Afonso Costa: «Remar com o meu ídolo é inexplicável»
Entrevista a Record
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Record – Apesar de ser algo normal, ambos admitiram que houve um ou outro desentendimento. Lembra-se de algum episódio?
Afonso Costa – Não me recordo ao certo. Não consigo escolher assim um episódio marcante. Esses choques acontecem e estranho seria se não fosse assim, que fosse tudo um mar de rosas. Nós estamos muitas horas um com o outro, muitas horas no barco…
Pedro Fraga – Já remei com outros atletas, remei inclusivamente mais de 10 anos com o Nuno Mendes e tive muitos mais episódios para contar. A maneira de estar do Afonso ajuda a equilibrar as coisas. Eu sou um bocadinho mais explosivo, mais direto, ele é mais ponderado, aparentemente mais calmo e isso também ajuda. Mas às vezes entramos em conflito, claro. Estou aqui a tentar lembrar-me de uma história, mas não aparece nenhuma em especial. Às vezes discutimos no barco, outras vezes… sei lá… é que não me lembro mesmo.
R – Então, já que falou aí de histórias com o seu antigo companheiro, lembra-se de alguma que ficou marcada para sempre?
PF – Nós lembramo-nos muito mais facilmente das coisas menos boas. Já tive alguns momentos caricatos, há pouco estávamos a falar de alguns conflitos. Já aconteceu eu não me estar a entender com o Nuno no meio do rio e me atirar à água e ir embora a nado e depois a pé pela margem, com ele a ficar no barco sozinho sem perceber o que tinha acontecido. Com o Afonso nunca tive este tipo de conflito.
R – O Afonso sempre disse que o Pedro era um ídolo. Leve-nos ao momento em que soube que ia ser seu companheiro.
AC – Já lá vão três anos, mas na altura foi um processo. Não foi do nada. Fomos experimentando nos treinos, fomos trocando tripulações, o Pedro remou com muitos remadores para além de mim. Foi um processo gradual que acabou por ser, sei lá… remar com o melhor remador da história do remo português, com o meu ídolo, é inexplicável. Sabia que tinha de lá chegar, queria remar com ele porque sabia que se quisesse ir aos Jogos Olímpicos de Tóquio tinha de ser com ele, por isso agarrei essa oportunidade com unhas e dentes.
R – E o Pedro já vê no Afonso o que é preciso para ser uma referência?
PF – Sem dúvida. Pelo talento, pelas capacidades que ele tem e também pela maturidade que já demonstra. Será bem mais exemplar do que eu.
R – Como sabemos, este não foi um ciclo olímpico normal devido à pandemia. Quais foram as principais dificuldades?
AC – Foi a perda da essência do nosso desporto, o contacto com água e com o exterior. Remar no remoergómetro e fazer bicicleta estática foi complicado porque foi muito tempo. Juntando isso à falta de competição e de motivação por vezes, foi duro. Mas sabíamos o que queríamos, sabíamos que a qualificação ia ser adiada, mas o objetivo continuava a ser o mesmo. Mas houve muitas ocasiões em que fomos ‘obrigados’ a ir arranjar motivação extra, porque foram meses bastante complicados.
R – Já tinham tido uma oportunidade para se qualificarem para os Jogos em 2019, mas só o conseguiram este ano. Com tudo o que aconteceu, alguma vez duvidaram?
PF – Sim, eu acho que é legítimo ter dúvidas, ainda hoje tenho dúvidas se poderá haver Jogos Olímpicos daqui a três meses. Nada é certo, mas naquela altura ainda mais incerto era. No início parecia que não se ia passar nada e depois, do nada, estávamos em casa e estava tudo a ser cancelado. Isso foi um momento que não sabíamos se íamos ter a regata de qualificação mesmo antes dos Jogos. Foi um momento de incerteza. Nós nunca deixámos de estar focados, mas houve incerteza. Ainda hoje, acordo de manhã focado para treinar, mas, no fundo, a dúvida continua lá.