António Capela: «Monstro» da reportagem

Adicione como fonte preferencial no Google

ANTÓNIO Capela, um dos "monstros" da reportagem desportiva em Portugal, é uma personagem incontornável na história de Record. A sua memória torna-se inevitável ao folhearmos os mais de sete mil números publicados desde a saída do primeiro, em 26 de Novembro de 1949. Sendo um homem de grande carácter e de elevado sentido de companheirismo, António Capela deixou, em cada um de nós, um amigo.

Mesmo dividido entre três grandes amores, o Sporting, clube do seu coração, que amou até ao derradeiro instante da sua vida (a sala de Imprensa de Alvalade tem actualmente o nome de António Capela), a família, que adorava, e o Record, ao qual prestou a mais dedicada e exemplar colaboração, António Capela era para uns um autêntico génio da fotografia e para outros um dos melhores repórteres fotográficos de sempre, senhor de um invejável instinto ou sagacidade profissional. Do seu talento surgia sempre o "boneco" ideal para uma primeira página. Deixou-nos em 1996, e com a sua partida ficou o jornalismo desportivo mais pobre. Ficam as suas imagens como testemunho da importância que pode ter uma máquina fotográfica.

O TESTEMUNHO DOS QUE COM ELE TRABALHARAM

TERESA MONTSERRAT: "Quando comecei a minha profissão de repórter-fotográfica no jornal ‘A Capital’, conheci o António Capela. Homem alto, com máquinas fotográficas penduradas no pescoço, no ombro e pela mão. Língua 'afiada', que brindava com 'mimos' toda a gente, fossem jogadores, dirigentes, agentes da autoridade, políticos, bombeiros, colegas, e outros. Todos estavam habituados às 'bocas' do Capela. Todos o conheciam. Passei, por isso, também a conhecê-lo. Vi que não era um fotógrafo vulgar. Tinha nascido com o verdadeiro sentido de repórter, isto é, onde havia acontecimento desportivo, o Capela estava lá. Quando fui trabalhar para o Record, conheci-lhe a outra faceta, a de colega. Acompanhámos a evolução que a fotografia teve nestes últimos anos na Imprensa desportiva, do preto e branco (revelação manual) a cores com revelação automática. Neste período, há duas imagens que recordo dele: a primeira eram as discussões que tinha com o chefe de Redacção e jornalistas da altura, sobre a fotografia e o seu clube, o Sporting; a outra, mais dramática, foi quando um dia cheguei à câmara escura e estava ele, atarefadíssimo, a revelar, cheio de sangue: tinha-lhe rebentado uma veia do nariz. Mas primeiro estavam as fotos do treino da manhã. Aos empurrões, meti-o no 115."

FRANCISCO PARAÍSO: "Mesmo sem ser da geração do Capela, ainda antes de iniciar a minha actividade profissional já conhecia o seu trabalho e a sua forma muito 'sui generis' de estar na vida, com o seu jeito extrovertido e alegre a contagiar toda a gente. Quando ingressei no 'Diário de Lisboa', tive então a grata felicidade de trabalhar junto do Capela, e a minha admiração e respeito por ele aumentaram ainda mais, até porque me identifiquei com a sua personalidade e com a forma hábil como resolvia todos os problemas, abrindo com certa facilidade algumas portas que pareciam estar fechadas, até porque, para mim, o Capela não tinha inimigos."

FERNANDO FERREIRA: "Para mim, o Capela foi um irmão mais velho, o homem que me ajudou a realizar a grande travessia que me conduziu à minha profissão. Antes disso, eu era um elemento do sector gráfico do 'Diário Popular', atraído por uma grande paixão chamada fotografia, e foi ele o primeiro a incentivar-me, estimulando-me para seguir em frente. Foi, portanto, para mim uma autêntica referência e um verdadeiro mestre, que jamais esquecerei. Depois disso, tive a grande honra de trabalhar a seu lado e, para além do seu enorme sentido profissional, revelou-se sempre um grande companheiro. Para mim, o António Capela nunca morreu."

JOÃO RIBEIRO: "Conheci o Capela quando era ainda empregado numa oficina na Rua Morais Soares. Juntamente com o Firmino Santos, tratei aí de um assunto, quando o Capela, sabendo que éramos jornalistas da fotografia, nos abordou, mostrando-nos uma máquina tipo 'caixote', que comprara na Feira da Ladra. Disse que o fizera para poder tirar fotografias aos jogadores do 'seu' Sporting. Mais tarde, já um senhor na reportagem fotográfica do desporto, o Capela surgia aos nossos olhos como um verdadeiro cidadão do Mundo, presenteando-nos com 'bonecos' de encantar, tal como aconteceu quando da visita do Papa a Portugal, ao conseguir uma foto de museu."

JOSÉ ANTUNES: "Estive ao lado do Capela quando ele deu o 'pontapé de saída' no início de uma carreira que viria a ser brilhante. O António surgiu nos laboratórios do extinto 'Diário da Manhã' para que eu o ajudasse a revelar os seus rolos. A partir daí, nasceu uma natural amizade, que se tornou mais forte à medida que o tempo passava e o seu companheirismo se acentuava. Por graça, chamavam-lhe o 'Capelini', nome que lhe foi dado por um editor fotográfico de um jornal italiano, o que em nada o preocupava, antes pelo contrário, até porque o Capela era um homem de grande coração, sempre pronto a ajudar um amigo, como aconteceu com o Vasco de Oliveira, que ele acompanhou até ao fim da sua vida."

Deixe o seu comentário

Últimas Notícias

Notícias
Newsletters RecordReceba gratuitamente no seu email a Newsletter Premium ver exemplo

Ultimas de Cinquentenário

Notícias
Notícias Mais Vistas