Dos sonhos de Manuel Dias à corrida de Monteiro Poças
1... FUNDAÇÃO
Manuel DIAS costumava dar o exemplo americano: nessa terra de sonhos existiam patrões de grandes jornais que haviam começado como ele, a vendê-los na rua. Era um homem decidido, apesar dos seus fracos recursos económicos, a fazer o mesmo em Portugal. Antigo atleta olímpico, com uma honrosa participação na Maratona dos Jogos de Berlim, em 1936, não era homem de desistir. E o dia 26 de Novembro de 1949 provou isso mesmo: Record nascia, fruto dessa persistência e da equipa que conseguiu fazer com Monteiro Poças e Fernando Ferreira.
A história é recordada todos os anos, por altura do aniversário do jornal: a ideia nasceu à mesa do Café Restauração, no Rossio, onde reuniam as gentes ligadas ao desporto. Dias convenceu os redactores Monteiro Poças e Afonso Lacerda, de "A Bola", a seguirem-no, e os três falaram com Fernando Ferreira, um professor de Educação Física que aderiu também ao projecto. Só faltavam as condições financeiras, mas a sorte deu um empurrão no sonho: naquela altura, era exigido pela Direcção-Geral da Censura fazer um depósito prévio de uma garantia bancária no valor de 40 contos, e a Manuel Dias saíram-lhe, na lotaria... 200 contos.
2... O TÍTULO
“Record” esteve para se chamar "Meta". A ideia para Record partiu de Fernando Ferreira, que a trouxe de Inglaterra, onde havia um jornal local desportivo de pequena dimensão com o mesmo título.
Havendo enorme hesitação entre um e outro título, Manuel Dias avançou com a solução. Recorrendo à sua experiência de vendedor de jornais na rua, foi para o Rossio, eram três/quatro horas da madrugada, e começou a apregoar os dois nomes, simulando uma venda de jornais. "Olhó Record!" ganhou. Dizem que por unanimidade.
Soube-se, muito mais tarde, que já existira em Portugal um "Record", publicação nascida em 1927 e pouco depois extinta.
3... A IMAGEM
Mas como apresentar o novo jornal? Ouvidas várias pessoas experientes ligadas ao meio, por sugestão de Fernando Botelho foi entregue a Meco, caricaturista de "O Século", a responsabilidade de conceber as cabeças para as diversas secções, e é ele que tem como título de glória o desenho do nome do jornal. Record, pelo desenho de Meco, perdura até 26 de Novembro de 1974, altura em que se decide mudar o logótipo. No ano seguinte, em Dezembro, a criação de Meco volta à primeira página do jornal. Até aos dias de hoje.
Meco desenhou ainda os cabeçalhos para as secções. Entretanto, Dâmaso Franco, que desempenhava um cargo de chefia no "Diário Popular", aconselhou nos segredos da tipografia.
4... A EQUIPA
A equipa saiu, em grande parte, dos quadros de "A Bola", então o jornal dominante no panorama desportivo. A tal ponto que nem faltou uma reunião para pôr Cândido de Oliveira ao corrente da situação. Record propunha-se sair aos sábados, enquanto "A Bola" se publicava às segundas e quintas-feiras. Cândido de Oliveira impôs a saída de Monteiro Poças do quadro de "A Bola" e não levantou problemas quanto a Afonso Lacerda e Fernando Ferreira.
Porém, dias antes da data prevista para a saída do primeiro número, Afonso Lacerda, que seria o chefe de redacção, desligou-se do projecto. Monteiro Poças, que reconhecia o papel importante de Lacerda, hesitou. Na redacção, Fernando Ferreira era o director e coordenava o trabalho; Manuel Dias fazia a ligação com a tipografia e Paula Bastos revia os textos.
Porém, à hora do fecho do primeiro número, Monteiro Poças, que seria o administrador, não apareceu. Fernando Ferreira falou com Alves dos Santos, transmitindo-lhe os receios. Monteiro Poças foi contactado, via telefone, para o Café Nicola, e depois de ultrapassadas todas as hesitações fez num pulo o trajecto Rossio-Bairro Alto. Um salto que já tem 50 anos.
5... ARRANQUE!
A corrida de Monteiro Poças, do Café Nicola, no Rossio, ao Bairro Alto, onde a "máquina" já andava (na Rua Luz Soriano, 67), fica para a história do jornalismo em Portugal. O primeiro número saiu no dia 26 de Novembro de 1949, com uma tiragem de 15 mil exemplares. Record custava 1$00, e no cabeçalho, por debaixo do "pós-título" Actualidade Desportiva lá vinham os nomes dos aventureiros: "Editor e Proprietário: J. Monteiro Poças/ Director: Fernando Ferreira/ Chefe de Redacção: Afonso Lacerda" (no segundo número, já se informa sobre a saída de Lacerda).
Record apresenta-se e, curiosamente, no seu primeiro número despede-se um grande desportista: o adeus de Espírito Santo é a peça de honra da edição. Fernando Ferreira entrevista o atleta e conta a história. A foto de Espírito Santo, dando autógrafos a um grupo de rapazes por ocasião de um treino antes do Portugal-Espanha, é um documento que valoriza o primeiro número.
Com chamada de primeira página, é publicada uma reportagem com a equipa do Palmeiras, do Brasil, que passa por Lisboa a caminho de Barcelona, e inicia-se uma secção que terá uma duradoura existência no jornal: "A Figura da Semana", onde, como se diz no editorial, "desfilarão, todos os sábados, os atletas portugueses que, no decorrer da semana, se salientarem, quer pelo seu desportivismo, quer pelo nível das suas exibições". A primeira "Figura" é Olivério Serpa, atleta do maior prestígio que então anunciara a sua retirada. A primeira página fecha com uma referência aos já famosos Harlem Globe Trotters, que tinham passado por Lisboa e esperavam por autorização da Federação Francesa para se exibirem em terras gaulesas. Lá por dentro, a tentativa de dar um grande volume de informação e também de opinião, uma área nunca menosprezada em Record: "Do estrangeiro... escrevem-nos", uma secção para pequenos artigos de atletas célebres em todo o mundo; "A Opinião dos Árbitros", onde se procura registar depoimentos da classe; e "Esperanças de hoje... certezas de amanhã?", reflexão sobre a evolução e o futuro dos atletas.