Hélio Lucas: «O Fernando Pimenta não é de desculpas»

O técnico nacional falou do canoísta, das origens em Ponte de Lima e das polémicas algas nos Jogos do Rio de Janeiro

• Foto: Arquivo / Armândia Queirós

RECORD - É considerado um dos impulsionadores da canoagem em Portugal. É uma vida dedicada a este desporto...

HÉLIO LUCAS - Dediquei mais de metade da minha vida à canoagem. Já queria ser treinador quando comecei a praticar. Fiz um trajeto muito ligado à modalidade e abrangendo todas as áreas, o que contribuiu para o meu desenvolvimento como treinador e como pessoa. Fui dirigente, treinador e presidente de uma associação de canoagem. Fui vice-presidente da Federação Portuguesa de Canoagem. Desde 2014 que sou técnico nacional. Fiz um contributo positivo nas diversas áreas em que trabalhei.

+ Quando é que entrou pela primeira vez num caiaque?

HL – Já foi tarde, foi já aos 16 anos. Eu sempre quis ser professor de educação física, mas a minha mãe dizia-me para não ir. Joguei futebol e basquetebol. Sempre adorei desporto e sempre o vivi de forma muito intensa. Aos 16 anos, um professor levou-nos a fazer canoagem e eu gostei e a partir dali comecei a praticar de forma muito intensa. Aos 17 anos, o professor lá do clube abandonou e os colegas decidiram que eu é que devia tentar organizar aquilo para irmos às provas.

+ Qual era o clube?

HL – Era a Escola Desportiva Limiano, em Ponte de Lima. Era um clube que tinha várias modalidades, mas também tinha a canoagem inserida.

+ É treinador do Fernando Pimenta, a grande referência da canoagem em Portugal. Quando é que se conheceram?

HL – Quando ele tinha 11 ou 12 anos. Eu era treinador do Clube Náutico de Ponte de Lima. O Fernando entrou naquelas ações de iniciação à canoagem durante as férias de verão. Há umas provas que só são específicas para eles. Ele entrou e não era o exemplo do atleta excecional que é hoje. Era bastante descoordenado, virava muitas vezes e ficava nos últimos. Mas tinha uma capacidade que era a força de vontade enorme. No período de inverno, que é mais duro e mais frio, normalmente junto alguns atletas e escolhi-o para ele vir. Ele pensava que era brincadeira. E foi aí que iniciou o percurso normal. Não foi logo no primeiro ano nem no segundo que teve resultados de excelência. Foi melhorando e foi consistente. Aos bocadinhos foi conseguindo. O primeiro título foi como cadete, já tinha 15 anos, ou seja, três anos de trabalho depois.

+ Como é que um atleta descoordenado passou a ser campeão do Mundo?

HL – Não há nada sem trabalho, disciplina e rigor. Ele sabe disso e trabalha bastante. Às vezes podíamos estar mais tempo em casa, mais tempo perto da família como outros atletas que pouco saem da sua zona de conforto, mas sabemos que isto nos obriga a ir para fora, a excesso de altitude, às vezes para sítios em possamos estar uma temporada larga a treinar. Aos bocadinhos foi isso.

+ Em 2016, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, muitos portugueses ficaram colados à televisão a ver a final do Fernando Pimenta de K1 1.000 metros. Era a grande esperança na medalha, mas acabou em 5.º lugar. O que é que lhe disse?

HL – No início ele chorava. Não é fácil. Nós tínhamos estado um ano antes no Rio e sabíamos que a pista tinha bastantes algas e lixo. A Federação Internacional de Canoagem homologou um leme antialgas porque sabiam que a lagoa estava cheia de algas. O Pimenta, durante um aquecimento, numa prova antes dos Jogos, juntou uns 10 kg de lixo só para tentar limpar um bocadinho a pista. Já nos Jogos, colocámos essa quilha antialgas mas vimos que havia muito vento lateral e quando assim é o leme curto não segura o barco. Quase todos os atletas tiraram esse leme antialgas e partiram para as provas assim. O Fernando fez bem as eliminatórias e a semifinal. Lembro-me de que numa tarde fomos dar uma caminhada para termos algum sossego e começou uma tempestade e viemos para o hotel. No dia da final, chegámos e a água estava muito mexida e cheia de lixo. Curioso que os atletas que eram medalha não a conseguiram.

+ Foi uma desilusão enorme?

O Pimenta vinha de ser campeão da Europa com uma vantagem de quase três segundos, uma coisa inédita na canoagem. Estava nos treinos com um desempenho fantástico. Nós sabíamos que ele podia lutar pelo recorde olímpico. Estava com tempos para isso. No final da prova, houve países que se juntaram para reclamar. Portugal demorou algum tempo a tomar essa decisão. A Alemanha e a Eslováquia foram bater à nossa porta. O eslovaco que ia lado do Fernando apanhou algas. Mas quando foram reclamar já foi tarde. Já na Aldeia Olímpica disse-lhe: ‘Olha, vamos lanchar e conversar.’ E ele disse-me assim: ‘Lucas, não vale a pena debatermo-nos. Eu já virei a página. Aconteceu o que aconteceu e nós não conseguimos mudar nada. Já estou com a cabeça nos próximos Jogos.’ No ano seguinte, sagra-se vice-campeão do Mundo e a pessoas disseram: ‘Afinal...’

+ Mas houve muita gente a achar que as algas foram uma desculpa.

HL – As pessoas acharam que era uma desculpa e isso ainda foi pior. Ficámos os dois tristes porque foram quatro anos anos de trabalho. Não houve nenhuma câmara aquática a dizer quem apanhou algas ou não. O Fernando, normalmente, tem uma segunda parte da prova ligeiramente mais lenta. Mas em provas de dois quilómetros nunca baixa dos 16 km/h. Não é possível, por isso, fazer o andamento que ele teve que andou a 15 km/h. As pessoas pensam que é desculpa, mas o Fernando não é de desculpas.

+ Logo após a prova , o Fernando Pimenta lembrou os sacrifícios que fez como os treinos no inverno com muito frio. As pessoas têm noção disso?

HL – Eu costumo dizer que em todas as profissões há dificuldades. O Fernando quer sempre estar na zona das medalhas e estamos há muitos anos nisso e é óbvio que isso desgasta. Parece que lhe estavam a apontar coisas quando ele foi talvez dos mais exemplares. Uma coisa é dizer que o atleta fraquejou ou foi mau nisto ou naquilo, mas aqui foi a única coisa que não se consegue controlar que foi a questão das algas. Houve um jornalista que me perguntou o que podia impossibilitar o Fernando de ganhar uma medalha. E eu disse. ‘Ele virar ou apanhar algas.’ Não virou, mas apanhou as algas. Houve um atleta da Dinamarca que disse que apostou o seu dinheiro no Fernando [risos].

+ E agora, quais os objetivos do Fernando Pimenta em Tóquio?

HL – Em primeiro lugar é chegar à final na sua regata já que cada vez o nível internacional dos atletas está mais alto e nestes Jogos Olímpicos os barcos individuais e duplos podem ser dois por país, o que nunca aconteceu. E na final é melhorar o resultado do Rio de Janeiro.

+ Em 2018, o Fernando Pimenta sagra-se campeão do Mundo. Foi o ponto alto da sua carreira enquanto treinador?

HL – Não dizia isso. No K4, em 2014, quase se sagrou campeão do Mundo, mas é lógico que ser campeão do Mundo e conseguir duas medalhas [conseguiu ainda o bronze] deixou-me extremamente satisfeito.

Por Rafael Godinho
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