criança e, antes mesmo de pensar na saída para o estrangeiro, a minha maior ambição era ajudar o clube a ser campeão. Cheguei mesmo a dizer que se não contribuísse para essa alegria dos adeptos partiria com um gostinho amargo. Estava no Torneio de Toulon (junho de 2003) e já sentia à minha volta o ruído do interesse nos meus serviços. Mas não tinha pressa de sair, embora alimentasse o sonho de jogar em Espanha e em Inglaterra. Fizera uma temporada razoável a nível pessoal, sempre com grande visibilidade mediática, embora esperasse jogar mais. Adaptei-me bem às exigências da Liga mas, em termos coletivos, o resultado ficou muito aquém das expectativas. Gostei muito de trabalhar com Laszlo Bölöni, que me lançou. Se não fosse ele talvez não tivesse atingido a equipa principal do Sporting.

3 - A inauguração do novo estádio

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R – Como se processou a sua saída para Manchester? O jogo da inauguração do novo Estádio de Alvalade teve mesmo influência?

CR – Eu sabia que estava a ser observado e que alguns elementos do Man. United, inclusivamente, já me tinham visto. Mas nunca duvidei que a minha exibição nessa noite desempenhou papel determinante na contratação. Falei com Alex Ferguson sobre o assunto e ele disse-me que, ainda em Alvalade, alguns jogadores aconselharam logo a minha contratação. O Roy Keane até lhe disse para não me deixar sair do estádio enquanto não assinasse pelo Man. United. Isso deixou-me logo muito orgulhoso e confiante. De resto, Ferguson foi extraordinário comigo. No início manteve-se muito próximo e as coisas foram evoluindo naturalmente: eu precisava de intérprete para o entender e depois deixou de ser preciso; era muito tímido nas conversas e fui ganhando à vontade, até chegar ao momento em que nos tornámos amigos. Devo-lhe muito. É uma amizade eterna. Uma das primeiras vezes em que falámos, ainda em Lisboa, disse-me que tinha rebentado com a defesa do Man. United.

4 - Manchester ajudou a crescer

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R – Estava preparado para sair tão cedo do Sporting e enfrentar a vida num grande clube como o Manchester United?

CR – Fui para Inglaterra muito novo mas depressa deixei de ser um miúdo. Com o decorrer do tempo as responsabilidades aumentaram e penso que correspondi sempre ao que as pessoas esperavam de mim. Fui obrigado a crescer depressa e aprendi muito com o que me aconteceu ao longo da vida. Cedo me considerei uma pessoa madura, capaz de aguentar as exigências a que alguém na minha posição está sujeito. Desde o início que reajo à pressão com muita facilidade: não ligo. O ideal é encarar tudo isso adotando uma postura natural. Sinceramente, não penso muito nessas coisas. Faço a minha vida normal, dentro dos meus princípios, e pouco me importa o que dizem de mim como pessoa. Fui para o Manchester United porque me deu a grande possibilidade de chegar ao topo do futebol europeu e me permitiu crescer e evoluir na profissão. É um dos maiores clubes do Mundo e foi o primeiro a interessar-se por mim, apesar do interesse revelado por outros clubes, incluindo o Real Madrid. Aliás, já nessa altura, apesar de sentir-me bem em Inglaterra, nunca escondi que o meu desejo era um dia jogar em Espanha.

5 - Só o futebol interessa

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R – Foi-lhe difícil lidar com o tremendo assédio da imprensa cor de rosa?

