Aniversário junta gerações de ciclistas

A Federação Portuguesa de Ciclismo festejou ontem os 120 anos e Record juntou duas figuras na pista de Alpiarça. Uma já acrescentou e outra promete acrescentar páginas muito bonitas a esta história

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Marco Chagas e Maria Martins entrevistam-se um ao outro

A Federação Portuguesa de Ciclismo festejou ontem os 120 anos e Record juntou duas figuras na pista de Alpiarça. Uma já acrescentou e outra promete acrescentar páginas muito bonitas a esta história

MARCO CHAGAS – Queres que te trate por Maria ou por Tata?

MARIA MARTINS – Como quiser.

MC – Então, diz-me uma coisa, Maria. Nasceste em 1999, ainda és uma criança. Tens ideia de como era o ciclismo no meu tempo?

MM – Nasci num ano e cresci num período em que o ciclismo português deu um grande passo e não vivi o ciclismo antigo, do seu tempo. Apesar de não ter passado por isso, conheço histórias e contam-me bastantes coisas de ciclistas como o António Castro, Joaquim Agostinho e mesmo do Marco. Como já disse, apesar de não a ter vivido, consigo ter uma ideia do que era essa realidade.

MM – Para o Marco, quais são as principais diferenças?

MC – Bem, como disseste, foi um tempo completamente diferente e basta olhar para esta camisola que trago [camisola amarela]. Por outro lado, a Maria é logo um grande exemplo das diferenças. Há bem pouco tempo era impossível ver uma mulher com o nível que a Maria já tem, principalmente na pista. Nunca pensámos que no século XXI iríamos ter uma mulher que já discute provas a nível internacional e que tem pretensões a ser uma atleta olímpica já nos próximos Jogos. Tudo isto é um bom exemplo da diferença para o meu tempo, onde até os homens passaram à margem das grandes competições. A ausência de aposta e de condições teve custos muito grandes para a nossa modalidade.

MC – O que te puxou para a nossa modalidade?

MM – O ‘bichinho’ começou com aqueles passeios de família, em especial com o meu tio. Ele fazia BTT, ia para o parque de Monsanto e eu pedia-lhe para me levar para uma voltinha. Mais tarde lá me federei e comecei a competir. Em cadete experimentei a estrada e, num estágio que a Seleção Nacional organizou, também a pista. Esse foi o primeiro impacto com a pista.

MC – Ficou a paixão logo?

MM – Claro, mas também com medo, porque aquilo assusta. Vi as curvas íngremes e pensei: "Como é que vou andar ali? Vou cair!" Não caí nessa primeira vez e tive logo bastante entusiasmo na pista.

MC – E em boa hora!

MM – No seu tempo, viam-se mulheres a tentar fazer vida do ciclismo?

MC – Em Portugal, fora de questão. No meu início de carreira era muito difícil ver uma mulher, impensável mesmo. Só muito mais tarde, após eu ter deixado, é que aparece a Ana Barros e outras, como a Isabel Caetano, que acabaram por ser referências. Na altura nem havia a ideia de "ah, vamos fazer um corrida de mulheres". Não, estava fora de questão.

MC – Sempre te sentiste apoiada na modalidade?

MM – Sempre. Não em termos materiais, mas sempre tive o apoio da minha família, da minha equipa e nunca me senti só. Isso é muito importante e qualquer atleta que tenha o apoio da família…

MC – É meio caminho andado!

MM – Na altura, foi complicado dizer à família que se ia dedicar ao ciclismo a 100%?

MC – A minha história, mesmo tendo sido há 50 anos, foi semelhante à tua. A minha família foi fundamental! Se não tivesse esse apoio, teria sido impossível. Muitos dos meus contemporâneos ficaram pelo caminho, muito devido a essa falta de apoio. Eu tive esse privilégio e essa sorte e, como o meu tio Ramiro Martins também era corredor de bicicleta, foi fácil convencer os meus pais. Foi uma pessoa que me marcou e que me influenciou na paixão pelas bicicletas. Ele entretanto abandonou, mas a minha paixão ficou.

MC – Com todas as viagens que já fizeste, tens noção de quantos países já visitaste?

MM – Ainda tenho bastantes para visitar, mas já tenho alguns. Na Europa, em quase todos, agora estive em Hong Kong, Nova Zelândia, antes China e outros. Nunca corri na América nem em África, são os próximos na lista.

MC – Isso no meu tempo era completamente impensável.

