Entrevista a Ruben Guerreiro: «Deixei tudo em busca do sonho»

Ciclista português participa este domingo no Mundial de Yorkshire

RECORD - Começando pelo início, quando que nasceu o ‘bichinho’ pelo ciclismo?

RUBEN GUERREIRO - Nasceu desde pequeno, quando via a Volta a França. Era bastante novo, tinha uns 9 ou 10 anos, e ficava pregado à televisão a ver as corridas, acho que foi por aí. Eu até jogava futebol, mas sempre sonhei em ser ciclista um dia.

R - Quando recebeu a primeira bicicleta? Lembra-se de como era?

RG - Não me lembro muito bem, sinceramente, mas recordo-me de me terem comprado uma qunado tinha cinco ou seis anos, essa é que deve contar como a primeira. Já não tinha rodinhas! Era de BTT e usei-a muitas vezes, equipava-me à ciclista e ficava todo contente.

R - Sentiu desde aí que o seu futuro era o ciclismo ou foi percebendo aos poucos?

RG - Foi crescendo aos poucos, sim. Desde pequeno que há aquela coisa de querer ser jogador de futebol, mas sempre me senti muito bem em cima da bicicleta não sei porquê, e nunca estive muito tempo sem andar. Mesmo quando estava em equipas de futebol, tinha de arranjar sempre um tempo para andar. Também acompanhava todas as corridas e esse sonho de um dia ser ciclista foi ficando cada vez maior.

R - Quando é que percebeu?

RG - Talvez quando passei a sub-23. Acabei a escola e pensei que tinha de me aplicar a 100 por cento no ciclismo. Desde aí que fiz vida de profissional, fiz dois anos em Santa Maria da Feira com o Manuel Correia e passei praticamente a profissional na Axeon.

R - Quem via como ídolo nessa altura?

RG - O Lance Armstrong. Eu via o Tour e era ele que ganhava sempre, estava sempre com a camisola amarela e eu olhava e pensava para mim que um dia tinha de ser eu.

R - Como foi em termos de apoio? Sentiu-se sempre apoiado ou alguma vez pensou em dedicar-se a outra coisa?

RG - A minha família foi sempre impecável comigo desde o início. Todos me apoiaram, pais, avós tios… todos. Hoje estou onde estou por causa do que o meu pai e a minha mãe fizeram por mim, porque me deram força desde o início.

R - Foi complicado tomar a decisão de ir tão jovem para os Estados Unidos para correr pela Axeon?

RG - É muito difícil sair da zona de conforto, é verdade, mas sempre fui um aventureiro e só foi difícil aguentar os primeiros meses. Depois os meus pais habituaram-se e como passava por casa de vez em quando, a coisa não foi assim tão complicada. Mas ter de passar três ou quatro meses fora de casa, nos Estados Unidos, com 20 anos, não foi nada fácil.

R - Foi mais difícil para si ou para os seus pais?

RG - Foi para os dois de igual forma, mas faz parte.

R - Foi complicado deixar a família, amigos, basicamente a vida, em Portugal?

RG - Não foi fácil, mas como já falámos, eu deixei isso tudo para trás em busca do meu sonho.

R - O que lhe deram aqueles dois anos numa das melhores equipas de desenvolvimento do Mundo?

RG - Deram-me excelentes condições, corridas do melhor e grandes companheiros, eu tinha de fazer o resto do trabalho. As coisas saíram bem e, ao fim de dois anos, já estava numa equipa de World Tour, na Trek.

R - Essa foi a decisão certa?

RG - Sem dúvida. O mais complicado é sempre a saída de Portugal. A partir daí, o primeiro passo já está dado para chegarmos ao World Tour. Podemos sair para uma equipa Continental ou Pro Continental, não interessa, é sempre positivo. Ir para a Axeon foi um grande apoio para conseguir chegar ao pelotão internacional que foi o que eu sempre quis. As coisas podiam ter-se dado de forma diferente, mas este foi o caminho que segui.

R - A vitória nos Campeonatos Nacionais em 2017 comprovam que esse foi mesmo o passo correto?

RG - Foi, foi… No fundo essa foi a primeira, e por enquanto a única, vitória como profissional, mas foi logo no primeiro ano como profissional na Trek e logo nos Campeonatos Nacionais, que são as minhas provas favoritas. Era uma vitória que eu já procurava há muito tempo e acabou por ser a cereja no topo do bolo de todo o trabalho de formação. Não estava nada à espera.

"Vuelta foi muito boa, mas podia ter sido perfeita"

R - Todos dizem que fez uma excelente Volta a Espanha, mas ficou mesmo realizado?