CR – Não ligo a isso. Habituei-me a não ligar. Só me preocupo com o futebol e sobretudo só me preocupo com o que escrevem e dizem sobre aquilo que sou como jogador. Quanto ao resto, escrevem-se muitas coisas, umas boas outras más, umas agradáveis outras desagradáveis, com o inconveniente de muitas delas serem mentira. Não leio esses jornais e essas revistas mas acabo por ter conhecimento por familiares e amigos de algumas coisas que são ditas à margem da minha atividade. Chego a uma conclusão: há muita inveja. Só me interessa o que pensam de mim como jogador. Quanto ao resto não quero saber. Em Manchester, por exemplo, no início da carreira, saía à rua e percebia que estava a ser seguido por paparazzi. Só passado algum tempo fui informado que qualquer jogador do United que saísse à rua tinha logo um batalhão de fotógrafos atrás. Era impossível ir a um centro comercial, por exemplo, que eles iam atrás de nós para dentro das lojas.

6 - Real Madrid era sonho de menino

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R – A transferência para o Real Madrid foi mesmo o concretizar de um sonho de infância e adolescência?

CR – O Real Madrid sempre foi um objetivo de menino. Nunca o escondi. Havia uma série de jogadores que seguia como referências (Rui Costa, Figo, Zidane e Ronaldo Fenómeno) e o Real era o clube em que me via a jogar nos sonhos mais lindos. Não me arrependo de ter trocado Inglaterra por Espanha, porque dei o seguimento pretendido à carreira. Graças a Deus criei o meu espaço, a minha história, tanto num clube como noutro e espero escrever páginas ainda mais bonitas no Real Madrid e na Seleção. Sou frequentemente confrontado com a evidência de estar à beira de atingir o estatuto de lenda ao nível de Di Stéfano, Puskas ou Raul. É uma honra ser comparado a autênticos mitos do madridismo, embora considere que há muito para ganhar neste clube. Mas, reafirmo, é um privilégio que me dá uma motivação extra para continuar a trabalhar e ser melhor a cada dia que passa. Se vou bater o recorde de golos no clube? Gostava muito de consegui-lo e já não estou assim tão longe. Aconteça o que acontecer, vou dar sempre o máximo. Para atingir essa meta mas, principalmente, para ajudar a equipa a vencer.

7 - Um ano de ouro

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R – O ano de 2013, quando marcou 69 golos, apurou Portugal para o Mundial’2014 e foi inaugurado um museu na Madeira em sua honra, foi o melhor de sempre?

CR – Sim, pode dizer-se que sim, até porque foi o ano em que mais golos marquei mas, quem me conhece, sabe que procuro sempre superar-me a cada ano que passa. Acredito que é sempre possível fazer mais, seja a nível coletivo seja a nível pessoal, e é com esse espírito que encaro todas as épocas. Talvez em 2013 tenha criado mais impacto devido a algumas exibições e número de golos em alguns jogos mas todas as temporadas, anteriores e seguintes, foram igualmente positivas. Depois de tantas conquistas, ainda me falta no currículo o título de campeão pelo Sporting. Não sei se acontecerá ou não, porque ninguém sabe o que vai suceder no futuro, mas que seria um orgulho… lá isso seria.

8 - O clube e a Seleção

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R – Como reage a quem afirma sistematicamente que o Cristiano do Real Madrid não é o mesmo que joga na Seleção?

CR – Tenho vindo a provar às pessoas, e há muitos anos, aquilo que sou. Por isso, penso que essa acusação não é justa. Respeito a opinião das pessoas mas se forem um pouco inteligentes devem olhar para as estatísticas – e essas nunca mentem, É a opinião de cada um, eu oiço e tento demonstrar o meu futebol dentro de campo, que é o que sei fazer. O hat trick na Suécia, por exemplo, que selou a presença de Portugal no Campeonato do Mundo no Brasil, foi um dos grandes momentos da minha carreira. Não sei se foi o mais alto mas foi inesquecível e não só para mim. Tento ser o melhor em tudo aquilo que faço, isso é algo sempre muito importante para mim. Já tive a oportunidade de ganhar três vezes o prémio de melhor do Mundo e quero ganhá-lo novamente. Sei que não é fácil mas estou num grande clube, sempre com grandes treinadores e grandes jogadores à minha volta. Só podemos ter ambição de vencer esse tipo de coisas se ganharmos algo no plano coletivo e é isso que vou tentar fazer. A ausência de títulos na Seleção continua atravessada na garganta. Vamos manter a ambição e continuar a sonhar, na certeza de que não é impossível.

