A mobilização nacional de «Um Golo por Timor»
7 DE SETEMBRO de 1999. Em Bucareste, num cenário de alguma apreensão depois do empate no Azerbaijão, a selecção nacional defronta a Roménia para o Euro-2000. Noutro local do planeta, os habitantes de Timor-Leste enfrentam mais uma vez com a própria vida o poderio de um opressor chamado Indonésia. O Mundo, com o auxílio dos jornalistas no terreno, assiste indignado aos métodos criminosos utilizados para inviabilizar uma escolha -- a independência.
Nesse mesmo dia, em editorial, Record inicia aquela que viria tornar-se numa expressiva mobilização nacional: "O povo irmão de Timor-Leste vive mais um período dramático da sua sofrida história. Aparentemente não há muito que possamos fazer. Os homens do Desporto, dir-se-á, também não podem fazer muito por Timor. Mas podem juntar a sua solidariedade e a sua força mediática de forma decisiva. Record também não pode fazer mais do que lançar a ideia e desenvolvê-la nos próximos dias. É uma ideia simples, mas eficaz -- estimulante até para os jogadores e os adeptos. Chamámos-lhe 'Um Golo por Timor'."
Escolhido um ícone para a campanha -- o futebolista jugoslavo Sassa Drakulic --, o nosso jornal avança para a concepção de uma "t-shirt" e contrata uma empresa para imprimir 15 mil exemplares. Objectivo -- a distribuição das camisolas nos estádios durante a jornada do fim-de-semana. A resposta de jogadores, técnicos, dirigentes e adeptos à ideia de Record é imediata.
De norte a sul do País, as "t-shirt's" brancas com a inscrição "Um Golo por Timor" tornam-se no símbolo da solidariedade do futebol português para com Timor Loro Sae. A intervenção do nosso jornal não se limita, porém, à "onda branca" que perpassa pelos estádios. Na edição "on-line", Record disponibiliza um "link" destinado ao envio à ONU de mensagens de apoio à causa timorense. No corpo do jornal é criada uma secção (ainda existente) que acompanha a situação a par e passo. A 16 de Setembro é iniciada nova campanha -- "Mil contos por dia para Timor". Por cada exemplar vendido (durante duas semanas) o nosso jornal destina dez escudos ao Comissariado de Apoio à Transição de Timor.
Neste meio século de vida, Record provou em diversas situações que a condição de jornal desportivo não o impede de estar atento aos factos que influenciaram a chamada “sociedade civil”. Compreensívelmente, o marco que estabelece um olhar mais concreto sobre matérias “não desportivas” surge a 25 de Abril de 1974. Da Revolução ao acidente que vitimou Sá Carneiro; dos conflitos internacionais aos actos eleitorais que mudaram os destinos do País; de Saramago a Timor, sem esquecer Amália.
À distância de 25 anos, quase podia considerar-se premonitória a "manchete" do nosso jornal a 27 de Abril de 1974. O Sporting regressava de Magdeburgo depois da eliminação na Taça das Taças e ficou retido em Badajoz. A Revolução dos Cravos avançara no dia 25 e a comitiva leonina soube-o ainda na antiga Alemanha de Leste. "Foi no ‘Muro’ de Berlim que soubemos do Movimento das Forças Armadas", podia ler-se a toda a largura da primeira página. A Liberdade passou primeiro por Portugal e a comitiva leonina soube-o num local (símbolo de divisão entre o mundo livre e o mundo oprimido pela ditadura comunista) que só seria destruído 15 anos depois.
Record assinalou também o 1º de Maio de 74 (o primeiro vivido em liberdade, depois de quase 50 anos de opressão), mas das convulsões próprias do PREC o jornal evoluiu e cresceu, não obstante as dificuldades.
A 5 de Dezembro de 1980, a "manchete" voltava a focar um tema não desportivo: o acidente que vitimou Francisco Sá Carneiro. "Morte trágica do primeiro-ministro", lia-se na primeira página. Uma semana depois, em editorial intitulado "O ‘Record’ hoje", o nosso jornal garantia: "Estaremos por dentro de todas as situações de interesse nacional, procurando desenvolvê-las em termos informativos."
Passaram 19 anos. Record sublinhou e explicou o boicote aos Jogos Olímpicos de Moscovo de 80, dedicou espaço ao conflito no Zaire (em 1991), à 2ª maioria absoluta do PSD, às duas vitórias do Partido Socialista (em 95 e em 99), aos conflitos no Golfo, na Bósnia-Herzegovina e no Kosovo. Fez manchete com o prémio Nobel da Literatura atribuído a José Saramago, não deixou passar em claro o desaparecimento de Amália, solidarizou-se com a causa timorense. Na última década, o nosso suplemento de domingo entrevistou políticos, escritores, actores, actrizes, músicos.
Um jornal desportivo, sim. Mas "por dentro de todas as situações de interesse nacional". Como afirma o editorial escrito em 1980. Altura em que Monteiro Poças, um dos fundadores, era o director de Record.