Francisca Laia: «Não conto medalhas... isso é viver do passado»

Canoísta do Clube Desportivo Os Patos, em entrevista a Record

• Foto: Direitos Reservados

RECORD - Porquê o regresso aos Patos? Deve ter tido outros convites...

FRANCISCA LAIA – Infelizmente a canoagem é desvalorizada em Portugal e os grandes clubes não investem assim tanto. Com a saída do Sporting, houve também um desinvestimento por parte do Benfica, os dois clubes grandes que têm canoagem. Houve outras propostas, claro, mas para mim o que faria sentido era voltar a Abrantes e representar a cidade onde cresci. Quero levar Abrantes e ‘Os Patos’ aos Jogos Olímpicos.

+ Qual o grande objetivo que se segue?

FL – No que toca à minha carreira, é o campeonato nacional. No que toca à medicina, vou começar a trabalhar em janeiro. É algo irónico ter conseguido o apuramento para os Jogos em 2016 quando ainda estava a estudar e agora não ter conseguido o apuramento para Tóquio quando estava 100% dedicada à canoagem. Agora vou começar a trabalhar, a fazer o ano comum e vou voltar a conciliar a medicina e a canoagem.

+ Já é oficialmente a Dra. Francisca?

FL – Sim, inscrevi-me na Ordem há muito pouco tempo. Achei que era um passo importante a dar. A melhor comparação ao facto de ter falhado os Jogos Olímpicos é a sensação de ser despedido. Ficamos sem saber o que fazer. Precisava de alguma coisa que me voltasse a motivar e para estar feliz. Achei que era o momento ideal para voltar à medicina.

+ A carreira de alta competição não dura para sempre. É um alívio ter um ‘canudo’ que garanta um futuro noutra área?

FL – Claro que sim. Vivemos num país em que um atleta de alta competição não está 100% descansado porque tem de saber o que é que vai fazer no futuro. Sempre tive isso muito presente e decidi tirar o curso de medicina exatamente por isso, para garantir que no futuro iria estar bem. E também para estar mais descansada enquanto atleta, pois tenho um plano B. É uma realidade que podia ser mudada. Há muitos países (Alemanha, Itália e Espanha) em que os atletas de alta competição são integrados em forças militares ou policiais e dessa forma o Estado acaba por lhes assegurar um futuro e não os descartar.

+ A fase em que teve de conciliar a medicina e o desporto foi a mais difícil da sua vida?

FL – Sem dúvida. Olhando agora para trás, é difícil perceber como é que consegui acabar o curso nos seis anos. Ajudou-me muito o facto de ter desde cedo a canoagem. Comecei a praticar canoagem em 2003, com 8 anos. Não sei o que é estar na escola sem a canoagem. Consegui sempre manter o nível. Foi duro, é um facto, mas quando temos um sonho e sabemos para onde queremos ir, as coisas são possíveis. Houve dias maus. Não fiz aquele treino como devia ter feito porque estava muito cansada. E houve dias em que deixei de estudar para fazer canoagem. Tive de encontrar um equilíbrio e manter o foco. Se temos sonhos são para ser realizados.

+ Nunca pensou em desistir? Para além do desgaste físico, deve ser um desgaste psicológico muito grande...

FL – Na faculdade, não. Quando estava no secundário, sim. Sou uma pessoa que gosta muito de desafios. Quando entrei na faculdade, em 2012, aceitei o desafio. ‘Ok, toda a gente diz que não é possível tirar medicina e fazer outra coisa? Vamos lá tentar!’. Foi um desafio pessoal e uma meta que tracei. ‘Tu vais ser capaz!’. Nunca perdi o foco e fiz tudo o que pude para o conseguir.

+ Fale-me da rotina nesta altura.

FL – Essa vida louca durante seis anos era acordar, treinar, almoçar e ir a correr para as aulas das 14h às ou 20h. Depois voltava a treinar e às vezes, às 22h, ainda ia estudar porque no dia seguinte tinha um exame.

+ Uma rotina exaustiva, mas que deve ter garantido muitas medalhas. Quantas tem?

FL – Não conto medalhas. São muito importantes e são a prova dos nossos resultados, mas não gosto de viver do passado. Quando ganho uma já estou a pensar na próxima. Contei uma vez quando tive de fazer um currículo, quando deixei o Sporting. Prefiro focar-me sempre no próximo objetivo. Tenho as minhas medalhas guardadas em caixas debaixo da cama.

Por Rafael Godinho
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