Os Fundadores: Manuel Dias, o persistente
OS JORNAIS sempre lhe estiveram no sangue. De tal modo que foi ardina, nos primórdios da sua vida, e esta estreita ligação com os jornais acompanhou-o até aos últimos dias da sua existência. Manuel Dias -- é dele que falamos -- deixou o seu nome gravado a ouro na fundação de Record.
Alguns dos nossos leitores saberão um pouco da história de Manuel Dias e dos seus companheiros, que há 50 anos arrancaram para um projecto arriscado, a que deram o nome de Record. Todavia, importa esclarecer e recordar como uma taluda premiada mudou para sempre a vida de alguns e, num contexto muito mais amplo, a própria Imprensa desportiva em Portugal.
Manuel Dias, repita-se, chegou a ser ardina. Mais tarde, aproveitando amizades com pessoas da Santa Casa da Misericórdia, conseguiu licença para montar um posto de Totobola. Instalou-se, imaginem, num vão de escada, à Rua da Prata, e era na zona da Baixa lisboeta que convivia com outros apaixonados do desporto e dos jornais.
Vivia na Mouraria e a esposa tinha um lugar de venda na praça. Praticou atletismo no Sporting e no Benfica e durante anos seguidos foi o melhor atleta português dos 800 metros à maratona, conquistando títulos e recordes e marcando presença honrosa nos Jogos Olímpicos de Berlim. Como adepto, não havia dúvidas: era um ferrenho benfiquista!
Um belo dia, saiu a sorte grande a Manuel Dias. A quantia não fez dele um multimilionário, ou algo parecido, mas foi o suficiente para o levar a congeminar a ideia de fundar um jornal. Convidou Monteiro Poças, Afonso Lacerda e mais tarde Fernando Ferreira para seus sócios. Lacerda desistiu, abandonou o que na altura já era um projecto a sério, mas os "três mosqueteiros" (que, afinal, também eram quatro...) puseram mãos à obra.
Daí em diante a luta foi titânica mas nunca ninguém baixou os braços. Manuel Dias continuou fiel aos seus princípios e teve sempre o grande condão de auscultar o público. O contacto directo com os leitores, com os amantes do desporto e das notícias, levaram-no a tomar uma medida, já na década de setenta, que se revelaria fundamental para a continuidade do Record: a saída ao domingo.
Numa época difícil (74/76, sensivelmente) do jornal, Manuel Dias foi, pois, o grande impulsionador da mudança de dia. O Record saía às terças, quintas e sextas-feiras e passou a sair às terças, sextas e domingos, a partir de 4/1/76. Curiosamente, neste dia, por ser domingo, os ardinas recusaram-se a vender o Record na rua...
Manuel Dias, obviamente, ganhou mais esta batalha. De tal modo que no Verão seguinte o jornal passou de tiragens médias de 12 mil para 30 mil exemplares! Faleceu em Agosto de 1996, com 92 anos.