RG - Perfeito era se tivesse ganho uma etapa, tentei muito, mas só um é que consegue. Tive algumas vezes perto, mas vou voltar a tentar. Foi uma corrida muito boa, mas podia ter sido perfeita.

R - Chegou ao pelotão rotulado de homem para clássicas, depois desta performance ainda se sente assim?

RG - As clássicas continuam a ser as minhas corridas favoritas, mas depois desta Volta a Espanha as coisas confundiram-se um pouco, não estava nada à espera. Fiquei fascinado com a forma como se correm três semanas. Esta corrida mostrou-me que um dia posso lutar por um top-10. Foi uma surpresa boa ter estado assim.

R - Se pudesse escolher uma corrida para colocar já no palmarés, qual seria?

RG - É difícil dizer, mas o Campeonato do Mundo que vamos ter agora é uma corrida que um dia gostava muito de ganhar, mais do que qualquer outra. Não penso muito em ganhar a Volta a França porque sei que é muito difícil, tal como nos Mundiais, mas nesta tudo pode acontecer. Pode ter-se um dia bom e passar-se ao lado e ter um dia mau e ganhar. *

"A nova geração vai dar alegrias"


R - Está aí o Campeonato do Mundo e a sua forma não poderia estar melhor...

RG - É verdade, sinto-me bastante bem. Estou em muito boa forma, mas nesta corrida nunca se sabe. Quero estar no sítio certo à hora certa e espero ter a minha oportunidade. Estou com muita vontade de fazer estes Campeonatos do Mundo porque os últimos dois não me correram nada bem. Que à terceira seja de vez. Que chegue ao fim com o sentimento de dever cumprido.

R - O líder tem sido sempre o Rui Costa, mas com o que tem feito nestas últimas semanas, espera ter uma oportunidade?

RG - Só a corrida o dirá. Sou sempre um corredor fiel à equipa e obedeço sempre às ordens do diretor, neste caso selecionador. Sei que o senhor Poeira vai tomar sempre a melhor decisão.

R - O que será um bom resultado para Portugal?

RG - É o top-10. Habituámo-nos a ter o Rui Costa e o Nélson Oliveira, este no contrarrelógio, no top-10 e todo o grupo já pensa nesse objetivo. A equipa tem bons elementos, temos seis, e poderemos muito bem alcançar esse resultado. Mas lá está, é preciso um pouco de sorte.

R - O Ruben é, provavelmente, a cara da nova geração do ciclismo português. Depois de uma década com vitórias de Rui Costa, Tiago Machado ou Nelson Oliveira, o que podemos esperar dos próximos 10 anos?

RG - Esses em boa hora colocaram a fasquia ainda mais elevada. O ciclismo português está a atravessar um bom momento, temos muitos jovens valores e acho que podemos marcar esta nova década de uma forma muito positiva. A nova geração vai dar muitas alegrias. *

"Duvido que algum dia me vá fartar do ciclismo"

R - O que seria se não fosse ciclista?

RG - Isso é muito complicado de dizer, mas... tenho uma ‘pancada’ pelos carros e acho que, pela adrenalina, poderia ser piloto, mas não sei se faria bons resultados. Sempre dentro do desporto, não me consigo ver parado.

R - Ainda falta muito tempo, mas já tem planos para quando pendurar a bicicleta?

RG - Ainda não tenho nada planeado. Quero ter uma carreira longa e com muito sucesso, só depois é que vou pensar nisso. Mas uma coisa é certa, quero continuar ligado à modalidade. Ainda sou relativamente novo, mas já tenho muitos anos disto. Ainda não me fartei e duvido que algum dia me vá fartar, por isso espero continuar ligado.

"Tive a sorte de ser da confiança de Contador e Degenkolb "

R - Como foi dar o salto para a Trek, logo aos 22 anos?

RG - No primeiro estágio ainda não estava muito dentro da equipa, mas com o passar do tempo fui-me integrando e dava conta que já estava no World Tour.

R - E como foi correr ao lado de Contador ou Degenkolb?

RG - Há sempre grupos dentro das equipas, com esses líderes a terem sempre oito companheiros de confiança que fazem sempre as corridas com eles. Eu tive a sorte de ser da confiança do Contador e do Degenkolb.

R - Houve algum tipo de praxe?

RG - Houve pois. No último jantar do primeiro estágio tive de acabar com três garrafas de vinho mais não sei quantos ‘shots’ de bebidas brancas...

R - Como é que isso acabou?

RG - Na cama! (risos)

Por Pedro Filipe Pinto
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