MM – Lembra-se da sua primeira bicicleta de competição?

MC – Não sei exatamente quanto pesava, mas lembro-me porque comprei essa bicicleta aos 14 anos. Custou-me 2 mil escudos, que agora são 10 euros. Mas custou-me muito a chegar a esse dinheiro, porque, como disse, comecei a trabalhar miúdo e comecei a fazer aquele pé-de-meia para comprar essa bicicleta, que utilizei nas minhas primeiras competições, uma dessas que acabava aqui, na pista de Alpiarça, num contrarrelógio em que fui ultrapassado por dois adversários. Lá me consegui vingar, porque no ano seguinte fui eu que ganhei, já com outra bicicleta que me custou 4 mil escudos, o dobro da outra.

MM – Preferia correr nos tempos de hoje?

MC – Não sou muito de dizer que no meu tempo é que era. Vivi naquele tempo e foi difícil para todos. Não fui mais beneficiado por isso, antes pelo contrário, porque até acho que saí prejudicado em vários aspetos. Mas foi aí que vivi e fiz a minha carreira e as pessoas que viveram antes de mim ainda tiveram maiores dificuldades. Agora, respondendo diretamente à pergunta, se corresse hoje, continuava a ter alguma possibilidade de ser protagonista. Teria eu e teriam aqueles meus colegas, os que me antecederam e os que viveram comigo. Em cada época, somos aquilo que é possível ser e hoje odeio quando dizem que aquele era melhor do que este. Não! Cada um viveu no seu tempo. As pessoas têm de respeitar todos. Os tipos dos anos 40 e 50 foram uns heróis, os tipos dos anos 60 e 70 foram outros heróis, tal como os tipos de hoje também o são. Vivi naquele tempo e gostei muito, mas se fosse hoje, tenho a certeza que também seria corredor de bicicletas.

MM – No seu melhor, como acha que seria um sprint contra mim aqui, nesta pista?

MC – Devia ser muito complicado... para mim. Nunca fui sprinter. Neste caso, acho que não tinha hipóteses contra ti, porque és verdadeiramente uma sprinter. Faço sempre essa distinção, porque quem é sprinter é sprinter em tudo, estava a olhar para as tuas mãos e o estado em que estão, isto é o custo de ser sprinter, enquanto eu, quando a coisa ficava complicada, não me punha lá. Num confronto direto contigo, nunca teria hipótese.

MC – Corres na estrada e na pista. Onde te sentes mais confortável?

MM – Provavelmente na pista. Sendo uma vertente que está mais ligada às minhas características de sprinter e roladora, sinto que é mais a minha praia. Na estrada, há etapas que me assentam bem, mas há outras que nem tanto. Já a pista é sempre plana e lá safo-me melhor porque as minhas características sobressaem lá.

MC – Qual será a tua aposta se tiveres de fazer uma escolha no futuro?

MM – Até agora a pista e a estrada têm sido compatíveis, mas, claro, ocupam a temporada inteira, tenho os 12 meses cheios, seja em corridas, seja em preparação para as mesmas. Não consigo escolher, porque acho que se complementam. Se conseguir fazer as duas, vou continuar a fazê-lo. No entanto, neste momento a pista está em primeiro lugar, porque me está a dar a possibilidade de realizar o meu sonho que é ser olímpica. Vamos deixar o tempo correr e ver no que dá.

MC – Como é o teu dia-a-dia?

MM – É normal… para um atleta de alta competição, claro. Acordo, tomo o pequeno-almoço, faço a preparação para o treino, treino, regresso para almoçar, recupero e descanso. Há dias que temos dose dupla com ginásio à tarde. Quando não temos, há nutricionista, psicólogo, massagem… O dia de um atleta é um bocado fechado, tem pouco tempo para a vida social e está longe de ser a vida normal de uma pessoa de 20 anos.

R - Tocou num ponto curioso. Considera o psicólogo fundamental?

MM – Um atleta sem psicólogo é um atleta sem cabeça. Passamos por muitas fases ao longo do ano, já estive lá no fundo e agora estou bem cá em cima. O psicólogo ajuda a equilibrar o nosso estado emocional, dá-nos a luz quando estamos no escuro e dá-nos a força para continuar quando estamos no topo. No fundo, é uma mão que podemos agarrar.

Record agradece à Câmara Municipal de Alpiarça a cedência da pista de ciclismo para a realização desta reportagem.

Por Pedro Filipe Pinto
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