9 - Mourinho, Queiroz e Messi

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R – Não acha que tem alimentado relações complicadas com alguns treinadores?

CR – Nunca tive, não tenho e duvido que algum dia venha a ter problemas com algum treinador. Se cumprimentarei José Mourinho quando me cruzar com ele? Não percebo a razão da pergunta. Voltaria a trabalhar com qualquer treinador, dado que todos foram importantes nas diversas etapas da minha carreira. Falou-se muito de algumas desavenças mas, analisando as coisas do meu ponto de vista, sem qualquer fundamento. Carlos Queiroz? Foi uma pessoa muito importantes na evolução da minha carreira. A rivalidade com Messi, criada e alimentada pela imprensa, acaba por ser outro ponto de motivação suplementar. Isto porque entre nós não existe rivalidade: encontramo-nos nos relvados, pelos nossos clubes e até pela Seleção, nas entregas de prémios e falamos normalmente. Quando ele ganha os prémios individuais que eu também discuto dou-lhe os parabéns e o contrário também tem sido verdade. Por isso eu digo: diz-se e escreve-se muita coisa que não corresponde à verdade.

10 - Árbitros e adeptos hostis

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R – É um jogador muito castigado pelos adversários. Sente-se protegido pelos árbitros?

CR – Faz parte da vida de qualquer avançado mas, por vezes, sinto que exageram. Quantas pancadas levo durante um jogo? Sete, oito? Por que razão quando reajo tenho de justificar? Não é justo. Às vezes irrito-me, é normal. Com que moral é que os outros me acusam quando passo partidas inteiras a ser massacrado? Não percebo como é possível os árbitros serem tão complacentes com quem põe em risco a integridade física dos adversários e tão rigorosos quando as vítimas reagem por gestos, palavras e às vezes exigindo explicações. Noutra perspetiva, em Espanha continuam a assobiar-me constantemente quando vou a campos adversários – o que também sucede (um pouco menos) nas deslocações da Seleção Nacional. Os meus amigos estão sempre a dizer-me: "Cristiano, fora de campo todos gostam muito de ti, pedem-te fotografias e autógrafos mas depois, no relvado, querem matar-te." É exatamente como eles dizem. E continuo a não entender como é possível os árbitros serem tão pouco sensíveis a isto.

11 - Olhos postos no coletivo

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R – Quando obtém um grande feito pensa automaticamente no que ele pode representar para uma grande conquista individual?

CR – Quando entro em campo, a minha concentração direciona-se exclusivamente para o jogo. Todos os prémios individuais, Bola de Ouro incluída, preocupam-me zero. O que pretendo é jogar bem, fazer assistências e marcar golos para que a minha equipa, neste caso o Real Madrid, possa ganhar e manter o nível. É nisso que estou focado. Por vezes falo dessas coisas e sou logo confrontado com questões à volta da Bola de Ouro, por exemplo. Há ocasiões em que algumas pessoas descontextualizam as minhas afirmações e uma simples brincadeira pode dar azo a notícias sem sentido. Tenho estado sempre lá, no pódio, e isso demonstra que tenho vindo a fazer bem o meu trabalho. Para mim, isso é o mais importante: ter a noção de que correspondo às expectativas da equipa que represento e de que o grupo alcança os seus objetivos. Quanto ao resto já não depende de mim. Agora, quem me conhece sabe que eu gosto de ganhar sempre e em tudo, seja a brincar seja a sério. Umas vezes consigo, outras não. Faz parte.

(Este trabalho resulta de entrevistas concedidas por Cristiano Ronaldo ao "Record" entre 2002 e 2015)

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